F-ECO: O que são e como funcionam as Políticas Macroprudenciais?

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“Políticas macroprudenciais são medidas que visam fortalecer o sistema financeiro, reduzindo o risco tipicamente procíclico do mesmo. Esse comportamento ocorre porque em períodos de expansão econômica, há incentivos para demasiada expansão do crédito, elevando o risco das operações. Seu objetivo final é suavizar o risco no tempo, ao conter expansões de crédito em períodos de boom e assegurando a liquidez em períodos de contração.

Os instrumentos podem ser separados em dois grupos: os de dimensão temporal, que buscam conter a prociclicidade do risco, e os de dimensão cross-section, onde objetiva-se controlar esse risco em um dado momento, considerando a contribuição de cada instituição financeira para tal. Dentro do primeiro grupo são utilizados os seguintes instrumentos:

  • Provisão de perdas para devedores duvidosos, de forma que o risco de empréstimos seja minimizado;
  • Requerimentos mínimos de capital, utilizados de forma anticíclica, para que eles sejam mais elevados em períodos de expansão e mais baixos em períodos de contração, elevando e reduzindo o fluxo de crédito de acordo com a conjuntura;
  • Recolhimentos compulsórios: Instrumento capaz de influenciar a capacidade de empréstimo dos bancos. Também deve ser utilizado de forma anticíclica.
  • Loan-to-value ratio: Razão entre o valor dos ativos emprestados e o colateral. A razão tende a diminuir nas fases de expansão e aumentar nas fases de contração. A regulamentação teria como objetivo tornar a avaliação do colateral menos sensível ao preço do ativo;
  • Descasamento de moedas: Evitar o descasamento de moedas tem o intuito de fortalecer o sistema financeiro, principalmente para países com moeda internacionalmente fraca, uma vez que o endividamento externo é procíclico.

Em relação ao segundo grupo, destacam-se medidas para regular o capital dos bancos, com enfoque nas operações de ativos e passivos das instituições.

Políticas Macroprudenciais no caso brasileiro

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No caso do Brasil, observa-se a utilização de políticas macroprudenciais no período imediatamente anterior à eclosão da crise. Naquele período, ainda de expansão econômica, o Banco Central aumentou os recolhimentos compulsórios devido a aceleração das operações de crédito, buscando impedir seu crescimento desenfreado. Ao mesmo tempo, a taxa básica de juros manteve-se elevada, como forma de controlar as pressões inflacionárias.

Com a deflagração da crise, o recolhimento compulsório mais uma vez foi utilizado como ferramenta para manter a saúde do mercado financeiro. Dessa vez, percebe-se o processo de queda do mesmo, com o intuito de resguardar a liquidez dos bancos no cenário de crise. Paralelamente, a SELIC começa uma trajetória de queda.

Em um terceiro momento, no começo de 2010, o Banco Central do Brasil considera que o sistema financeiro está seguro e portanto, mantendo a lógica de uma política macroprudencial anticíclica, os recolhimentos compulsórios voltam a aumentar e a SELIC também começa um movimento de elevação.

Assim, podemos ver que a relação entre políticas macroprudenciais e política monetária no caso brasileiro é de fato complementar, uma vez que ambas foram utilizadas de forma conjunta para, ao mesmo tempo, manter a inflação sob controle, através das taxas de juros, e manter o sistema financeiro protegido do risco, na medida do possível, por meio da movimentação do recolhimento compulsório.

A crise ensinou que o uso de um único instrumento de regulação é insuficiente, forçando a política monetária a olhar para outros aspectos e, assim, surge o papel da medida macroprudencial, que afeta o canal de crédito.

 

Bibliografia:

INFOMONEY. Entenda melhor o que são medidas macroprudenciais e sua atuação na economia. Disponível em: <http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/2066656/entenda-melhor-que-sao-medidas-macroprudenciais-sua-atuacao-economia>. Acesso em: 19 set. 2016.

