ECO L – Políticas Macroprudenciais

 

“O requerimento de capital contracíclico desempenha um papel macroprudencial cujo principal objetivo corresponde a proteger o sistema bancário de períodos de crescimento excessivo do crédito, os quais geralmente estão associados a períodos de elevado risco sistêmico.” 

Bank for International Settlements (2010)

 

Políticas macroprudenciais (ou macro-pru) são decisões administrativas dos Banco Centrais (BC) as quais tem efeitos diretos sobre o volume de crédito na economia, e vistam a prevenir pressões inflacionárias com potencial de risco sistêmico. Tradicionalmente existem três canais pelos quais se pode operacionalizar o combate à inflação: câmbio, taxa de juros e crédito. As medidas macro-pru tem como meta a contenção de demanda sem que para isto a Autoridade Monetária (AM) tenha que atuar necessariamente sobre a taxa de juros.

Conforme artigo publicado recentemente no The Wall Street Journal (WSJ), regulação macroprudencial é o mais novo modismo e se refere as políticas que elevam os requisitos para as instituições financeiras numa tentativa de controlar a concessão de empréstimos (Kupiec, P.H. – 28/09/2014).

Na prática, a contenção do crédito ocorre por meio da elevação dos compulsórios e pela maior rigidez na concessão de crédito por parte dos bancos comerciais, uma vez que estes terão de aumentar o nível de capital próprio nas operações de longo prazo. O efeito disto é o arrocho nas exigências para acesso ao crédito, alterações no “loan-to-value” (limites associados à renda do tomador). Assim como a elevação dos custos e aumento de juros específicos para determinados segmentos. Neste cenário, o público em geral passa a ter menos incentivos para tomar empréstimos, consequentemente a demanda por financiamentos cai, assim como os preços e a pressão inflacionária.

Portanto, as medidas macroprudenciais atuam sobre a regulação dos bancos de maneira a diminuir situações de desequilíbrios inerentes aos ciclo econômico. Esses ciclos apresentam duas tendências: em períodos de expansão os agentes tendem a aumentar sua exposição a riscos, enquanto que em períodos de recessão os indivíduos se tornam extremamente avessos ao risco.

Pelo mundo:

Austrália – Real Time Economics

O BC da Austrália está preocupado com a alta dos preços das casas, se mostrando inclinado a reprimir ainda mais os empréstimos hipotecários, ao contrário do que estão fazendo seus conterrâneos, países como Nova Zelândia, Canadá e Reino Unido.

(Glinn, J. – 26/09/2014)

EUA – WSJ

Desde a crise financeira de 2008, os reguladores bancários norte-americanos puseram em prática novas regras de supervisão que limitam a capacidade dos bancos para fazer determinados tipos de empréstimos, os chamados empréstimos-mercado-de alavancagem, para corporações de baixo rating e para hipotecas residenciais.

Israel – WSJ

Quando as taxas de juro de curto prazo são baixas e taxas de longo prazo são elevadas, os mutuários preferem usar a curto prazo, ou ainda, a dívida de taxa flutuante, para minimizar o pagamento de juros. E assim aconteceu em Israel, quando um surto de crescimento de empréstimos hipotecários foi alimentado por hipotecas com baixas taxas de juro de curto prazo. Quando os requisitos de capital (garantia) mais elevados e menores limites de empréstimos em relação ao valor não funcionou, o Banco de Israel reduziu o crescimento do crédito imobiliário, exigindo que os bancos amarrassem as taxas de hipoteca de taxa de juros de longo prazo.

