Keynes e o desemprego

Autores: Grupo 2 – REC2201-Macroeconomia 2017

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A teoria clássica desenvolveu, ao longo de décadas, alguns “postulados” sobre o mercado de trabalho, os quais sejam: os salários são iguais ao produto marginal do trabalho e a utilidade dos salários é igual à desutilidade marginal desse mesmo salário sob o mesmo volume do emprego (ideia da qual deriva o conceito de “desemprego voluntário”). O economista John Maynard Keynes, que rompeu com o mundo clássico, não aceitava este último postulado e defendia como algo intrínseco às economias de mercado a existência do chamado “desemprego involuntário”, que não era concebido nos modelos anteriores.

Para Keynes, o nível de emprego é determinado pelo mercado de produtos, através da demanda efetiva (composta por gastos com investimento e consumo), e não no próprio mercado de trabalho. Isto é, ao contrário dos clássicos, para quem o produto dependia do emprego, para Keynes, é o emprego que depende do produto. O princípio da demanda efetiva, que Keynes usa para se contrapor à chamada “Lei de Say”, diz que a atividade econômica é diretamente determinada pelos componentes da demanda.

Para justificar os gastos com investimento, que compõem a demanda efetiva, Keynes se vale de alguns pressupostos lógicos, entre os quais está a incerteza. Ao contrário dos clássicos, que pressupunham previsão perfeita e consideravam a moeda como simples meio de troca, Keynes incorpora à sua teoria as ideias de que a moeda possui reserva de valor e de que os agentes desconhecem boa parte dos acontecimentos vindouros. É desta última ideia que deriva a teoria da preferência por liquidez, segundo a qual os agentes podem abrir mão de juros e lucros em favor da segurança.

Outros fenômenos considerado por Keynes são os rendimentos providos pelo mercado de fundos emprestáveis; o mercado de bens de capital, de liquidez nula, cujos rendimentos, na margem, devem se aproximar às taxas de juros; e, por fim, a determinação do volume de investimento que será feito por parte dos agentes. Quanto ao consumo, Keynes diz que este é determinado pela renda e pela propensão marginal a consumir.

Keynes entendia que a correspondência entre a demanda efetiva e o pleno emprego era uma exceção, e não a regra. Poderia haver desencontro entre os planos dos agentes, utilização diversa dos recursos etc. Dessa forma, a chamada desutilidade marginal do trabalho não determinaria os níveis de emprego, mas sim um limite superior para este e um limite inferior para os salários reais. Ou seja, ao considerar que os salários reais eram iguais à desutilidade marginal do trabalho, a teoria clássica sobre desemprego descrevia apenas uma situação limite da teoria keynesiana.

Dada esta ideia principal – a de que o mercado de trabalho é determinado pelo mercado de bens, o qual depende da demanda efetiva -, Keynes define que o desemprego involuntário acontece quando, dado um certo aumento dos preços, tanto a oferta de mão-de-obra como a demanda por trabalho sob determinado salário nominal aumentam mais que o volume de emprego disponível.

Neste sentido, para Keynes, o que faz com que o desemprego seja involuntário é justamente o fato de que seus postos de trabalho não são um fim em si mesmo, mas sim motivados por um outro mercado, o de bens e serviços. Assim, numa situação de desequilíbrio, mesmo que a massa de trabalho aceitasse ter seus salários nominais reduzidos, é possível que não houvesse postos de trabalho o suficiente para todos.

Dado o problema, Keynes acreditava a resolução do desemprego deve se dar via aumento da demanda efetiva – o que se refletiria sob a forma de aumento do produto, do nível de preços e do emprego. Dado que o salário nominal é mais rígido que o real, uma redução deste último poderia aumentar o potencial de empregabilidade da economia. Isto, claro, quando tratamos de uma situação anterior à do pleno emprego. Após este ponto, medidas como essa só resultariam em aumento dos preços e dos salários nominais.

Bibliografia:

FERREIRA, Adriana Nunes. A controvérsia Pigou-Keynes. Texto para Discussão. IE/UNICAMP, Campinas, n. 237, jun. 2014.

KLAGSBRUNN, Victor Hugo. O princípio da demanda efetiva (a esperada), e o papel da demanda na teoria geral de Keynes. Revista de Economia Política, vol. 16, nº4 (64), outubro-dezembro/96.