MISHKIN, F. S. The Conduct of Monetary Policy: Strategies and Tactics, In: The Economics of Money, Banking and Financial Markets. Cambridge: Pearson Publishing, 2012. p. 399

OLIVEIRA, G.C.; ROLIM, L.; BLIKSTAD, N. Regime de metas para a inflação e medidas macroprudenciais: uma análise à luz da experiência brasileira recente (2008-2013). Revista Pesquisa & Debate, São Paulo, v.27, n.1, p. 27, mar. 2016.”

 

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E-Ecec: A busca da estabilidade e o regime de metas de inflação: lições do caso brasileiro

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“Buscando reverter as expectativas e restabelecer a credibilidade da política monetária devido à mudança de regime cambial em janeiro de 1999 – depois de um período de estabelecimento de uma âncora nominal baseada no câmbio (1995-1998), o BCB reconheceu a urgência de uma âncora nominal para a economia por meio do regime de metas de inflação, ou inflation targeting (IT). Em 21 de junho desse ano, o país aderiu formalmente a esse sistema com o decreto 3.088. Nove dias depois, a Resolução 2.615 definiu o índice de preços e as metas para 1999 e para os próximos dois anos.

No regime de metas de inflação, a autoridade monetária anuncia publicamente metas para a inflação futura, isto é, adota uma atitude forward-looking, com ações de comprometimento com a meta estabelecida. Entre os elementos fundamentais do IT, são apontados por Mishkin:

  1. anúncio público de metas numéricas de médio prazo para a inflação;
  2. comprometimento institucional com a estabilidade de preços;
  3. a atuação da autoridade monetária deve ser pautada na transparência e comunicação;
  4. mecanismos de monitoramento da atuação da autoridade monetária.

Para analisar a implementação das metas de inflação é relevante considerar aspectos como o índice de preços, largura da banda de variação, horizonte da meta, cláusulas de escape e prestação de contas em caso de descumprimento. No Brasil, bem como na maior parte dos países que adotam IT, foi escolhido um Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), tendo como horizonte da meta o período de 12 meses.

A Figura 1 mostra a flutuação do IPCA e da expectativa de inflação Focus, bem como o intervalo de tolerância praticado em cada período:

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Desde sua adoção, a inflação efetiva ultrapassou o intervalo de tolerância em 2001, 2002, 2003 e 2015, como mostrado detalhadamente na Figura 2. Toda vez que as metas estabelecidas pelo CMN não são cumpridas, cartas públicas do Presidente do BCB são enviadas para o Ministro da Fazenda explicando os motivos do descumprimento e as medidas para atingir o que foi inicialmente proposto.

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O contato com o público não é uma exclusividade dos Bancos Centrais que adotam o regime de metas de inflação. Porém, as autoridades monetárias que o adotam tomam um passo a frente ao publicarem documentos como os Inflation Reports. Esses esforços decorrem do que é apontado por Mishkin quanto a questão da transparência ser um elemento fundamental para o IT. Em 2002, a carta do presidente do BCB revela que o descumprimento da meta foi explicado pelo cenário internacional e pelo efeito da forte depreciação do real sobre os preços de 2001, tônica que persiste na carta de 2003. No ano seguinte, a persistência da inflação e da deterioração das expectativas impediram o cumprimento da meta nos limites estabelecidos.

Em 2016, o fator preponderante foi a intensidade inesperada do ajuste dos “preços administrados” em relação aos “preços livres” e dos preços domésticos em relação aos internacionais. Como ações previstas para convergir à meta, a carta ressaltou a importância de se manter vigilante aos ajustes de preços relativos de forma a ancorar as expectativas novamente.

Por fim, como aponta Minella e outros (2002), o regime de metas de inflação passou a ser um importante mecanismo coordenador de expectativas, de forma geral, orientando o processo de formação de preços. Os movimentos de política monetária passam a ser mais previsíveis ao mercado no médio prazo e as expectativas de inflação podem ser formadas com mais eficiência. A partir do momento em que a política monetária constroi credibilidade, os reajustes de preços tendem a ser próximos à meta. Uma consequência, verificada na experiência brasileira, refere-se à redução do grau de persistência da inflação.

