ECO I – Outras âncoras nominais – exemplos práticos

 

Âncoras nominais são, basicamente, restrições que se impõem sobre a política monetária de modo a “amarrar” o nível de preços a um valor específico, com o propósito de evitar que o banco central atue de forma errática ou irresponsável, condições estas que poderiam levar à inflação e a todas as consequências danosas que ela gera.

Podem assumir a forma de restrições na quantidade, como na limitação do papel-moeda em circulação, ou de restrições no preço de algum bem, como o ouro ou dólar. Os cinco tipos de âncoras nominais mais comuns são:

  • Taxa de câmbio;
  • Agregados monetários;
  • Inflação (via regime de metas inflacionárias);
  • PIB nominal;
  • E a estratégia conhecida como just do it, na qual não há uma âncora explícita

A âncora cambial já foi tratada pelos grupos ECO F e ECEC C, além das discussões geradas, portanto iremos tratar das outras formas de âncoras mais utilizadas atualmente.

 Agregados monetários como âncoras nominais

O funcionamento básico dessa estratégia traduz a crença monetarista de que a melhor maneira de conduzir a política monetária e, portanto, evitar a inflação, se dá através de uma taxa de crescimento constante do agregado monetário escolhido. Entretanto, como exposto em Bernanke et al. (1999), quase sempre os bancos centrais se desviam das taxas de crescimento monetário por eles próprios estabelecidas, de forma a poder responder apropriadamente a choques que desestabilizam a economia. As experiências do Canadá, do Reino Unido e dos EUA com o regime de metas monetárias durante os anos 70, permitindo overshootings e undershootings das metas propostas, estão entre as evidências mais claras deste tipo de comportamento (CANUTO, 1999 e MISHKIN, 1999).

A principal economia que faz uso desse tipo de âncora nominal é a Alemanha, um dos países com maior rigidez no controle da inflação e que conta com inflação acumulada em 2014 em 0,848 %.

Inflação como âncora nominal

De maneira bastante simplificada, pode-se dizer que o apelo teórico das metas de inflação reside no fato de que, na medida em que o banco central anuncie metas para a inflação e seja efetivamente capaz de mantê-las dentro destas metas, começa ele a desfrutar de credibilidade perante a opinião pública.

O Brasil passou a fazer uso dessa âncora nominal como parte fundamental de seu tripé macroeconômico, política econômica que associa metas inflacionárias, superávits primários e câmbio flutuante.

PIB nominal como âncora nominal

Esta estratégia é bastante similar ao regime de metas inflacionárias e consiste no estabelecimento de uma taxa de crescimento para o PIB nominal, após o que deve haver um comprometimento da autoridade monetária em atingir esta meta. Sendo a inflação o fator que concilia o PIB nominal e o PIB real.

Just do it – política monetária sem âncoras nominais

Apesar de não conter uma meta explícita, este sistema apresenta uma estratégia bastante coerente para a condução da política monetária, porque demanda que o banco central esteja sempre atento às surpresas que o futuro pode reservar (forward-looking) e esteja apto a enfrentá-las antecipadamente (pre-emptive monetary police).

O caso mais conhecido de sucesso na condução da política monetária sem âncoras nominais são, sem dúvida, os EUA, onde durante os anos 90, mesmo com baixo desemprego e alto índice de atividade da economia, foi possível manter o processo inflacionário sobre controle.

Dicas de leitura e referências:

CANUTO, O. Regimes de política monetária em economias abertas. Campinas: Unicamp, 1999

(http://www.eco.unicamp.br/docprod/downarq.php?id=1722&tp=a)

SALOMÃO, M. As âncoras nominais e o combate à inflação. Curitiba: Revista FAE, v.6, n.1, p.1-14. 2003

(http://www.unifae.br/publicacoes/pdf/revista_da_fae/fae_v6_n1/01_miguel.pdf)” 

12 Respostas to “ECO I – Outras âncoras nominais – exemplos práticos”

  1. Augusto Rodrigues Simonetti Says:

    Desconhecia até o momento a política do Just Do It, em que não há uma âncora nominal explícita. Acredito que esta política, quando adotada, requeira extremo compromisso, transparência e qualidade na tomada de decisão pelo Banco Central em relação à expectativa aos agentes, dada a flexibilidade e abrangência do conjunto de ações que o Banco Central pode tomar.