NERY, Pedro Fernando Ferreira de Almeida. Uma resenha teórica sobre o desemprego involuntário. Economia e Desenvolvimento, Recife (PE), v. 11, nº 2, 2012.”

 

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24 Respostas to “Keynes e o desemprego”

  1. ricardo reis Says:

    Ora, ora, preferiria o trabalhador passar fome ao escolher um salário inferior ao seu produto marginal? Teria esse trabalhador, consciência sobre o valor do seu produto marginal?

    • Elmo Zampieri Neto Says:

      o trabalhador “passaria fome” (caso não encontrasse nenhuma outra maneira, autonoma ou não, de produzir seu produto marginal e ganhar mais do que o que lhe é ofertado no caso que vc citou) sem dúvida, mas essa situação se configura impossível dado o modelo clássico pois se uma empresa está pagando um salário real inferior ao produto marginal atual de seus empregados, ela teria um motivo a mais para contratar mais empregados, assim, aumentando sua lucratividade, e a maneira encontrada por esta, de aumentar seu numero de empregados, é aumentando salários, até na medida em que for lucrativa para ela, ou seja, até o salário real igualar a produtividade marginal. a empresa sempre vai buscar a maior receita, ou seja, subir o salário para ter mais trabalhadores até o ponto em que este iguale a produtividade marginal do ultimo deles, ou seja, até o ponto em que um trabalhador adicional custe mais do que produz, até esse ponto, todos os trabalhadores anteriores so tem a agregar. a empresa busca um ponto = 1 na derivada da função (produtividade marginal/salário real)

    • Lina Guerra Says:

      Ricardo, acredito que o fato de que os trabalhadores saibam seu produto marginal esteja relacionado às hipóteses assumidas no modelo clássico, com ênfase nas informações perfeitas (todos os participantes conhecem seus preços e o que é gerado por eles)

  2. Giovanna Liberatori Bassani Machado Says:

    Pigou usa a “Lei de Say” para afirmar que existe o desemprego voluntário e involuntário, dizendo que os empresários devem expandir sua produção até que o mercado estabeleça um limite, e isso garante que no equilíbrio, o nível de emprego seja o de pleno emprego, no qual o valor da oferta agregada iguala a demanda agregada. Eu achei interessante a diferente visão entre Keynes e Pigou sobre uma mesma Lei, o que o grupo acha que influenciou essa diferença entre as visões sobre o mesmo assunto? Em questões históricas.

    • Marcelo Lourenço Filho Says:

      Giovanna, a tua pergunta é muito interessante, dada a importância da chamada Lei de Say para o debate que aqui temos. Em primeiro lugar, existe uma certa controvérsia sobre o que de fato é a Lei de Say. Há um tempo, li um artigo que tratava de um livro chamado “Say’s Law and the Keynesian Revolution”, de um economista chamado Steven Kates. Basicamente, neste livro Kates advoga em prol da tese de que Keynes não compreendeu muito bem ou deu uma interpretação equivocada à Lei de Say. É sabido que o Jean-Baptiste Say nunca disse que “toda oferta cria sua própria demanda”. Esta foi a síntese que Keynes fez na Teoria Geral.
      Em seu “A Treatise on Political Economy” (1821), Say diz que: “Quando um produto é criado, ele, desde aquele instante, por meio de seu próprio valor, proporciona acesso a outros mercados e a outros produtos”. Ele exemplifica: “É por isso que uma boa colheita não é favorável apenas para os agricultores, mas também para os comerciantes de todos os outros produtos. Nós compramos mais sempre que interagimos mais. A má colheita, no entanto, afeta todas as vendas. O mesmo é verdade para os bens e coleções produzidos pelas artes e comércio. Um ramo do comércio que seja próspero o suficiente para comprar, portanto, fornece vendas para todas as outras lojas e, por outro lado, quando algumas fábricas ou empreendimentos tornam-se debilitados, a maioria dos outros sofre.”
      Em suma, podemos dizer que, para Say, todo consumo pressupõe uma produção. Em última instância, bens são trocados por outros bens. O dinheiro seria apenas um meio de troca. Isso, claro, vai de encontro à ideia keynesiana de que é possível aumentar o consumo e melhorar as condições da economia via políticas fiscal e monetária.
      Destaco que esta interpretação está longe de ser a mais aceita pelo mainstream, dado o seu conflito com as ideias de Keynes. Mas é possível que, dada esta outra visão sobre a Lei dos mercados de Say, seja possível compreender por que Pigou considerava este princípio como válido.

