Arthur Cecil Pigou (1877-1959) – A teoria do desemprego

Autores: Grupo 1 – REC2201-Macroeconomia 2017

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 “O que leva o trabalhador a não entrar no mercado de trabalho? Para os clássicos que consideravam o pleno emprego, aqueles trabalhadores que não aceitam trabalhar pelo salário de equilíbrio seriam os quais considerariam a utilidade marginal do lazer maior do que a do trabalho, ou seja, o desemprego seria um fenômeno voluntário. “Sempre existirá uma tendência significativa para que as taxas de salários tenham uma relação com a demanda [de mão-de-obra] de modo que todos fiquem empregados. Assim, em condições normais, todos [os trabalhadores] estarão empregados” (PIGOU, 1927). A intervenção do governo com políticas salariais não era apenas vista como desnecessária, mas indesejável, pois naturalmente o mercado de trabalho determinaria os salários de equilíbrio, e qualquer interferência indevida resultaria em desequilíbrio, e consequentemente, desemprego involuntário.

Fica clara a importância da Lei da Say para entendermos o pensamento de Pigou. De acordo com Say, “toda oferta gera sua própria demanda”, ou seja, os empresários devem expandir sua produção até que o mercado estabeleça um limite, e isso garante que no equilíbrio, o nível de emprego seja o de pleno emprego, no qual o valor da oferta agregada iguala a demanda agregada.

Para Pigou, o nível de emprego é dado pela intersecção das curvas de demanda e oferta reais de trabalho, então o desemprego seria resultado de flutuações da função da demanda real de trabalho não acompanhadas por uma modificação adequada dos salários. Então o desemprego seria fruto de uma política salarial não adequada. Uma das maneiras de sanar o desemprego seria então uma política salarial que possibilitasse que salário real se ajustasse perfeitamente às flutuações da demanda real por mão-de-obra, porém o volume de emprego só poderá expandir-se se o fluxo de bens de salários pagos ao trabalhador também aumentar.

Em seu livro, Theory of Unemployment (1933), Pigou explica:

Sempre haverá uma tendência a que as taxas de salário sejam ligadas à demanda de tal forma que todos estejam empregados. A implicação disto é que o desemprego existente, em qualquer momento, é inteiramente devido ao fato de que mudanças nas condições de demanda ocorrem continuamente e que fricções impedem que ocorra o ajuste apropriado de salários instantaneamente (p. 252).

Pigou define como desemprego o estado em que o trabalhador, dados os níveis de salário correntes, desejaria estar empregado mas não o está, ou seja, desempregado involuntariamente. Eliminando-se empecilhos institucionais, as fricções das flutuações industriais, os caprichos dos empregados e a competição perfeita dos assalariados, tem se que o mercado de trabalho ajustará o nível de salários ao de equilíbrio compatível com o pleno emprego.

Bibliografia

  • Rogério Arthmar, Pigou e a revolução keynesiana
  • Rogério Arthmar, Flutuações, Emprego e Tradição Clássica em Pigou
  • Adriana Nunes Ferreira, A controvérsia Pigou-Keynes
  • Marcelo Weishaupt Proni, Teorias do desemprego: um guia de estudo”  

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25 Respostas to “Arthur Cecil Pigou (1877-1959) – A teoria do desemprego”

  1. Elmo Zampieri Neto Says:

    A flutuação do desemprego pelo motivo friccional pode ser destacada como um ponto em comum entre Keynes e os Clássicos? pelo motivo da rigidez dos salários…

    • Lara Faria Says:

      Elmo, fiz uma pesquisa acerca do tema, e a resposta é sim. O que ocorre é que, para os clássicos, existe desemprego voluntário e friccional (não só pela rigidez dos salários, mas também porque sempre há pessoas mudando de emprego). Keynes aceita a possibilidade de desemprego voluntário e friccional, porém a maior preocupação é o desemprego involuntário.

      • Elmo zampieri neto Says:

        Muito obrigado Lina, como li noutro comentario por aqui, seria uma forma de Keynes compartilhar dos classicos o “limite inferior” do desemprego, ja o “limite superior” seria o caso da falta de demanda efetiva

    • João Pedro de Andrade Rosa Says:

      Elmo os clássicos também consideram que as medidas do governo intervêem na efetividade do emprego. Por exemplo medidas que alteram os salários mínimos podem afetar o salário de desemprego e assim causar um efeito negativo no equilíbrio, sendo que pessoas aceitariam um salário menor que o atual de equilíbrio e isso levaria as firmas a contratarem mais.