 

Referências

BOGDANSKI, Joel; TOMBINI, Alexandre A.; WERLANG, Sergio R. da C. Implementing inflation targeting in Brazil. Banco Central do Brasil. Working Paper, n. 1, 2000. Dsiponível em: <https://www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps01.pdf&gt;

MISHKIN, Frederic S. The economics of money, banking, and financial markets. Pearson education, 2013.

MINELLA, André et al. Inflation targeting in Brazil: lessons and challenges. Banco Central do Brasil Working Paper, n. 53, 2002. Disponível em: <https://www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps53.pdf&gt;

MINELLA, André et al. Inflation targeting in Brazil: constructing credibility under exchange rate volatility. Journal of international Money and Finance, v. 22, n. 7, p. 1015-1040, 2003. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps77.pdf

SILVA, R. Estabilidade Econômica e metas de inflação: uma avaliação do caso brasileiro. Tese (Doutorado), FEA/USP, São Paulo, 2002.

 

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E-ECO: Uma comparação entre os instrumentos de política monetária no Brasil e nos EUA

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Introdução

Sabemos que existem 3 principais instrumentos que afetam a política monetária, são elas:

  • Reservas compulsórias
  • Taxas de redesconto
  • Operações no open Market

Os objetivos nos EUA e Brasil no que diz respeito ao manuseio dos instrumentos monetários são os mesmos, mas os meios para consegui-los são distintos.

Caso Brasileiro

A gestão de política monetária do Brasil geralmente se da em open Market e reservas compulsórias. A taxa de redesconto de liquidez não é utilizada no Brasil, pois temos um sistema de pagamentos muito avançado em questão de tecnologia. Pois os fluxos de caixa são feitos em tempo real. Com este sistema, os riscos de liquidez passam a ser dos bancos comerciais e não do banco central, sendo assim, os bancos comerciais são obrigados a assumir esses riscos e terminar o dia sem estarem no “vermelho”. O banco central não remunera as reservas dos bancos comercias junto a ele como acontece nos EUA, impossibilitando (ops!!) assim a formação de um mercado de reserva.

Comparação com o caso americano:

A política monetária dos EUA é condensada nas reservas compulsórias e voluntárias. Isso ocorre porque o FED paga aos bancos comerciais uma taxa para as reservas guardadas junto a ele, criando assim um mercado de reservas nos EUA.

Como todo mercado existe também uma taxa (iff – interested federal funds). Como as reservas dos bancos americanos são lastreadas em títulos públicos, esta taxa do banco central americano vem da formação dos mercados de títulos. Com este esboço podemos apresentar a curva de oferta de reserva deste mercado como a somatória das reservas não emprestáveis (MBn – nonborrowed monetary base), que são as operações de open Market e as reservas emprestáveis (BR – borrowed reserves), que consiste nas compulsórias e voluntárias, que, para serem retiradas do FED, devem pagar uma taxa de redesconto. A formação da demanda neste mercado consiste na atuação dos bancos comerciais.

­­­Relação dos Depósitos Compulsórios com o Multiplicador Monetário

Depósitos compulsórios são instrumentos de política monetária e de preservação da estabilidade e a Solidez do Sistema Financeiro Nacional e influenciam o multiplicador monetário, ampliando ou reduzindo o volume de recursos que os bancos podem transformar em crédito para a economia e, dessa forma, controlam a expansão dos agregados monetários.

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Figura 1 – Depósitos Compulsórios Brasil 09.2006 à 09.2015

Como visto anteriormente, o depósito compulsório possui uma relação inversa com o multiplicador monetário, pois quanto maior os depósitos compulsórios, menos recursos os bancos terão para emprestar e menor será o multiplicador monetário.