    • Vitória Olivier Natal Says:

      Giovanna, como um seguidor do pensamento clássico Pigou acredita na Lei de Say, ou seja, que a oferta cria a sua própria demanda e Keynes, por outro lado, pensa que a demanda é que determina a oferta. Em uma visão keynesiana, o nível de emprego é determinado pela expectativa dos empresários de quanto seria demandado. Quero ressaltar também o fato de que os clássicos acreditam no princípio das previsões perfeitas, enquanto Keynes introduz na economia a incerteza e com ela, as expectativas.
      Em relação às questões históricas, Keynes publica a Teoria Geral em 1936, quando vivia-se a Crise de 29, as ideias clássicas tanto de pleno emprego quanto previsão perfeita eram, creio eu, ainda mais difíceis de acreditado que hoje em dia: EUA com uma taxa de desemprego de 25% e os estoques aumentando cada vez mais devido a falta de demanda. Como acreditar que 25% da população simplesmente optava por não trabalhar uma vez que sua desutilidade marginal do trabalho era maior do que o salário real? Sob essa ótica é possível acreditar que sim, o contexto histórico pode ter influenciado na forma de ver a Lei de Say.
      Por outro lado, o pensamento clássico seguido por Pigou tem como marco inicial A Riqueza das Nações, de Adam Smith publicado em 1776 sendo que o próprio Pigou publicou até 1933, um período muito longo para se afirmar que a economia se manteve estável a ponto de a visão de Lei de Say ser interpretada da mesma forma.

  3. Sergio Trevelatto Amancio Says:

    O principal problema do modelo clássico esta nas suas hipóteses. Por exemplo:
    A hipótese de conhecimento perfeito esta muito distante da realidade quando analisamos a economia no curto prazo.
    No curto prazo a variável incerteza deve ser considerada, ou os resultados para explicar os fenômenos econômicos como o desemprego na crise de 29 serão um absurdo.
    O modelo classico falha ao dizer que todo o desemprego na crise é voluntario
    Quando inserimos a incerteza, preferencia pela liquidez e propensão marginal ao consumo no modelo Keynesiano,verificamos que o desemprego nos EUA pode ser explicado por um problema na demanda agregada da economia.
    E dessa maneira, o governo pode fazer politicas publicas para diminuir o desemprego da economia.

    • Mariane Zanetti Says:

      A teoria de Keynes vem justamente explicar o novo cenário em que a economia se encontrava e trazer novas diretrizes para a resolução da crise. Dada a crise de 1929, os níveis de desemprego tornaram-se muito elevados, não sendo possível mais levar em conta a teoria clássica de que isso era fruto do desemprego voluntário e que os indivíduos optavam por lazer pela desutilidade marginal do trabalho ser maior que o salário real. Havia inúmeras pessoas em busca de emprego e poucos postos de trabalho disponíveis, já que os investimentos (compra de equipamentos, aceleração da capacidade produtiva e ampliação dos bens de capital) estavam baixos, já que os empresários não se sentiam confiantes em fazê-lo dado o cenário instável da economia. Essa incerteza quanto aos investimentos também traz um outro ponto em que a teoria clássica não mais se encaixava: a moeda não mais considerada apenas como meio de troca e sim, agora, como reserva de valor, fazendo com que os empresários ponderassem investir dada a expectativa de lucro futuro. Assim, com poucos investimentos e contratações e salários baixos, a demanda efetiva (a esperada pelo empresário) assim também se encontrava e como, para Keynes, era ela a determinante do nível de emprego – pois os empresários decidem o quanto produzir e empregar devido à demanda que esperam se efetivar dada a renda distribuída – o equilíbrio de pleno-emprego não poderia ser atingido naturalmente. Aqui, então, temos outro ponto de conflito de Keynes com os clássico: o liberalismo clássico não traria fim à crise. Para se chegar ao pleno emprego seria necessário estimular o crescimento da demanda em paridade com o aumento da capacidade produtiva dos agentes econômicos. O governo, então, precisaria incentivar os investimentos por meio da aplicação das políticas monetária e fiscal.