  2. Larissa G. Barbosa Says:

    “Então o desemprego seria fruto de uma política salarial não adequada. Uma das maneiras de sanar o desemprego seria então uma política salarial que possibilitasse que salário real se ajustasse perfeitamente às flutuações da demanda real por mão-de-obra, […]”, se o desemprego fosse fruto de uma política salarial não adequada, isso quer dizer que deveria haver uma política, e ela seria dada pelo governo? Caso sim, ele não estaria sendo contraditório, já que disse que as intervenções governamentais eram desnecessárias?

    • Lara Faria Says:

      Larissa, creio que talvez a “política salarial” referida seja justamente uma menor intervenção governamental. Talvez contratos mais curtos, para que o salário seja ajustado constantemente? Foi isso que entendi. Entretanto, talvez isso gerasse uma rotatividade muito alta… Também não ficou muito claro para mim.

    • Mariane Zanetti Says:

      Larissa, para Pigou o desemprego involuntário é incompatível com uma situação de equilíbrio. Isso porque havendo mais pessoas querendo trabalhar do que empregos disponíveis a concorrência entre os trabalhadores pelos empregos disponíveis irá fazer com que os salários nominais se reduzam. A redução dos salários nominais irá resultar, num ambiente competitivo, numa queda do nível de preços. A deflação de preços irá ocasionar um aumento do valor real dos saldos monetários detidos pelo público, aumentando assim a sua riqueza real. O aumento da riqueza real irá, por sua vez, estimular os gastos de consumo, aumentando assim a demanda agregada. Esse processo irá continuar até que o pleno-emprego seja restabelecido. Assim, acho que o texto quis explicar que, para Pigou, não deve haver intervenção governamental, já que o equilíbrio é atingido naturalmente.
      Porém, esse resultado só é válido no longo-prazo, pois os salários nominais levam tempo para se reduzir face à uma situação de excesso de oferta no mercado de trabalho. Então, quiseram dizer que os clássicos deveriam reconhecer que os mecanismos de ajuste das economias capitalistas são extremamente lentos, de tal maneira que a política econômica pode ser usada para manter a economia funcionando o mais próximo possível do pleno-emprego.

  3. sarah rodrigues da silva Says:

    De acordo com o que foi exposto no texto sobre a Lei de Say se os empresários expandirem sua produção até que o mercado estabeleça um limite, para atingir o pleno emprego. Ao longo do tempo esse limite se alteraria, tendo que produzir cada vez mais ou menos (o que geraria um estoque) e portanto o equilíbrio entre demanda e oferta agregadas seriam de tempos em tempos alterados, tendo diferentes “pontos de pleno emprego”? Ou devemos levar em consideração a economia estática e sendo assim, o pleno emprego e o limite para se produzir seriam fixos?

    • Lara Faria Says:

      Sarah, por que geraria estoque, já que oferta e demanda se ajustam?
      Achei interessante sua dúvida sobre diferentes “pontos de pleno emprego”. Acho que sim, por causa da mudança de variáveis exógenas, como a tecnologia por exemplo (será?).

      • Breno Henrique Selmine Matrangolo Says:

        Sarah, não acredito que possamos pensar o pleno emprego e o limite para se produzir como fixos. Como apontou a Lara, para os clássicos a oferta agregada era definida pela função de produção f(k,N). No curto prazo apenas a variável trabalho poderia alterar a oferta agregada, mas no longo prazo determinantes como avanços tecnológicos, melhorias no capital humano, recursos naturais poderiam alterar essa função (alterando a oferta agregada, bem como a quantidade de equilíbrio de trabalho).

    • Mariane Zanetti Says:

      Sarah, li que Say reconhecia que poderia haver escassez e fartura em relação a produtos específicos, porém em termos agregados sempre haveria equilíbrio entre oferta e demanda, não havendo, então, estoque. Para ele, o fator produção era essencial, pois qualquer bem produzido levaria a um desejo de venda para que seu valor não ficasse ocioso e o dinheiro recebido logo seria usado para a compra de outras mercadorias, pois o seu valor também poderia se depreciar. Então, qualquer produto acabado abre, imediatamente, um mercado para outro produto.

  4. Matheus Almeida Hereman Says:

    Primeiramente parabenizo o grupo pelo excelente artigo.
    Gostaria de indagar sobre as causas das fricções na demanda para Pigou, pois não consigo imaginar motivos em um modelo clássico para tais fricções.
    E também gostaria de observar que o termo “capricho dos empregado”, em uma visão keynesiana pode significar benefícios nos contratos dos empregados, assim sendo um meio de segurança do empregado, já que as pessoas não tem previsão perfeita, portanto enfrentam riscos e incertezas.