Utilização dos compulsórios na crise internacional de 2008

Nos países mais expostos aos papéis lastreados em hipotecas subprime do mercado imobiliário norte-americano houve uma rápida deterioração dos indicadores de solvência dos bancos e motivou a adoção de medidas emergenciais de contenção da crise. Entretanto no Brasil, as medidas adotadas foram para atenuar os efeitos da crise sobre o sistema bancário doméstico para compensar a diminuição da liquidez nos mercados financeiros. O confortável volume de depósitos compulsórios possibilitou ao BCB injetar liquidez no sistema bancário e contribuiu para normalização das condições de crédito. Houve uma liberação seletiva de recursos que deveriam ser direcionados a aquisição de ativos ou realização de depósitos de/em bancos pequenos e médios. Os recursos foram liberados para aplicação em instituições com Patrimônio de Referência de até R$7 bilhões que não fizessem parte dos conglomerados dos aplicadores. Para evitar a concentração, cada banco poderia aplicar somente 20% de tais recursos em uma mesma instituição. Essas medidas ocasionaram uma redução do montante agregado recolhido, de pouco mais de R$ 250 bilhões para cerca de R$ 180 bilhões.

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Fiugra 2 – Evolução do Recolhimento Compulsório 03.2008 à 03.2016

Referencias Bibliográficas:

https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries

http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/faq%2012-depósitos%20compulsórios.pdf

https://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/fomc.htm

MISHKIN, F. “Economics of Money, Banking and Financial Markets, 10th Edition.”

Notas de Aula

 

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D-Ecec: FED e Banco Central Brasileiro: Uma comparação entre suas estruturas e ferramentas de Políticas Monetárias

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Segundo Mishkin, a estrutura do FED tem a seguinte composição:

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  • Board of Governors – BoG: Composto por 7 diretores aprovados pelo senado, sendo todos sendo membros FOMC. Indicam 3 diretores para cada FRB que não tenham ligação com o sistema bancário. É responsável por definir a taxa de redesconto e a taxa de reservas compulsórias.
  • Federal reserve banks – FRBs (12 unidades): Pareceria público-privada, sendo a parte privada bancos comerciais que compram ações dos FRBs. São responsáveis pela emissão de moeda e pela coleta de informações que orientam as políticas monetárias. A participação privada indica 6 diretores para cada FRB, sendo 3 banqueiros e 3 do setor de bens e serviços.
  • Federal Open market Committee – FOMC: Composto pelos 7 Governors e por 5 diretores dos FRBs. O presidente do BoG é também presidente do FOMC. É órgão responsável pelas decisões quanto a operações de open market.

Atribuição de atividades no sistema financeiro do Banco Central Brasileiro:

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  • Conselho Monetário Nacional (CMN) é o órgão superior do Sistema Financeiro Nacional e tem a responsabilidade de formular as políticas monetárias e de crédito, objetivando a estabilidade da moeda e o desenvolvimento econômico e social do País.
  • Comissão Técnica da Moeda e do Crédito (Comoc) atua como órgão de assessoramento técnico na formulação das políticas monetárias e do crédito do País.
  • Banco Central do Brasil é o principal executor das orientações do Conselho Monetário Nacional, dentre suas funções estão:

                   → realizar operações de redesconto e empréstimo às instituições financeiras;

                   → receber recolhimentos compulsórios e voluntários das instituições financeiras;

                   → efetuar operações de compra e venda de títulos públicos.

  • Comitê de Política Monetária (Copom) Tem objetivo de estabelecer as diretrizes da política monetária e de definir a taxa de juros, esta é fixada na reunião do Copom é a meta para a Taxa Selic (taxa média dos financiamentos diários, com lastro em títulos federais, apurados no Sistema Especial de Liquidação e Custódia)

 

Comparando ferramentas de políticas monetárias (Bacen x FED)

 