  4. Elmo Zampieri Neto Says:

    Gostaria de saber do grupo quais os fatores que mais influenciam a propensão marginal a consumir (apesar de esse número não parecer tão calculável, ele varia em função de quais fatores?)
    A riqueza pode influenciar esse fator? penso que onde há mais riqueza, há maior propensão a investir do que a consumir, ou seja, menor preferência pela liquidez imediata. Assim riqueza e propensão marginal ao consumo teriam uma relação inversa, dado que as necessidades à medida que a riqueza aumenta já estão sendo sanadas, e mais riqueza não tem a mesma utilidade para pessoas com diferentes níveis desta.
    Essa proposição se configura? há outros fatores a influenciar a propensão marginal ao consumo? é possível citá-los?
    Muito obrigado

    • Marcelo Lourenço Filho Says:

      Elmo, sim, a riqueza pode influenciar. Segundo observamos no modelo keynesiano, quanto maior for a renda disponível (Yd), isto é, a renda de que as pessoas dispõem após o pagamento de impostos (T), maior será o seu consumo (C). Neste caso, o consumo, representado por uma função linear positiva, depende do consumo autônomo ou fixo e da propensão marginal a consumir (PMC). Esta última é a razão entre um acréscimo de consumo (ΔC) e um acréscimo de renda disponível (ΔYd), portanto qualquer mudança na PMC estará diretamente ligada a mudanças na renda disponível dos trabalhadores.

  5. sarah rodrigues da silva Says:

    Apesar de Keynes e Pigou terem uma visão diferente sobre a Lei de Say como foi citado acima pela Giovanna, há uma intersecção entre elas, em relação a existência de um limite aos salários reais, apesar dela ser a visão de Pigou e apenas uma parte de Keynes, acredito que um dos fatos que possa tê-lo influenciado a abrangir acima e abaixo de tal limite, é a inclusão da incerteza, que como foi citado pelo Sergio não aparece no modelo Clássico.

  6. Maria Renata Silveira Says:

    A visão dos clássicos e de Keynes sobre o desemprego se diferem. Keynes tinha como normal a existência do desemprego, já os clássicos diziam que se os “mecanismos equilibradores” não fossem impedidos de atuar, a economia estaria sempre funcionando no nível de pleno emprego. Estaria a visão de Keynes considerando uma situação mais real, visto que empecilhos acontecem?

    • Lara Faria Says:

      Maria Renata, com certeza a visão de Keynes, nesse aspecto, parece muito mais real. Pleno emprego e previsão perfeita, até para leigos em economia, deve soar muito distante da realidade. Os modelos e pensamentos sempre vão se aperfeiçoando com o tempo. Com a chegada da crise de 29, houve um descontentamento e insatisfação com a teoria econômica proposta até o momento. A teoria clássica não explicava o enorme desemprego na época, já que obviamente todas as pessoas desempregadas não se encontravam nessa situação voluntariamente. Havia a possibilidade de oferta, mas não havia demanda. Em 1936 Keynes publica seu livro “A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”, com um pensamento completamente oposto ao clássico, no sentido de que a demanda é quem determina a produção, e não a oferta; e também considerando o desemprego involuntário.

    • Maria Clara Tobar Says:

      Sim, Maria Renata. A macroeconomia clássica era totalmente idealista e passava a ideia de um mundo perfeito, em que as “forças do mercado, através de seus mecanismos automáticos de auto-ajustamento, garantiriam pleno
      emprego, eficiência máxima da produção, maximização da satisfação dos consumidores e dos lucros dos produtores (os quais, todavia, corresponderiam apenas ao lucro normal), e distribuição ótima da renda entre os proprietários dos fatores de produção”.
      Conforme a Lara falou, a grande depressão de 1929 tornou o irrealismo gritante e foi ai que entrou a figura de Keynes com a publicação da “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Ao invés de uma teoria estritamente estática e otimista, como era a teoria clássica, Keynes nos apresenta uma teoria macroeconômica relativamente dinâmica, cujas variáveis fundamentais são o volume de produção (determinada pela demanda efetiva) e o nível de desemprego decorrente, como foco especial ao desemprego involuntário.
      Além disso, ao invés de partir da análise do comportamento individual dos agentes (consumidores e produtores), Keynes adota uma abordagem macro, partindo diretamente do estudo dos agregados econômicos básicos: a renda, o consumo, a poupança e o investimento.

