Inovações Didáticas – Experimentos

 

Lecionar disciplinas fora da área de métodos quantitativos propicia a implementação de algumas interessantes inovações didáticas. No presente semestre, ao lecionar Economia Monetária (minha área preferida ;-)), posso recolocar em prática algumas estratégias de ensino e de avaliação que tenho usado nos últimos anos e compartilho aqui com possíveis interessados, em três partes.

Uma delas é o uso de experimentos/jogos para introduzir conceitos econômicos abstratos. Reporto aqui trecho de uma resenha que publiquei para esclarecer o funcionamento dessa estratégia:

SILVA, Roseli ; BATISTA-FERREIRA, N. N. . Resenha Bibliográfica: BECKER, William E.; WATTS, Michael; BECKER, Suzzane R. (Ed.). Teaching Economics: more alternatives to chalk and talk. Cheltenham-UK: Edward Elgar Publishing Limited, 2006. 225 p.. Estudos Econômicos (USP. Impresso), v. 40, p. 967-973, 2010.

 

“Um exemplo clássico de jogo de leilão duplo[1] para pontuar a importância didática do uso de experimentos, e indica fontes já notoriamente conceituadas sobre o assunto[2]. Os apontamentos de Hazlett indicam que a eficácia dos jogos como método pedagógico requer que, além da sua simples aplicação, o professor utilize os dados gerados para uma profunda discussão com os alunos. No decorrer do curso, o professor pode recorrer à experiência do jogo para continuar aprofundando outros conceitos.

Nesta discussão os conceitos econômicos relevantes devem ser deduzidos pelos próprios alunos através da experiência vivida. O professor deve conter-se e ter atenção suficiente com a linguagem utilizada para não influenciar os alunos, levantando questões capazes de induzir o raciocínio deles. Dado seu fim pedagógico, é importante que o jogo ocorra sempre antes da apresentação dos conceitos econômicos e não depois. Segundo a autora, quando o jogo é aplicado após a explicação dos conceitos, os alunos questionam se os resultados alcançados são efetivamente válidos.

A autora aponta que, para os jogos em sala de aula, vale a mesma regra fundamental dos experimentos de pesquisa econômica: a existência de incentivos. Em cursos em que uma parte razoável dos conceitos será transmitida através da aplicação de jogos é natural que os ganhos sejam computados por meio de pontos que comporão a média do aluno no curso.

Dentre os “do´s and don´ts” referentes a ambos capítulos pontuamos: a clareza das instruções é muito relevante para o sucesso do jogo, a discussão com os alunos deve ocorrer logo após a finalização do jogo ou o mais breve possível (na mesma aula ou no inicio da próxima); a avaliação do curso deve conter questões que abordem o que os alunos aprenderam a partir dos jogos…”

[1] Para análises mais detalhadas sobre o uso de jogos em sala de aula ver Holt e McDaniel (1998) e Holt (1999).

[2] Tais como periódicos, sites de suporte a execução da atividade didática como também programas voltados especificamente para inovações na área de ensino em economia. Ver: http://www.marietta.edu/~delemeeg/games/ e http://people.virginia.edu/~cah2k/

 

 

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Ensinar macro nos dias atuais

 

Grande desafio.

Se você é professor de macroeconomia ou economia monetária sei que me entende bem. Não vou entrar na discussão da macro de fronteira e sua metodologia dominante, suas possíveis falhas em prever a última crise (??), seus avanços recentes sobre os efeitos de fricções financeiras e regulação, etc (recomendo esse post).

Estou falando do básico mesmo, em ensinar macroeconomia de forma que, ao final de uma sequência de cursos de graduação na área, o estudante possa olhar para o mundo lá fora sem um sinal de interrogação MUITO grande e, principalmente, compreenda que aulas de macroeconomia não são palestras em que “professores” despejam sobre estudantes sua visão de mundo, sem lhes oferecer a chance de compreender a lógica econômica que está por trás de sua análise normativa. Inicialmente é divertido, professor ri, brinca com os gestores de política econômica, aluno ri, anota tudo que o professor fala, acha que está entendendo tudo… depois, na hora de estudar, se dá conta de que há há teorias, há modelos, e ele não consegue encaixar neles nem 1/3 do que ouviu e anotou em aula. Nada contra uma aula descontraída, pelo contrário, mas tudo contra achar que o aluno sozinho vá fazer conexões e aprender apenas a partir daí – alguns poucos são capazes disso; e é papel do professor facilitar as conexões! Então, meu caro estudante, se você tem passado por situações como essa, um alerta: o sistema está te enganando!!