    No texto que li sobre o assunto, cujo link está abaixo, as autoras analisam vantagens e desvantagens de alguns tipos de âncoras nominais.
    No que diz respeito à escolha pela âncora nominal de agregados monetários, as autoras defendem que a maior dificuldade desse tipo de âncora reside no fato de que é quase impossível prever a demanda por moeda após a estabilização do crescimento da oferta da mesma.
    A fixação de uma meta muito restrita de crescimento da oferta monetária tende a elevar as taxas de juros, atraindo capital para o país. Como estes fluxos não podem ser monetizados, sob o risco de violar a meta monetária, acabam por valorizar a moeda doméstica, gerando déficits na balança comercial.
    Por outro lado, se a meta for muito frouxa, a autoridade monetária perde credibilidade e, o que é ainda mais grave, tende a sancionar os aumentos de preços provocados pelo resíduo inflacionário.
    A vantagem da âncora de agregados monetários é permitir que a taxa de câmbio acomode os choques dos termos de troca sobre a economia.

    http://www.eco.unicamp.br/docprod/downarq.php?id=428&tp=a

  2. Luiza Iglesias - ECO Says:

    Procurei um pouco mais sobre âncora nominal “just do it” citada pelo grupo, já que não a conhecia.
    Através do link indicado pelo grupo, notei que se trata de uma estratégia do Banco Central, exigindo previsão e antecipação de possíveis efeitos desestabilizadores, devido à existência de defasagens, longas e incertas, na implementação da política monetária.
    Uma vantagem do sistema é que ele consegue resolver o problema de inconsistência intertemporal e há o menor grau de discricionariedade, e como desvantagem temos que seus resultados são muito dependentes dos indivíduos que atuam no Banco Central e que, como não há ancoras nominais explicitas, talvez não haja informações para os agentes de como as medidas monetárias estão evoluindo (gerando incertezas e instabilidade – o efeito contrário ao desejado).
    Assim, seria dificil o sucesso de uma estratégia de just do it em países onde autoridades monetárias e instituições governamentais sofrem ingerências políticas nas tomadas de decisões, pois a discricionariedade da estrategia é uma variável inversamente relacionada à credibilidade da política monetária.
    Uma ótima alternativa na condução da política monetária seria o regime de metas de inflação.

  3. Marcelo Mc Knight Says:

    Busquei mais a fundo informações sobre a ancoragem nominal via taxas de câmbio. Encontrei num material pontos que tinha pouco conhecimento até o momento, como a existência dos hard pegs ou soft pegs. Prosseguindo, vi que esse tipo de ancoragem pode ocorrer de duas formas, a primeira com os sistemas cambiais de padrão-ouro e os chamados hard pegs, contemplando a dolarização e o currency board. Na segunda forma temos os soft pegs, que incluem os sistemas de bandas de flutuação, zonas-alvo (ou moving target zone) e crawling peg (ou minidesvalorizações).
    Outro fato que me chamou a atenção é a parte histórica, em que o Brasil adotou o crawling peg a partir de 1968, realizando pequenas desvalorizações periódicas almejando continuar no ritmo da inflação passada. Nesse caso o BC fazia os ajustes de acordo com o a paridade do poder de compra (PPC) relativa, realizando o monitoramento entre a diferença entre a inflação norte-americana (país âncora) e a brasileira. Este regime de câmbio perdurou até 1999, pois a partir de 1997 a taxa de inflação passou a cair abaixo do ritmo de desvalorização do câmbio, ocorrendo assim desvalorizações reais da moeda gradualmente. Logo, a partir do início de 1999 o regime de câmbio flutuante foi adotado pelo Brasil.

  4. Alice Ferraz Says:

    É importante ressaltar que, apesar da política de “just do it” não ter âncora nominal definida explicitamente ele adota um sistema muito parecido com o de metas de inflação, sendo a preocupação primordial do FED o alcance de níveis estáveis de inflação. As maiores diferenças entre o “just do it” e as metas são a real existência de uma âncora e a menor transparência da política adotada pelo FED. Essas informações se encontram no capítulo 16 do livro do Mishkin, já estudado para a P1.

    A âncora no PIB nominal foi pouco citada, mas é considerada, por alguns, mais sólida em relação à choques de oferta. Mas, seria preferível que quando adotada, esta meta fosse gradual, pois assumir uma meta de crescimento muito alta poderia ser análogo a assumir uma inflação superior a 2%( o que, no caso de países como os EUA, representaria mudanças nas expectativas de preços e poderia cair em inconsistência dinâmica). A meta de PIB nominal pode assegurar aceleração do crescimento real, se ajustando à níveis estáveis no Longo Prazo.