(Kupiec, P.H. – 28/09/2014)

Links:

http://online.wsj.com/articles/paul-kupiec-when-central-bankers-become-central-planners-1411945265

http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/2066656/entenda-melhor-que-sao-medidas-macroprudenciais-sua-atuacao-economia

http://blogs.wsj.com/economics/2014/09/16/australias-central-bank-holds-off-macroprudency/

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5 Respostas to “ECO L – Políticas Macroprudenciais”

  1. Otávio Says:

    O post joga luz sobre um assunto muito interessante em relação a importância dos bancos centrais. Até aqui me parecia que a função de longe principal era manter a inflação controlada de modo a evitar crises como períodos de hiper-inflação, mas mesmo com a inflação controlada outras crises podem surgir. Crises estas que são falhas nas estruturas de mercado, a crise dos Estados Unidos por exemplo foi uma crise creditícia que poderia ter sido facilmente evitada. Esses mecanismos supostamente simples poderiam ter evitado a maior crise da nossa geração, e a passagem do texto que fala sobre os EUA, passa uma displicência e falta de respeito enorme quanto ao resto do mundo. “Novas regras de supervisão”, agora é um pouco tarde para isso, e essa crise que foi até prevista poderia ter sido evitada se eles não soubessem que haveria uma socialização das perdas com o restante do mundo.

  2. Gustavo da Costa Says:

    Como o post do grupo expõe a preocupação da política macroprudencial em frear a expansão do crédito, e que é uma política “nova”, fez-me indagar se ela não surgiu devido à crise de 2008. Pesquisando e descobri que ela foi primeiramente apresentada pelo Cooke Comittee (Comitê de 10 países sobre supervisão bancária na década de 1970) e o Banco da Inglaterra no final dos 1970. Mas a política em questão veio à tona na economia mundial nos anos 2000 depois de consecutivas crises industriais e financeiras na maioria em mercados emergentes. E na história mais recente, e até mesmo a maior prática dela, começa em dezembro de 2010
    Fazendo um link com a matéria, é interessante pensarmos que as políticas macroprudenciais trabalham com mecanismos de transmissão para que o fim desejado pelo BACEN seja atingido. Se, por exemplo, a política monetária buscar frear o crédito, em termos “sala de aulísticos”, um meio seria o BACEN aumentar as taxas requeridas de compulsório, o que diminuirá as reservas bancárias disponíveis e consequentemente, o crédito diminuirá. Uma consequência seria a diminuição do Investimento, o que afeta negativamente a demanda agregada.

  3. Eleonora de Oliveira Says:

    Em um dos links utilizados pelo grupo, um professor da FGV explica que as políticas macroprudenciais surgiram num cenário de reforma do sistema de regulação financeira, devido à crise mais recente, já que ela deixou como lição que há uma relação direta entre a saúde dos bancos e a economia como um todo. Por isso mesmo, ele define as políticas macruprudencias como uma atenuação do “efeito perverso que um ciclo econômico” pode ter sobre as decisões do sistema bancário. Sendo assim, tais políticas afetam o crédito, o que impacta a inflação sem ser através dos juros. Com um aumento dos compulsórios, os empréstimos ficam mais caros, o que diminui a demanda por esse tipo de crédito.
    É importante frisar que essas políticas não configuram-se como políticas monetárias, mas sim como um tipo de regulação.

  4. Tulio Anselmi Dorigan Says:

    Primeiramente, parabéns ao grupo pelo post !
    Fiquei curiosos para saber como o Brasil utiliza\utilizou medidas macroprudenciais. Pesquisando um pouco mais achei uma matéria no Valor na qual eles citam um estudo do FMI, que, por sua vez, cita a combinação que o Brasil fez pós crise de política monetária e medidas macroprudenciais – a fim de atingir dois objetivos : estabilidade de preços e estabilidade financeira.
    Em suma, o meio utilizado ( para medidas macroprudenciais) é o mesmo que o grupo apresentou: aumento dos depósitos compulsórios.
    Por fim, ele conclui que o “mix” utilizado de política monetária e medidas macroprudenciais foi eficiente em administrar a DA e as pressões inflacionárias, além de reduzir o ritmo de crescimento do crédito.

    Fonte: http://www.valor.com.br/brasil/2994944/fmi-elogia-politicas-monetaria-e-macroprudencial-do-pais-no-pos-crise

  5. Gabriel Besbati Says:

    Colaborações Contabilizadas.


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