ECO D – Políticas Macroprudenciais no Mundo

 

“A eclosão da crise de 2008 levantou o questionamento de muitos aspectos considerados, até então, importantes na formulação da política monetária. Acreditava-se que o objetivo principal dos Bancos Centrais fosse a estabilização de curto prazo das taxas de inflação – normalmente dois anos – fundamentada em um sistema de regras, que utilizava a taxa de juros de curto prazo como principal instrumento operacional. Atrelada à estabilização, a regulamentação do mercado financeiro era microfundamentada. Os microfundamentos são, basicamente, os elementos da economia agregada em termos de comportamentos de indivíduos e de entidades econômicas e suas interações. Como o mercado era regido por estes fundamentos, adotava-se um agente representativo em um mercado em concorrência perfeita como hipótese e considerava-se os aspectos de risco como exógenos, o que implicava na desconsideração da interdependência dos agentes.

Uma lição da crise, segundo Blanchard, é que desequilíbrios perigosos se formam, ainda que a economia mantenha a aparência de estabilidade. A inflação e o produto podem parecer estáveis, porém, crises setoriais levam a desequilíbrios com consequências graves sobre o bem estar da população. A crise de 2008 se formou em um momento considerado estável macroeconomicamente, contudo, seus efeitos foram diversos sobre a economia.

Neste contexto de críticas ao modelo vigente e de abalo à estabilidade, o uso de políticas macroprudenciais se valorizou. Estas políticas significam o uso de medidas de regulação e de supervisão do sistema financeiro que visam a estabilidade, tendo como foco o caráter sistêmico, e não individual, da economia. A abordagem tradicional – microfundamentada – não leva em consideração a interações entre as instituições financeiras dentro do mercado financeiro e do mesmo com a economia real. Sendo assim, as medidas macroprudenciais devem adicionar uma dimensão macrosistêmica ao modelo, considerando as interligações no setor financeiro e intensificando sua regulamentação. Vale ressaltar que, mesmo ganhando espaço durante a crise, esta abordagem existem desde a década de 1970.

As principais ferramentas de políticas macroprudenciais utilizadas em 49 países, segundo o um estudo do FMI, podem se encaixar em três principais grupos:

  • Ferramentas de crédito, como limites ao volume ou à expansão da taxa de crédito;
  • Ferramentas relacionadas a liquidez, como alterações nas taxas de reservas compulsórias e voluntárias;
  • Ferramentas de gerenciamento de fluxo de capital, a exemplo de restrições na distribuição de lucros.

Este estudo concluiu que o uso de medidas macroprudenciais nesses países foi efetivo para a redução do risco sistêmico.

O estudo realizado pelo FMI também sugere que mesmo levando em conta as circunstâncias específicas de cada país e independentemente do tamanho do setor financeiro ou taxa de câmbio os instrumentos podem ser considerados eficazes. Por exemplo, na China, as autoridades conseguiram diminuir crescimento do crédito e inflação dos preços mobiliários adotando uma série de passos em 2010 que incluíram medidas fiscais e monetárias. Já na Colômbia, as autoridades tomaram  medidas em 1999 para limitar o risco de inadimplência dos Bancos. As medidas parecem ter sido eficazes. Empréstimos não-cumpridos diminuíram e permaneceram baixos enquanto crédito ao setor privado recuperou-se após uma redução inicial.

De forma resumida, podemos analisar, conforme a tabela abaixo, as principais diferenças entre a abordagem microprudencial e macroprudencial:

Eco D 1

Referências:

https://www.imf.org/external/pubs/ft/sdn/2013/sdn1303.pdf

http://revistas.fee.tche.br/index.php/indicadores/article/viewFile/2726/3088

https://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2011/wp11238.pdf – IMF Working Paper. “Macroprudential Policy: What Instruments and How to Use Them?”’

.

 

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8 Respostas to “ECO D – Políticas Macroprudenciais no Mundo”

  1. Marina Ribeiro Says:

    Primeiramente, gostaria de parabenizar o grupo pelo post.
    Um ponto interessante abordado pelo grupo é a diferença de abordagem de uma política microprudencial para uma macroprudencial.
    Como a política macroprudencial possui um caráter mais sistêmico, ou seja, leva em consideração as interações entre as instituições financeiras, tal política se valorizou no cenário econômico e trouxe questionamentos à abordagem microprudencial, a qual considera como objetivo principal reduzir os riscos individuais, ao invés de limitar crises financeiras sistêmicas.
    Logo, em um mundo com instituições e mercados interligados, a abordagem de política macroprudencial se torna cada vez mais apta para se conseguir a estabilidade da economia.