  • Taxa de redesconto – Enquanto nos EUA é um Instrumento de Pol.Monetária importante, no caso brasileiro isso não acontece. O Sistema Pagamentos Brasileiro possibilita que os desequilíbrios bancários sejam sanados entre os próprios bancos através de títulos de curtíssimo prazo (1 dia) chamados Certificados de Depósito Interbancário (CDIs). Atualmente, a taxa de redesconto determinada pelo FED está fixada em 1%. Já no caso brasileiro, a taxa de redesconto é baseada na taxa básica de juros (Selic) mais 1%.
  • Reservas Compulsórias: Fazendo um comparativo sobre a taxa de depósitos compulsórios à vista, temos uma discrepância nas apresentada pelo BACEN e pelo FED. Enquanto o primeiro obriga bancos comerciais e outras instituições financeiras a depositarem 45% de suas captações em depósito à vista, o FED, por lei, cobra uma taxa que pode variar de 7% à 22%, permanecendo normalmente perto dos 10%.
  • Open market: Ambos FED e BCB operam com títulos pós (Treasury Inflation Protected Bonds; NTN-B)  e pré-fixados (Treasury Bonds; LTN e NTN-F). As operações podem ser de caráter temporário, com compromisso de recompra visando ajustar a oferta de moeda no curto prazo, ou permanente, visando ajustes em resposta a movimentos econômicos de longo prazo.

Sistemas de metas de inflação:

Desde 1995 o Brasil utiliza o sistema de metas de inflação com bandas cambiais (Houston, we have a problem!!) para buscar a manutenção das taxas de inflação em níveis baixos. Após a definição da meta CMN,, o Banco Central brasileiro possui total responsabilidade e independência operacional para conduzir a política monetária e atingir a meta;

Já nos EUA, o FED adotou a política de meta de inflação após o ano de 2012, visando, além do controle de preços, que a economia retorne ao nível natural de desemprego.”
Referências:

http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/bitstream/handle/10438/568/1163.pdf?sequence=2&isAllowed=y

https://www.newyorkfed.org/medialibrary/media/markets/omo/omo2015-pdf.pdf

http://www.bcb.gov.br/pre/composicao/composicao.asp

http://www.bcb.gov.br/htms/copom/a-hist.asp

http://www4.bcb.gov.br/pec/gci/port/focus/faq%2012-dep%C3%B3sitos%20compuls%C3%B3rios.pdf

http://www.fgv.br/professor/fholanda/Arquivo/Sistfin.pdf

https://www.federalreserve.gov/monetarypolicy/fomc.htm

MISHKIN, F. “Economics of Money, Banking and Financial Markets, 10th Edition.”

 

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D-ECO: Shadow Banking

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“O que é o Shadow Banking?

De acordo com o Financial Stability Board (FSB) – órgão internacional que monitora o sistema financeiro global – “Shadow Banking” (SB) é definido como um sistema de intermediação de crédito que envolve atividades e entidades fora do sistema bancário tradicional, que realizam operações bancárias sem estarem sujeitas às mesmas regulações dos bancos comerciais, como um sistema bancário paralelo.

O termo foi utilizado pela primeira vez pelo economista e ex-diretor da PIMCO, Paul McCulley, no ano de 2007. O surgimento do SB é atribuído: tanto à relativa falta de canais de financiamento para pequenas e médias empresas – que passaram a buscar alternativas em intermediadoras de créditos não sujeitas às rigorosas regulamentações – quanto à busca por parte dos bancos comerciais por atividades com retornos mais elevados.

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legenda: “O surgimento do shadow banking”,

fonte: Google Imagens]

Se por um lado, essas entidades aumentam a eficiência do sistema financeiro –  complementando e concorrendo com o sistema bancário tradicional, ampliando a oferta de crédito e provendo fontes alternativas de investimentos – por outro lado, aumentam o risco sistêmico, uma vez que não estão sujeitas aos mecanismos de regulação e supervisão, como: normas específicas, operações de redesconto, seguros de depósitos e linhas de empréstimos com os bancos centrais.

Desse modo, tornam-se muito vulneráveis, tanto em relação a uma “corrida dos bancos”, quanto a desequilíbrios patrimoniais, deixando o mercado sujeito a crises como a de 07/08.