    • Lara Faria Says:

      Matheus, também fiquei confusa com a questão do desemprego por causa de “mudanças nas condições de demanda” (é essa sua dúvida, ou entendi errado?). No modelo clássico, a determinante não é a oferta? =S

    • Breno Henrique Selmine Matrangolo Says:

      Matheus tive a mesma dúvida. Caso alguém possa ajudar, quanto ás flutuações da demanda. Visto que pela perspectiva do pleno emprego a partir do qual toda produção gera uma renda (oferta cria sua própria demanda).
      PS: “Capricho dos empregados” no contexto brasileiro atual nos soa muito estranho aos ouvidos, não é?

      • Matheus Soares Mattano de Lima Says:

        Creio eu que essa confusão se dá pelo fato de ficarmos presos na concepção de que se era clássico então achava que tudo que determinava o produto era a oferta, se era keynesiano tudo que determinava o produto era a demanda. Ambas as interpretações eram “simplificações”, e exatamente por isso apresentavam imperfeições quando usadas na interpretação de alguns casos. Dessa forma, mesmo um economista de corrente clássica poderia dizer que em algum momento específico e incomum os níveis de demanda estariam ajudando na formação do produto e afetando o nível geral de emprego por algum período de tempo. A evolução dos modelos científicos é gradual e se dá exatamente quando em determinada situação o modelo não apresenta uma resposta eficaz para o acontecimento e há a adição de alguns pressupostos posteriores que de alguma forma serão incorporados na estrutura formal do modelo no futuro caso ele queira continuar “científico”. Caso essa afirmação do Pigou seja um caso como o descrito, o que eu creio que seja, então essa pode ser uma das primeiras mudanças no modelo clássico que viriam a originar no futuro o modelo neoclássico.

    • Rodrigo Diniz Mendes Says:

      Matheus, fiquei com a mesma dúvida de você em relação às flutuações na demanda agregada, pois no modelo clássico é difícil achar razões para tais fricções, mas como a teoria de desemprego de Pigou e dada pelo mercado de trabalho e o valor dos salários, desconsiderando um bucado de termos referentes a estes, seria isto a única variável passível a causar desemprego na teoria de Pigou?

    • Lucas Geraldo Says:

      Eu pesquisei um pouco e parece que Pigou reconhece que mudanças na demanda, dentro de um ciclo econômico, são causas imediatas do desemprego, mas a raiz desse problema seria dada por outro fator: a inabilidade dos salários em se reajustar. Pelo o que eu li, para Pigou, as fricções cruciais são aquelas que diminuem a velocidade de ajuste dos preços – mais especificamente dos salários – para o equilíbrio. Sendo assim, Pigou deu atenção ao “money-wage stickiness”, atribuível à “money illusion” e à existência de contratos nominais (que seriam mais difíceis de se renegociar), como causador de desemprego. Isso porque, “dado que o ciclo se caracteriza por flutuações na demanda por trabalho, um pleno funcionamento do mercado de trabalho requereria variações pró-cíclicas nos salários reais. Salários nominais, porém, se movem de maneira mais lenta que os preços, o que produz uma variação contra-cíclica no salário real, implicando em uma variação cíclica no desemprego”.
      Não sei se respondeu sua pergunta, mas foi tudo o que eu consegui achar sobre o assunto :T
      FONTES:
      – David Laidler. Fabricating the Keynesian Revolution: Studies of the Inter-war Literature on Money, the Cycle, and Unemployment. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
      – Darity, Jr., William A. Labor Economics: Problems in Analyzing Labor Markets. Norwell, MA: Kluwer Academic Publishers.

  5. Lina Guerra Says:

    A principal diferença entre o desemprego para Keynes e para Pigou consiste nas dimensões do poder de barganha (podemos usar esse termo?) dos trabalhadores, então? Uma vez que para Pigou os trabalhadores exercem um papel mais ativo no nível de determinação dos salários, e, por conseguinte, do desemprego, enquanto para Keynes a determinação desse se deve às expectativas e à oferta agregada.
    As constatações de que 1) o salário nominal é mais rígido do que o real devido à questão contratual e 2) fricções impedem que ocorra o ajuste apropriado de salários instantaneamente não incluiriam o tempo no modelo, o qual é omitido do equilíbrio estático (supõe-se que o ajuste ocorre instantaneamente)?