  2. Marcelo Mc Knight Says:

    Muito legal o post, já tinha ouvido falar mas não tinha um bom conhecimento sobre políticas macroprudenciais.
    Pesquisei e vi que essas políticas são formuladas pelo banco central e afetam a quantidade de dinheiro que está disponível para crédito nos bancos comerciais, pois obriga-os a deixar mais dinheiro parado no BC, fato que culmina afetando a taxa de juros para o tomador final. Tais políticas objetivam evitar que o sistema financeiro se exceda, ou seja, que empreste uma quantidade maior para quem não tem como pagar. Elas, porém, possuem alguns efeitos colaterais, como, por exemplo, a redução da oferta de crédito e do consumo.
    Para finalizar, achei interessante uma passagem que li no blog do Vinicius Torres (Folha), em que ele cita alguns trade-offs e/ou defeitos que essas políticas têm para alguns economistas: “Os economistas mais ou menos ortodoxos dizem que medidas ‘macroprudenciais‘ colaboram no controle da inflação, mas têm defeitos:
    1) afetam pouco as decisões de poupança e de investimento;
    2) sua intensidade e o tempo de seu efeito são incertos ou ainda desconhecidos;
    3) criam distorções e ineficiências no mercado de crédito”.

  3. Gabriela Frazatto - Economia Says:

    O interessante desse post foi a relação entre políticas macroprudenciais e microprudenciais, deixando claro a preferência das autoridades monetárias pela política macro, na busca de uma estabilidade econômica. Como os diversos objetivos da política econômica só são atingidos com a presença do mesmo número de instrumentos, independentemente de qual se utilize, há, uma relação de complementação entre as medidas macroprudenciais e a política monetária, já que afetam as condições de liquidez e de crédito da economia. E apesar de apresentar algumas falhas, os exemplos mostraram a eficiência das práticas dos países, independente do caminho escolhido.

  4. Fabio Rodrigues Says:

    O post dessa semana mostra bem os benefícios das políticas macroprudenciais em momentos de apreensão quanto à estabilidade economica. Ligado ao nosso país, (post da próxima semana, e do meu grupo), a abertura de linhas de crédito facilitado e incentivo ao consumo no momento de crise internacional foram fundamentais para a manutenção substancial do bem-estar economico no Brasil. Em pesquisas sobre o tema, é descrito tambem a interação eficiente entre tais medidas e a política monetária como um todo. Entendo ainda que as políticas macroprudenciais trazem um sentido de conservadorismo à gestão da macroeconomia domestica e internacional.

  5. Luiza Iglesias - ECO Says:

    Confesso que desconhecia o tema e, através da leitura dos posts, nota-se a diferença e as interações desta para as políticas monetárias estudadas em aula: para diminuir o risco sistêmico, o canal de crédito passa por mudanças, para uma redução da oferta de crédito, do consumo e da inflação. O que nos lembra a recente crise (crise de 2007/2008) e o papel do sistema financeiro como estabilizador da economia.
    A redução do crédito ocorre pela maior rigidez e por meio da elevação dos compulsórios. Assim, os bancos comerciais, têm de aumentar o nível de capital próprio nas operações de longo prazo, elevando os custos e a taxa de juros para alguns segmentos, diminuindo a demanda por financiamentos, os preços e a pressão inflacionária.

  6. Renato Domingues Coutinho Says:

    Gostei bastante do tema do post dessa semana, pois não tinha muito conhecimento sobre políticas macroprudenciais. É interessante ter em mente que, mesmo em um cenário de aparente estabilidade econômica, crises setoriais podem se espalhar e repercutir sobre toda a economia. Assim, medidas de regulação e supervisão do sistema financeiro em uma visão macrosistêmica se tornam extremamente importantes para se evitar crises e criar ambientes de estabilidade.
    A crise de 2008 é um exemplo claro de como a falta de regulação do sistema financeiro pode trazer sérias consequências, e a adoção de políticas macroprudenciais poderiam ter sido utilizadas de modo a evitá-la.

  7. Tiago Serapiao (Economia) Says:

    Um ponto interessante que o post destaca é o desequilíbrio existente em economias consideradas até então em equilíbrio, ou pelo menos com aparência de estabilidade. O fato de o uso de políticas macroprudencias serem usadas como uma regulação em momentos de crise e de uma certa forma com o objetivo de retornar a economia a um suposto equilíbrio, para mim só confirma o fato de que, em uma economia com diversos agentes e variados setores é necessário que para que se tenha modelos eficientes, interações entre esses agentes e setores sejam levados em consideração, para que assim possa atingir o objetivo de diminuir os erros sistêmicos do modelo, como bem explica o post. Sempre com um pensamento de longo prazo. Para que esses efeitos desejados sejam duradouros e eficazes, mesmo que traga efeitos negativos em um primeiro momento para a economia, como destacou o comentário de Marcelo sobre o blog do Vinicius Torres.

  8. Gabriel Besbati Says:

    Colaborações Contabilizadas.


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