 

O Shadow Banking no Brasil

De acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira, publicado em 2015 pelo Banco Central do Brasil, no caso brasileiro, fazem parte do sistema de SB, entidades como: fundos de investimentos, veículos estruturados ou estruturas de securitização (fundos de investimento em direitos creditórios (FIDC), certificados de recebíveis imobiliários (CRI), certificados de recebíveis do agronegócio (CRA)), fundos de investimento imobiliário (FII), intermediários de mercado e companhias financeiras.

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legenda: “Crescimento: Shadow Banking vs Sistema Bancário Tradicional”,

fonte: Relatório de Estabilidade 2015, BCB

 E em relação ao sistema norte-americano, ainda são somados: as agências quase públicas (Fannie Mae e Freddie Mac), os bancos regionais de crédito hipotecário (sem acesso às políticas de redesconto), as seguradoras e os fundos de pensão.

Veja na tabela a seguir a estimativa ampla da participação das entidades que compunham o sistema de SB brasileiro:

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legenda: “O tamanho do SB Brasileiro”,

fonte: Relatório de Estabilidade 2015, BCB

O Shadow Banking na Crise

No mercado americano, indivíduos estavam pegando empréstimos com instituições do sistema bancário paralelo, e dando seus imóveis como garantia; sendo assim, o valor dos empréstimos a receber no ativo do banco que emprestou o recurso, estava diretamente ligado ao valor dos imóveis-garantia.

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legenda: “Ativos baseados em hipotecas”

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legenda: “Total de ativos relacionados a hipotecas nos EUA, por tipo de instituição financeira”

Quando ocorreu o crash no mercado imobiliário, os bancos perceberam que os valores dos imóveis hipotecados estavam abaixo dos valores devidos às instituições financeiras, fato que levou muitos agentes à inadimplência.

Enquanto o valor dos ativos dos agentes do sistema bancário paralelo começou a reduzir, e seus passivos a aumentar (devido às taxas pós-fixadas nos empréstimos), houve redução do Patrimônio Líquido dessas entidades, tornando as suas obrigações insustentáveis e as instituições ilíquidas, devido à falta de acesso às linhas de crédito especial do banco central.

Devido ao pânico financeiro, o risco de seleção adversa e o risco moral aumentaram, reduzindo o nível de empréstimos que os bancos comerciais realizaram, e consequentemente, reduzindo o crescimento da atividade econômica.

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legenda: “Novas emissões de valores mobiliários garantidos por ativos, nos três meses anteriores”

Para prevenir crises como essa, foram criadas um conjunto de medidas pelo Fórum de Estabilidade Financeira em 2010, conhecidas como Acordo de Basiléia III, visando aumentar a solidez do sistema financeiro através de:

  • Aumento das reservas de capital dos bancos ponderadas pelo risco
  • Novas regras sobre o grau de alavancagem
  • Novos Sistemas de monitoramento e gestão de riscos
  • Novos instrumentos de governança corporativa” 

 

Referências

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002008000300002

http://www.bcb.gov.br/htms/estabilidade/2015_03/refC6P_1.pdf

https://www.febraban.org.br/7Rof7SWg6qmyvwJcFwF7I0aSDf9jyV/sitefebraban/Auditorio%202%2030.09%20%2011%2030%20%20Shadow%20Banking%20-%20Rodrigo%20Lara%20Pinto%20Coelho%20-%20ok%20site.pdf

http://www.bis.org/ifc/events/6ifcconf/jacksonmatilainen.pdf

http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2013/06/basics.htm

http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2014/wp1410.pdf

http://www.fsb.org/wp-content/uploads/global-shadow-banking-monitoring-report-2015.pdf

https://www.pimco.com/insights/economic-and-market-commentary/global-central-bank-focus/the-shadow-banking-system-and-hyman-minskys-economic-journey

https://www.newyorkfed.org/medialibrary/media/research/epr/95v01n2/9507edwa.pdf

 

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C-ECO: Problema de agência e concentração do mercado interbancário

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Principais problemas de agência enfrentados pelos mercados de capitais brasileiro

É característico do mercado de capitais moderno a relação dos direitos de propriedade e de controle de uma companhia. Muitas vezes, a propriedade da empresa, pulverizada entre vários acionistas, apresenta um grande descolamento da capacidade de comando das diretrizes e objetivos. Isto faz com que diretores e acionistas menores apresentem objetivos distintos quanto ao futuro da companhia, caracterizando um dos problemas de agência do mercado de capitais brasileiro, o dilema do agente-principal.