Tendo a concordar com o exposto por Krugman neste post, sobre o fato de que tudo que precisamos saber esteja nos velhos livros, principalmente em se tratando de ensino em graduação. Então, voltando ao nosso ponto, minha perspectiva é a de que falta ao ensino de macro um pouco da organização e do rigor lógico que o ensino de micro apresenta naturalmente. O que não significa que necessitemos microfuntamentar o ensino da macro na graduação, não. As relações agregadas dão bem conta da compreensão necessária sobre o assunto para um economista que atue fora da academia, em geral.

Na verdade, a discussão sobre o ensino de economia é um tema quente nos países desenvolvidos: veja esse post.

Minha estratégia para minimizar os problemas que observo no ensino de macroeconomia, bem mais mundanos que os apontados no post sugerido acima, é simples e requer aquilo que se espera de um professor: estratégia didática, coerência e inovação.

Neste material preparado para finalizar o curso de Economia Monetária (aqui), por exemplo, apresento dois modelos bastante simples que substituem o equilíbrio no mercado monetário (curva LM) por uma regra de Taylor (modelo de Taylor) ou estratégia endógena de política monetária (modelo de Walsh) que são muito mais relevantes para entender o processo de realização de política monetária atual que os tradicionais demanda e oferta agregadas. E há livros de macro que incorporam esses desenvolvimentos das duas últimas décadas, como este Macroeconomics, que estou avaliando adotar em meu próximo curso de Macro Internacional, no semestre que vem.

Uma mistureba um pouco estranha

 

Mas eu juro que fará sentido na sala de aula!

Começa com um resumo de política monetária restritiva no modelo IS-LM-BP, passa pelas fases da Curva de Phillips e nos leva ao foco da aula que é inconsistência dinâmica e como o regime de metas de inflação pode ser uma resposta a este problema (já discutimos em classe o tema de âncoras nominais e as possibilidades de escolhas, com vantagens e desvantagens de cada tipo, para não dar a impressão de que eu seja uma “inflation target girl”… rsrs…). Não gosto do modo como o Mishkin trata o assunto (pouco formal e espalhado em 2 ou 3 capítulos), por isso juntei uns slides que tinha para tentar mostrar a importância do tema em economia monetária.

Aí vai!

Como sempre, críticas e sugestões são bem-vindas!

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Desafio CFA-IRC de avaliação de empresas

 

Este ano, assim como no anterior, acompanho, como orientadora acadêmica, o time da Fearp que participa do Chartered Financial Analyst Institute Research Challenge (CFA-IRC) 2013-2014. A primeira etapa do trabalho foi cumprida: o time já produziu o relatório de avaliação da empresa selecionada e aguarda a classificação dos avaliadores – caso esteja entre os quatro primeiros (há 13 instituições de ensino brasileiras participantes), seguirá para a etapa de apresentação do relatório em que o vencedor brasileiro será escolhido. Há ainda mais uma etapa regional para as Américas, em março próximo, nos Estados Unidos, e a final ocorrerá ainda no primeiro semestre de 2014 na Tailândia.

O time Fearp foi selecionado pelo Clube de Mercado Financeiro, entidade estudantil da casa, que também dá o maior apoio para os trabalhos do grupo!!

É claro que queremos estar entre os finalistas, porém os frutos mais importantes para a equipe, e também para mim, já foram colhidos: um intenso processo de aprendizado, que valeu muito para todos, tenho certeza!! Disciplinas como teoria de finanças, econometria, análise de demonstrações financeiras, macroeconomia, organização industrial, entre outras, foram integradas e seu conhecimento aprofundado pela necessidade prática de avaliar uma empresa real de capital aberto. O mentor do time, atribuído pelo CFA Brasil, um analista certificado atuante no mercado, também teve uma contribuição primordial para esse processo!

Quero, por isso, já parabenizar o time composto por Gabriel, Lucas e José Guilherme (do curso de Economia e Controladoria) e Pedro e Filipe (do curso de Economia) pela dedicação, garra e seriedade com que realizaram o trabalho: foi um belo trabalho em equipe!!

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Palestra DSGE na Semana MAN

 

Participei da 10a. Semana da Matemática aplicada a Negócios (MAN) na tarde de hoje, falando um pouquinho sobre os modelos dinâmicos estocásticos de equilíbrio geral (DSGE – Dynamic Stochastic General Equilibrium) para os estudantes do curso. A ideia foi mostrar um caminho de aplicações possíveis para os instrumentos que estudam ao longo do curso e motivá-los a estudar ainda mais matemática estatística!!

