ECO N – Abenomics, vale a pena arriscar?

 

“Abenomics é o nome dado a uma série de medidas econômicas introduzidas pelo primeiro ministro do Japão, Shinzo Abe, que tenta recuperar a economia que se encontrava estancada desde os eventos de 2011, o terremoto e o tsunami, que devastaram e agravaram ainda mais a contração econômica enfrentada pelo país.

A meta é sair da deflação que o país se encontra ao fixar metas de inflação anuais de 2%, ou seja, o governo provocará uma inflação intencional desvalorizando sua moeda. Para isso, foi estabelecida uma política que consiste em três pilares: uma política monetária ousada, uma política fiscal flexível e a expansão do investimento privado, o que abrirá mais a economia e aumentará o intercâmbio comercial.

Abe assumiu o cargo em dezembro de 2012, e já em fevereiro o Iene atingiu grande desvalorização, a bolsa disparou, e as exportações e consumo também se elevaram, porém o investimento privado ainda não atingiu o patamar esperado para acabar com a deflação.É justamente na terceira medida, investimento privado, que está a chave para o crescimento rápido e estável da economia japonesa, porém as restrições governamentais, alta burocracia e impostos, são obstáculos para tornar o mercado flexível e competitivo em âmbito internacional. Para contornar essa situação, Abe criou novos órgãos para ajudar na reforma administrativa, e vem acompanhando comitivas de empresários em diversos países na intenção de realizar investimentos externos.

As medidas tomadas pelo primeiro ministro são consideradas por muitos, como “um gigantesco experimento em política monetária” como disse Greg Ip, da “Economist” e geram grandes discussões sobre sua eficácia.  Também podemos compará-la com a política econômica brasileira, denominada “Dilmanomics” pela Folha de S. Paulo, que faz uma analogia entre ambas, apesar das diferenças estruturais e passadas dos dois países.

Um exemplo é em relação ao Banco Central, onde no Brasil existem várias críticas a respeito do suposto rompimento da independência desse órgão, que teria se tornado um aliado da política econômica pró-crescimento, abandonando o papel de guardião da moeda; enquanto no Japão, o primeiro ministro não teve nenhum receio em anunciar uma “mudança de regime” ao instalar um presidente para o Banco do Japão que pretende inundar o mercado de dinheiro para elevar a inflação. A questão é que como o Japão viveu um período de profunda deflação, a medida para se obter o crescimento econômico não é absurda como seria se ocorresse no Brasil, que já possui inflação elevada. Porém não é esse o ponto, a análise se faz na utilização do Banco Central como um instrumento de política econômica , realizando as metas impostas pelo governo.

Outra comparação está presente num anúncio feito pelo presidente sobre um pacote de estímulo à economia, de bilhões de reais, dos quais grande parte virá do governo japonês, o que implica em uma forte e inquestionável intervenção governamental. Se por outro lado, o Brasil estivesse passando pelo mesmo momento econômico japonês e adotasse essa medida, a reação no país seria contrária, de gritaria e revoltas a respeito das intervenções do governo.

Portanto, a questão é: por que os japoneses podem experimentar e os brasileiros não?

Outro ponto interessante para se debater, é a independência do Banco Central, de grande discussão nas propostas dos candidatos à presidência.

 Para quem tiver interesse seguem links com os dados específicos do processo no Japão, e com matérias em revistas internacionais que abrangem diferentes pontos de vista:

 

http://blogs.xl.pt/massamonetaria/abenomics-vai-salvar-o-jap227o/

http://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2014/08/13/interna_internacional,557949/forte-queda-do-pib-japones-pressiona-o-metodo-abenomics.shtml

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6 Respostas to “ECO N – Abenomics, vale a pena arriscar?”