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É constatado que existe certo grau de expropriação de benefícios privados do acionista minoritário em prol do acionista majoritário. Parte desta expropriação decorre da formação da estrutura de capital no Brasil, com divisão de papeis em dois grandes grupos de ações: ordinárias, ligadas ao direito de decisão, permitindo o voto; preferenciais, que priorizam o direito sobre o cash-flow.

Observando as sete maiores firmas em valor de mercado com ações transacionadas na bolsa, vemos uma grande concentração das ações ordinárias.

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Com a concentração de blocos de ações em que os diretores sejam os donos da companhia, há incentivo à eficiência e maximização do lucro, que é uma boa sinalização ao mercado. Porém, quando o gestor com plenos poderes gere a empresa de acordo com seus interesses, temos de fato o descolamento de objetivos entre controlador e investidor. É neste contexto que se insere o dilema do agente-principal: a assimetria de informação entre as partes torna o mercado ineficiente.

O Brasil possui recursos que visam mitigar o gap de informação, porém, notamos pouca utilização destes em relação a omissão e falta de padronização das informações, sobretudo sobre os negócios das empresas, que induz os investidores a erros nos valores de mercado.

Os problemas de agência, em especial aqueles no contexto da assimetria de informação, são grandes entraves para o desenvolvimento de um mercado eficiente de longo prazo que seja responsável pelo investimento produtivo do país.

Concentração do mercado interbancário brasileiro e o impacto disso sobre a redução dos custos de transação

Com o início do Plano Real, em 1994, o Banco Central adota uma nova legislação e supervisão bancária, reduzindo o  número de bancos, devido à uma série de fusões, incorporações e liquidações ocorridas. Começando, assim, a apresentar tendências de aumento de concentração.

É possível analisar o índice de concentração bancária através do índice de Herfindahl-Hirschman (HH), que considera todos os bancos que fazem parte da amostra e atribui maior peso àqueles que possuem maior representatividade, sendo considerado, assim, um indicador consistente para a análise da concentração de mercado.

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O gráfico a seguir representa a evolução do índice HH do Brasil de 2004 a 2014.

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A elevação bancária a partir de 2007 ocorreu pois, com o objetivo de aumentar seus ganhos de escala e poder de mercado, visando competir no mercado internacional, os grandes bancos no mercado nacional realizaram uma série de fusões e aquisições. Além disso, o aumento das restrições à entrada de novos concorrentes em função da existência de economias de escala, técnicas operacionais complexas e investimentos em tecnologia também aumentam o grau de concentração.

Segundo Mishkin (2012), sabemos que há dois fatores que reduzem os custos de transação por investidor: 1) economias de escala, pois o custo fixo é dissolvido entre as transações; 2) alto grau de especialização, pois permite maior eficiência do uso e desenvolvimento de técnicas que visam reduzir os custos de transação e tornar serviços de maior liquidez mais acessíveis ao público. Assim, é possível concluir que a elevação da concentração bancária brasileira alavancou ganhos de escala, reduzindo os custos de transação e aumentando a competitividade e eficiência dos maiores bancos.

Referências

Aldrighi, Dante Mendes; Neto, Roberto M. “Estrutura de propriedade e de controle das empresas de capital aberto no Brasil.” Revista de Economia Política 25.2 (2005): 115-137.

Barbosa, Roberto Rodrigues. “Análise da concentração do setor bancário brasileiro entre os anos de 2004 e 2014.” (2015).

MISHKIN, F. “Economics of Money, Banking and Financial Markets, 10th Edition.”