  6. Maria Renata Silveira Says:

    Ao dizer que ‘A implicação disto é que o desemprego existente, em qualquer momento, é inteiramente devido ao fato de que mudanças nas condições de demanda ocorrem continuamente e que fricções impedem que ocorra o ajuste apropriado de salários instantaneamente’ ele estaria sendo contraditório? já que afirma que as fricções são a causa do desemprego e logo depois no treco que diz ‘Eliminando-se empecilhos institucionais, as fricções das flutuações industriais,
    os caprichos dos empregados e a competição perfeita dos tem se que o mercado de trabalho ajustará o nível de salários ao de equilíbrio compatível com o pleno emprego’ desconsidera essas fricções na hora de analisar o pleno emprego? Ou estaria ele tratando de um pleno emprego a longo prazo?

    • Thaís Vieira Says:

      O modelo clássico assume que os salários respondem com rapidez e perfeita flexibilidade a variações na demanda e oferta no mercado de trabalho, por causa desta flexibilidade as forças de mercado asseguram que o pleno emprego corresponda ao equilíbrio. Quando essa resposta dos salários à flutuações na demanda por trabalho não ocorre, ou seja, se por algum motivo os salários monetários se tornam rígidos (por empecilhos institucionais, ou caprichos dos empregados por exemplo) aí seria possível uma situação de desemprego mais duradouro (o desemprego involuntário a que Keynes se refere).

  7. Maria Clara Tobar Says:

    Lina, a diferença que você apontou sobre a visão de desemprego de Keynes e Pigou é uma das diferenças entre ambas as teorias.
    Pigou acreditava que o poder de barganha dos trabalhadores com seus patrões definiria o nível de salários nominais. Contudo, para Keynes, “o poder de compra dos salários estaria determinado fora do mercado de trabalho, posto que as expectativas empresariais referentes as receitas de vendas, combinadas a função da oferta agregada, definiriam o emprego total na economia”.

  8. Pedro Lopes da Silva Says:

    Parabéns pelo texto pessoal!
    Acho muito interessante notarmos como as concepções à respeito de políticas salariais se alteraram profundamente com o passar do tempo. Se para Pigou, qualquer “intervenção do governo com políticas salariais não era apenas vista como desnecessária, mas indesejável, pois naturalmente o mercado de trabalho determinaria os salários de equilíbrio, e qualquer interferência indevida resultaria em desequilíbrio, e consequentemente, desemprego involuntário”, hoje vemos que alguns países desenvolvidos vão exatamente contra essa vertente. A Finlândia por exemplo, atualmente está testando uma política de rendimento básico aos desempregados como uma forma de fomentar o emprego! http://www.jornaleconomico.sapo.pt/noticias/finlandia-rendimento-basico-desempregados-superior-novo-salario-minimo-portugues-106344 http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/11/1834400-finlandia-vai-testar-renda-minima-de-r-1990-para-todos-os-cidadaos.shtml
    Outra coisa que achei interessante e que comecei a me questionar à respeito, é que se Pigou acreditava que “toda oferta gera sua própria demanda, ou seja, os empresários devem expandir sua produção até que o mercado estabeleça um limite, e isso garante que no equilíbrio, o nível de emprego seja o de pleno emprego, no qual o valor da oferta agregada iguala a demanda agregada”, será que existiria um limite de produção sustentável a longo prazo? E como Pigou poderia prever que o mercado chegaria nesse limite? Porque pelo menos pra mim, é bem abstrata a ideia de que nós teríamos condições de prever isso (ainda mais com a interligação entre diferentes mercados que já ocorria na época de Pigou e o contínuo surgimento de novos mercados que se interligam a mercados já existentes).

  9. Vitória Olivier Natal Says:

    Assim como a Sarah, não entendi muito bem o limite que o mercado impõe na produção e sua relação com a Lei de Say: se toda oferta gera a sua demanda, não deveria a oferta tender ao infinito e ser acompanhada pela demanda?
    E também como o Matheus, as mudanças nas condições da demanda e suas fricções que gerariam o desemprego. Dessa forma, não seria o pleno emprego inatingível no curto prazo? Seria a análise de Pigou sobre o emprego apenas para o longo prazo?

  10. Caio Vinícius Sousa Says:

    O debate entre Keynes e Pigou alcança um ponto crítico nas décadas de 20 e 30. No entanto, a crise de 29 traz ao período uma realidade que parece bater de frente com o pensamento clássico deste. Frente a tal desafio, houve algum grau de maleabilidade por parte de Pigou? Como ele procedeu para defender os pontos mais afetados pelo contexto econômico-social?


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