Segue a apresentação. Críticas e sugestões são bem-vindas!

 

 

“Involve me and I learn” ;-)

 

Sempre repito para mim mesma essa frase perfeita de B. Franklin: “Tell and I forget, teach me and I remember, involve me and I learn”. Encontrei-a lendo o livro “The Heart of Teaching Economics: lessons from leading minds“, que traz uma coletânea de entrevistas com renomados pesquisadores, reconhecidos em suas áreas por seus pares (ou seja, lotados de “pontos qualis”) e que, pasmem, são excelentes professores!! Um outro ponto que salta aos olhos e contradiz boa parte dos colegas locais é o consenso sobre a NÃO independência entre ensino, também na graduação, e pesquisa, que sempre defendi.  De qualquer forma, considero leitura primordial para nós, acadêmicos da área.

O problema é que ensinar dá trabalho e requer dedicação e paciência e, nesse sentido, há também um trade-off de tempo e energia com a pesquisa, ninguém há de negar. Ainda assim, os benefícios superam os custos e os insights que ganhamos ao rever um material básico, há muito estudado por nós, e que precisa ser transmitido aos alunos de graduação de forma eficiente para o seu processo ensino-aprendizagem, permitem-nos uma compreensão mais profunda tanto do problema econômico em questão quanto da evolução científica da área de pesquisa, pois, com o passar do tempo e nosso amadurecimento intelectual, somos capazes de fazer muito mais conexões em nossa memória e conhecimento e, incrível, também melhoramos como pesquisadores (já nos mostra a neurociência)!! Além disso, há os (raros) feedbacks dos alunos em sala de aula, as perguntas, os questionamentos, que também podem trazer interessantes temas de pesquisa, basta que estejamos de ouvidos abertos e receptivos, e tratemos nossos alunos com respeito intelectual – são jovens adultos, com observação do mundo diferente da nossa.

Qualquer um de nós é capaz de realizar de forma eficiente ambas as atividades, ainda que o talento individual seja maior para ensino ou para a pesquisa, se se dedicar minimanente a elas – ou seja, horas-bunda (energia + tempo) precisam ser dedicadas às nossas atividades como profissionais, igualzinho esperamos e incentivamos que os nossos alunos, ou qualquer outro profissional, façam!! “Ah, eu sou excelente pesquisador, mas péssimo professor!”, é, para mim, desculpinha de quem se acha gênio e/ou quer fugir de suas responsabilidades profissionais – salvo raríssimas exceções. E ensinar envolvendo os alunos também é mostrar isso como exemplo e não como retórica: estabeleça e preze o contrato (conteúdo, bibliografia, normas de avaliação, atividades a serem desenvolvidas – o famoso programa da disciplina) proposto no início do semestre; prepare suas aulas (!!!), mesmo que sejam da sua área de pesquisa e vc conheça o conteúdo de trás para frente, e pense em como transmiti-lo aos alunos (técnicas didáticas…); reflita e atue no sentido de contribuir para que os estudantes estabeleçam as conexões entre seu conhecimento nas diversas áreas da sua formação acadêmica (teoria econômica, métodos quantitativos e história) e suas experiências concretas, isso é aprender!

 

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Um dia explicando o que o Economista faz!

 

Deveria dizer “mais um dia”, afinal faço isso cotidianamente para meus próprios alunos! Mas dessa vez foi para um público muito especial: os possíveis candidatos à uma vaga na FEA-RP, mais precisamente no curso de Economia, que participaram da 12a Feira de Profissões da USP, que aconteceu nesses últimos três dias na Esalq de Piracicaba.

Foi uma experiência interessante e reveladora: uma boa parte dos candidatos estava em dúvida entre Direito e Economia, e aqueles que estavam mais seguros de que já tinham escolhido a profissão, dentre as carreiras ofertadas pela FEA-RP, tinham escolhido Economia!! E eu me vi naqueles moçoilos e moçoilas que já tinham decido… também eu, ainda no segundo ano do ensino médio já sabia que queria ser economista!! É um bichinho que pica a gente e a gente sabe!! rsrs…

A propósito, como passei a alguns o endereço do meu blog, vale resgatar alguns posts anteriores sobre o assunto:

Economista? Que bicho é esse?

Papel social do economista.

Esse é só para os iniciados… Economistas também amam!

É isso! E duas fotos:

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