    • Breno Henrique Selmine Matrangolo Says:

      Acredito que uma das grandes contribuições de Keynes neste aspecto foi trazer a tona o conceito de incerteza. Como bem perguntou o Ricardo Reis, os trabalhadores teriam consciência do valor do seu produto marginal? Neste ponto, seu pensamento destoa dos clássicos, os quais partiam das hipóteses de previsão perfeita e pleno emprego. Keynes, ao introduzir o conceito de incerteza, assume a dificuldade dos agentes em reunirem conhecimentos suficientes sobre o futuro para tomar suas decisões de consumo e investimento, o que torna seu modelo mais realista aos nossos olhos. Temendo uma recessão econômica, os agentes podem optar em não investir, famílias podem decidir não consumir, dando espaços para oscilações econômicas/crises cíclicas.

    • Marcelo Lourenço Filho Says:

      Maria Renata, existe um ponto interessante nessa discussão que eu acredito que devêssemos considerar.
      Como dissemos no texto, enquanto que para Keynes o nível de emprego é determinado pelo mercado de bens e serviços, para os clássicos o nível de emprego é determinado no próprio mercado de trabalho. Os clássicos acreditavam que variações na disponibilidade de postos de trabalho dependiam de deslocamentos na demanda por trabalho ou de deslizamentos ao longo da demanda. Neste último caso, isso significaria variação do salário real dos trabalhadores. Os mecanismos equilibradores a que os clássicos se referem são justamente aqueles que permitem que o salário real se adeque à realidade do mercado de trabalho, possibilitando o pleno emprego da definição clássica. Quando governos impõem restrições ao pleno funcionamento destes mecanismos (como por políticas salariais, que enrijecem estes últimos), é evidente que haverá dificuldades para o mercado atingir o equilíbrio.
      Neste sentido, o elemento que Keynes traz é a incorporação à sua teoria de que os salários nominais são rígidos e que, portanto, é necessário reduzi-los em termos reais (via inflação). Estaria-se, assim, dando aos trabalhadores a ideia de que seus salários permanecem os mesmos (o que não é verdade) e, ao mesmo tempo, se permitiria que novos postos de trabalho fossem criados. Os clássicos, por sua vez, consideravam que esse tipo de intervenção era indevida, dado que o mecanismo de preços do mercado, quando de fato livre, se encarregaria de reajustar os planos individuais aos níveis de equilíbrio.
      Neste sentido, eu discordo da visão de que os clássicos não tinham respaldo na realidade para as análises que fizeram, nem de que o Keynes era de alguma forma mais real. Trata-se apenas de teorias que partem de pressupostos e análises diferentes, e que, claro, concluíram ideias e prognósticos diferentes.

  7. Maria Clara Tobar Says:

    O texto do grupo foi muito bem desenvolvido, então primeiramente, parabéns pelo trabalho de vocês.
    Contudo, acho importante ressaltar um ponto que o grupo não citou: Keynes destaca como remédio para o desemprego o papel fundamental da intervenção do governo, opondo-se, portanto ao princípio clássico de que a economia tende naturalmente ao pleno-emprego. As políticas monetárias e fiscais impactam diretamente a demanda efetiva, que então afeta a expectativa do agente tomador de decisão. Portanto, “as políticas econômicas devem servir como mantenedoras e incentivadoras das expectativas dos empresários, balizando suas esperanças sobre a demanda efetiva por seu produto e fornecendo-lhes peso aos seus argumentos, a fim de lhes oferecer melhores estados de confiança sobre o tempo futuro no qual suas decisões se efetivam.”
    Desse modo, a teoria keynesiana reforça que o governo deve se esforçar em reduzir o grau de incerteza entre os agentes econômicos para evitar quedas bruscas no nível de atividade econômica.
    Por fim, no trecho em que diz que “poderia haver desencontro entre os planos dos agentes, utilização diversa dos recursos etc.” é importante destacar que Keynes atribuía uma papel deficiente a demanda (devido ao ambiente incerto), o qual era inerente ao sistema econômico. Desse modo, “a correspondência entre a demanda efetiva e o pleno emprego era uma exceção, e não a regra”.