  5. Lívea Coda - Economia Says:

    Gostei do post do grupo! Gostaria somente de complementar a parte que se refere a Metas de inflação: a partir do momento em que o BC consolida sua credibilidade, ele passa a influenciar e manter estável a expectativa de inflação, o que garante a estabilidade inflacionária. No entanto a perda de credibilidade implica em uma maior variação do valor da inflação. Segue o link de um artigo que explica o fenômeno com base no caso brasileiro (é bem curtinho e fácil de entender!)
    http://ww2.ie.ufrj.br/moeda/pdfs/expectativas_inflacionarias_no_regime.pdf

  6. Tulio Anselmi Dorigan Says:

    Parabéns ao grupo pelo post !!
    Achei um working paper do Mishkin de 1999 no qual ele trata da política monetária em diversos países. Por isso, o foco dele no trabalho é discutir os diferentes tipos de âncoras nominais, quais vantagens e desvantagens de cada uma e quais países a utilizavam em cada momento.
    Um aspecto muito legal que ele chama a atenção é que a melhor estratégia que um país pode adotar ( a fim de demonstrar transparência e fazer “accountability” na política monetária) depende de suas instituições políticas,culturais,econômicas e de sua história.
    https://www0.gsb.columbia.edu/faculty/fmishkin/PDFpapers/w7044.pdf

  7. Eleonora de Oliveira Says:

    É interessante apontar o fato da Alemanha, uma das maiores economias do mundo e a maior do continente europeu, utilizar um tipo de âncora pouco usado devido ao seu difícil controle e, ao mesmo tempo, apresentar uma taxa de inflação tão baixa. Talvez justamente pelo fato dela ser uma economia consolidada, ela possa abrir mão de apresentar um crescimento baixo do PIB para manter os níveis de preço constante.

    Já em relação à âncora através do regime de metas de inflação, concordo com o ponto que a Lívea apontou, de que a consolidação da autoridade monetária como crível antecede a estabilidade da expectativa da inflação, sendo essencial para que possa ocorrer na prática a estabilidade dos preços.

  8. Otávio Beraldi Says:

    Na parte do post que fala sobre metas de inflação explica que elas tem de ser críveis para o banco central ganhar credibilidade o que é verdade. Mas a partir do momento que a autoridade monetária anuncia a meta, mesmo que a priori não crível passa uma informação ao mercado de que esta será a inflação desejada mesmo que não seja 100% confiável. E a credibilidade do mercado perante o anúncio ajuda a inflação a se manter na meta e gerar mais credibilidade, facilitando assim o ciclo, mas que tem de começar por algum lugar, no qual a população possa aos poucos se adaptar e facilitar o novo sistema.

  9. Renato Domingues Coutinho Says:

    Muito bom o post do grupo. Pesquisando mais sobre o assunto, encontrei um artigo muito interessante que procura saber se o regime de metas de inflação adotado pelo Brasil após o fim do câmbio fixo em janeiro de 1999 foi a melhor opção. Os autores, então, apresentam algumas âncoras nominais que poderiam ter sido adotadas e suas características, como o regime de metas cambiais (âncora cambial) e o regime de metas de agregados monetários e o de metas de inflação implícita (âncoras monetárias). A conclusão dos autores é que, dado o histórico de instabilidade da inflação e falta de credibilidade da autoridade monetária brasileira, o regime de metas de inflação foi a melhor escolha para aquele momento.

    http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/ret/article/download/26843/17808

  10. Angelica Mendes - Economia. Says:

    O Just do It aparenta ser uma forma muito eficaz de ancora nominal devido ao seu sucesso nos EUA, mas devemos nos atentar ao fato de que, a falta de transparência da politica monetária pode gerar viés inflacionário, uma vez que os agentes permitem-se alcançar objetivos de curto prazo às custas do longo prazo. Portanto, para uma país sólido como os EUA este regime pode dar certo, mas acredito que em países em que as medidas do BC não sejam muto críveis, ou seja, os agentes não dão muita credibilidade ao BC, seja necessário uma maior transparência das politicas monetárias.

  11. Gabriel Besbati Says:

    Colaborações Contabilizadas.


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