 

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C-Ecec: PRINCIPAIS FONTES DE FUNDOS EXTERNOS DAS EMPRESAS BRASILEIRAS NÃO-FINANCEIRAS

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A estrutura do sistema financeiro comunica a alocação de recursos entre agentes na economia. Assim, Frederic S. Mishkin apresenta 8 fatos estilizados sobre a estrutura financeira pelo mundo que nos ajudam a responder o seguinte questionamento: “Quais são as principais fontes de fundos externos das empresas brasileiras não-financeiras?”, destacaremos 3 fatos:

  1. Ações não são a fonte mais importante de recurso externo de financiamento para empresas;
  2. A emissão de título de dívidas e valores mobiliários não é a primeira opção em que as empresas financiam suas operações;
  3. Intermediários financeiros, particularmente bancos, são as mais importantes fontes de recursos externos usados para financiar ativos.

O autor apresenta dados do artigo de Hackethal e Schmidt (2004) que exemplificam de forma empírica esses fatos, mostrando e comparando os dados – coletados junto aos Bancos Centrais dos respectivos países – da fonte de recursos externos para empresas não financeiras nos Estados Unidos, Alemanha, Japão e Canadá. O resultado do estudo pode ser verificado a seguir:

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Ao elaborar uma análise para empresas brasileiras foi preciso buscar outra fonte de informação, uma vez que o Banco Central disponibiliza a maioria dos dados desse gênero sob a ótica dos investidores.

Um levantamento realizado pelo Banco Mundial através da Enterprise Surveys construiu uma amostra sobre as fontes externas de financiamento de empresas do setor privado de vários países. A amostra coletada para o Brasil em 2009, apresentadas no Gráfico 2, foi feita com 1802 empresas em sua maioria de médio porte compreendendo diversos setores, como: alimentício, têxtil, vestuário, químico e produtos químicos, maquinários e equipamentos, mobília, manufatura, varejo, TI e serviços de TI e outros serviços.

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Verifica-se que 92% dos recursos externos no Brasil são provenientes de intermediários financeiros (bancos e fornecedores de crédito), assim nos dando algumas evidências de que o fato estilizado apontado por Mishkin, que indica que intermediários financeiros são a fonte externa mais importante usados para financiar ativos pode também ser observado no mercado brasileiro. O fato sobre o mercado de títulos não ser a primeira opção de fundos externos de financiamento não pode ser observado empiricamente uma vez que não existem dados dessa variável. De forma geral, percebe-se uma convergência dos dados do estudo em relação à teoria, porém é importante ressaltar que a amostra utilizada é bastante restrita para análises e definições.

É válido lembrar que as metodologias da Enterprise Surveys e apresentada pelo Mishikin diferem. Além disso, enquanto os dados do artigo apresentados no livro são resultado de uma média do período de 1970-2000, a pesquisa do Banco Mundial, apresenta dados apenas do ano de 2009. Outra observação importante é a falta de informação sobre a porcentagem referente a fonte de recursos provenientes do mercado de títulos. Dessa forma, dificultando a comparação entre os dados encontrados para o Brasil e os apresentados pelo livro.

Uma fonte de recursos em destaque na economia brasileira é o Banco de Desenvolvimento Econômico e Social – BNDES.  Ainda que as instituições financeiras tenham um papel de destaque no fornecimento de crédito para financiar os investimentos das empresas na economia, estas encontravam dificuldade para obter opções de financiamento de investimento produtivo no longo prazo. Os motivos abrangem o alto risco, baixo retorno e incertezas. Nesse cenário o papel do BNDES teve grande destaque, sendo sua principal função apoiar projetos de investimentos que contribuam para o crescimento do país, concedendo empréstimos de longo prazo com taxas de juros mais competitivas que as taxas de mercado.    Nos últimos cinco anos realizou um desembolso médio de aproximadamente 163 bilhões de reais destinados a financiamentos de pequenas, médias e grandes empresas. (COUTO e TRITIM, 2012).

 

REFERÊNCIAS

http://www.akb.org.br/upload/011020121854415026_Ana%20Cristina%20Lima%20Couto.pdf

http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=254463  

http://www.enterprisesurveys.org/data/exploreeconomies/2009/brazil

 

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