    • Marcelo Lourenço Filho Says:

      Oi Maria Clara.
      Você tem razão. Ao dizer que “(…)Keynes acreditava que a resolução do desemprego deve se dar via aumento da demanda efetiva(…)”, não deixamos explícito que esse aumento se daria via política fiscal e monetária, isto é, intervenções estatais. Ao compreender que uma entidade centralizada possuía informações suficientes para fazê-lo, Keynes defendia essas políticas como instrumento para, por exemplo, criar novos postos de trabalho, gerando assim nova demanda e reduzindo as flutuações. Alguns economistas, como F.A. Hayek, questionavam a eficácia desse “empregar por empregar”, assim como os efeitos de longo prazo desse tipo de intervenção – o que torna ainda mais interessante o estudo e discussão desse tema.

  8. Pedro Lopes da Silva Says:

    Interessante notar como a história muitas vezes remodela a nossa visão de algo após determinados acontecimentos. Se para os clássicos, como Pigou, a economia permitia uma previsão perfeita, após a crise de 29 muitas das nossas certezas se desmancharam e o pensamento econômico precisou se reinventar. A adoção do princípio da incerteza com a “preferência por liquidez, segundo a qual os agentes podem abrir mão de juros e lucros em favor da segurança” por Keynes parece ser o novo caminho adotado para o início dessa necessidade de mudança exigida na época.
    A própria inversão da Lei de Say,( o princípio da demanda efetiva ) dizendo que “a atividade econômica é diretamente determinada pelos componentes da demanda” parece muito mais condizente com a realidade e com as necessidades econômicas da época do que a verdadeira Lei de Say, uma vez que na grande produção a produção de bens excedeu a demanda por eles.

  9. Lucas Geraldo Says:

    Acho que só ou citar dois pontos no texto (que ficou excelente, a propósito):
    Com Keynes o governo passa a ter um papel maior na administração do desemprego: suas políticas de alteração nos gastos e nos tributos impactam diretamente no nível de emprego de equilíbrio. Aqui cabe destacar mais um aspecto importante do trabalho do autor: a dimensão desse impacto. Foi através do trabalho de Keynes que ficou claro que qualquer aumento no gasto do governo não impacta o produto numa proporção de um pra um, mas em uma escala maior, já que traz consigo ciclos de gastos que aumentam a prosperidade e o emprego. Com isso, sutis mudanças no comportamento do governo têm impactos muito mais elevados na economia do que se acreditava antes.
    Além disso, outro ponto interessante de ser observado na economia keynesiana ao confrontá-la com os clássicos é a sua visão sobre políticas voltadas à oferta. Para os clássicos, era fundamental que o mercado fosse livre para operar, o que incluía a redução do poder de sindicatos para prevenir inflexibilidade dos salários, sendo que a oferta tinha papel fundamental na explicação do crescimento de longo prazo. Com Keynes, políticas orientadas apenas à oferta passam a não ser tão importantes ao passo que a demanda ganha um destaque maior do que o por ela atribuído pelos clássicos (fato explicado pelas falhas da teoria clássica na tentativa de explicar a crise 1929).

  10. João Pedro de Andrade Rosa Says:

    Levando em conta que o aumento de gastos do governo influênciaria diretamente na expansão do produto, como poderiamos explicar os efeitos do New Dial na economia norte americana por exemplo ?? Uma vez que as atitudes de Roosevelt parecem ter alongado a grande depreção de 29 ao invés de reduzir o dano catrastófico a economia e alongado em sete anos a crise.(a taxa de desemprego normal, antes da Depressão, era de aproximadamente 3 por cento). O PIB per capita era menor em 1939 do que em 1929 ($847 vs. $857), bem como os gastos pessoais em consumo ($67,6 bilhões vs. $78,9 bilhões), tudo de acordo com os dados do Census Bureau. O investimento privado líquido no período de 1930-1940 foi negativo, de -$3,1 bilhões.)


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