Inovações didáticas – Chute Educado

 

Esta prática tem como objetivo conscientizar o estudante do seu próprio desempenho em provas dissertativas individuais, contribuindo para que ele se torne ativo em seu processo de aprendizagem e crítico em relação aos seus métodos de estudo e preparação para provas dissertativas, por meio de um mecanismo de incentivo para a autoavaliação que costumo chamar de “chute educado”.

Para efetividade desta prática, é necessário que o professor reserve em seu cronograma de aulas datas para a realização de vistas de provas, como é natural em processos de avaliação formativa. Na data agendada, antes de entregar as provas corrigidas, discutir as respostas esperadas e tirar dúvidas sobre o conteúdo, o professor propõe aos estudantes que respondam à seguinte pesquisa:


Pesquisa Experimental

Pense sobre sua preparação para a prova desta disciplina e, baseado em sua experiência de estudo ao longo de sua vida, responda às duas questões abaixo. Recompensa: se você acertar a sua nota num intervalo de 0,5 ponto para cima ou para baixo, receberá como recompensa 0,5 na nota da prova em questão. Exemplo: você disse que sua nota esperada é 7,0, se sua nota efetiva estiver entre 6,5 e 7,5 ela será acrescida de meio ponto.

  • Quantas horas, aproximadamente, você estima que estudou para esta prova?

Resposta: _________ horas no total.

  • Que nota você acredita ter alcançado na prova?

Resposta: __________  (número entre 0 e 10, com até 2 casas decimais)

Nome: ________________________________________________________


 

Essa técnica é uma aplicação do conceito de expectativas racionais em sala de aula e foi elaborada com base em Blackwell (2010). Espera-se que o estudante se conscientize do trabalho que realizou, do quanto se dedicou para os estudos do conteúdo e como isso, naturalmente, reflete-se na nota que ele tirou na prova em questão. Esse meio ponto também tem um papel de minimizar distorções que a subjetividade da correção imprime às notas, por mais que adotemos estratégias para evitar tais distorções.

Obviamente, há vários efeitos endógenos nos resultados observados, tais como a reputação do professor (se a reputação for de que o professor é rigoroso, a nota chutada refletirá também essa informação); o grau de dificuldade relativo da disciplina; se o aluno está habituado ou não a refletir sobre seu desempenho em geral; se o aluno é repetente; entre outros.

Ao longo dos três últimos anos, venho sistematicamente aplicando esta técnica nas disciplinas que ministro, e pretendo ter em breve um banco de dados que permita uma análise econométrica robusta às endogeneidades a fim de analisar os resultados adequadamente. Por enquanto, apresento apenas uma análise exploratória inicial, que permite algumas reflexões interessantes.

Do total de sete turmas em cinco disciplinas diferentes (as turmas desse semestre não estão contabilizadas, pois ainda não ocorreu o fechamento do semestre) e de 265 alunos matriculados, quase 70% participa desse levantamento em pelo menos uma das duas provas regulares por semestre. A tabela 1 a seguir sintetiza as informações e já apresenta um teste de diferença de médias para distribuições com variâncias distintas entre a média da nota obtida e a média do chute educado:

Tabela 1: Síntese do banco de dados e teste de diferença de médias

tabela 1

Observamos que as disciplinas da área de métodos quantitativos parecem receber uma maior dedicação de tempo de estudo, considerando que há, em geral, sete semanas de aulas e preparação para cada uma das duas provas, o comportamento dos estudantes indica uma hora de estudo por dia útil da semana, o que seria bastante razoável em termos de alocação de tempo. Ainda, os testes de diferença de médias, para um nível de significância de 5%, não rejeitam as hipóteses nulas de igualdade entre as médias para o total da amostra, e para cada uma das disciplinas individualmente (todos os p-valores são superiores a 5%), sendo que apenas para a disciplina de Matemática Aplicada o teste é limítrofe. Concluímos que, em média, os alunos acertam suas notas e estão conscientes de seu desempenho em prova.

0 percentual de acertos de chutes é mais baixo que o esperado, apenas 39% e para entender esse resultado é importante desagregar o comportamento por classes de notas, pois as médias não mostram o grau de acerto entre alunos de desempenho pior e melhor, para o quê apresentamos os histogramas da Figura 3:

Figura 3: Histogramas de notas obtidas e estimadas e de erros e acertos

fig3a

 

fig3b

No primeiro dos histogramas, observamos que os alunos que obtêm notas mais baixas, entre 0 e 2, chutam notas um pouco mais elevadas, pois nas classes de 2,1 a 4 há um comportamento no sentido oposto, com uma maior concentração de chutes que de nota efetivas; por outro lado, o comportamento se inverte entre os alunos que obtêm notas melhores: acima de 4,1 as notas estimadas ficam abaixo das observadas e nenhum dos que obtiveram notas acima de 7,1 chutaram notas nessas classes. Já no segundo histograma, o resultado mais interessante se revela: os alunos que tiram as notas mais baixas, de 0 a 4, apresentam o maior percentual de acerto do chute, 68%, enquanto nessa mesma faixa, o percentual de erros é de 51% e o percentual de acertos acima de 4,1 cai para 32% enquanto o de erros sobe para 49%.

O tema continuará sendo alvo de estudos estatísticos mais robustos, e novos “chutes educados” das turmas deste semestre serão agregados ao banco de dados! Em breve terei uma nova versão.

Esses dados fizeram parte da apresetação oral que fiz no III  Simpósio Temático da Pró-Reitoria de Graduação “A Docência na USP: Desafios e Inovações”

Veja divulgação aqui.

 

BLACKWELL, C. Rational expectations in the classroom: A learning activity. Journal for Economic Educators, v. 10, n. 2, p. 1–6, 2010.

 

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Uma resposta to “Inovações didáticas – Chute Educado”

  1. Inovações didáticas – Chute Educado | Random Walk Says:

    […] Fonte: Inovações didáticas – Chute Educado […]


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