  1. Angelica Mendes - Economia. Says:

    Porque os japoneses podem experimentar e o brasileiro não?
    O governo brasileiro perdeu grande parte da sua credibilidade com a população. Para que os indivíduos incorporem novas informações nas suas expectativas esta informação deve ser crível, e depois de vários anos de muitos erros no governo brasileiro essa credibilidade foi abalada.Uma mudança de regime, igual a do Japão, seria interpretada como descontrole com as contas publicas, corrupção e privatização para benefício de alguns.

  2. Amanda Pinotti - Economia Says:

    Achei bem interessante o tema e post do grupo. Acredito que as medidas econômicas propostas pelo primeiro ministro Japonês que tenta conciliar a redução do déficit público ao crescimento econômico do Japão forem efetivas, poderá servir de exemplos para outros países que estão passando por momentos econômicos parecidos. Lendo mais sobre o tema, achei essa notícia ( http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/detalhe/abenomics_ao_estilo_europeu.html) Que o Banco central Europeu pretende criar um plano semelhante a esse,onde o primeiro elemento da chamada “Draghinomics” seria a aceleração das reformas estruturais necessárias para estimular o crescimento potencial da Zona do Euro. O segundo elemento se caracterizava por reduzir o atraso do crescimento devido à consolidação orçamental sem por isso deixar de manter déficits baixos e uma maior sustentabilidade da dívida e por fim uma flexibilização quantitativa e do crédito na forma de compras de dívida pública e medidas para impulsionar o aumento do crédito do setor privado.
    Assim como a Angelica citou, acredito que essa medida não teria tanta eficacia no Brasil devido a falta de credibilidade que os indivíduos tem sobre o governo e uma mudança no regime não seria vista como uma medida benéfica.

  3. Lucas Teofilo - Economia Says:

    Esse tema é muito interessante e pesquisando vi que a preocupação dominante de Shinzo Abe, o primeiro-ministro do Japão, é com a queda da economia de seu país comparativamente à da China. Isso explica o “abenomics”, destinado à revitalização da economia. Será que ele poderá ter sucesso? A resposta é: sim – mas apenas em parte. Deve ser possível acabar com a deflação. Mas um grande surto de crescimento da economia é pouco provável.O “abenomics” traz dilemas para a atividade econômica. O Japão goza de uma melhoria cíclica considerável. A deflação poderá desaparecer. Mas esperanças de uma tendência de crescimento econômico mais acelerada são otimistas demais, e a discussão sobre os obstáculos estruturais, limitada demais.
    Há motivos para otimismo. Em primeiro lugar, indícios emitidos pelos mercados de bônus e por pesquisas junto ao consumidor sugerem que as expectativas de inflação estão aumentando. Em segundo lugar, tudo indica que a capacidade excedente é muito pequena: o Bank of Japan avalia que ela corresponde a apenas 1,5% da capacidade de produção. O percentual é sustentado pelo fato de o desemprego estar atualmente em cerca de 4%. Em terceiro lugar, prevê-se que a economia japonesa crescerá ao dobro da velocidade da capacidade de produção nos próximos dois anos.

  4. Luiza Iglesias - ECO Says:

    Portanto, a questão é: por que os japoneses podem experimentar e os brasileiros não?

    Analisando cada um dos três pilares, notamos que uma política monetária ousada não seria viável, assim como a Angélica citou. A situação brasileira já é crítica: inflação elevada e elevado número de críticas ao rompimento da dependência do BaCen. Já uma política fiscal flexível, talvez, e a expansão do investimento privado como medida para impulsionar o aumento do crédito do setor ou flexibilização da burocracia e taxação seriam ótimas medidas a serem tomadas em nosso país. Não deixa de ser um ótimo exemplo a ser seguido, embora necessite de ajustes – o que poderia ser observado, como dito no post, nas propostas dos candidatos a presidência brasileira – , pois abrir mais a economia e aumentar o intercâmbio comercial incentiva a concorrência interna e ainda, como sabemos, o crescimento do PIB brasileiro não anda bem.
    Mas para o Japão, os resultados são impressionantes: o forte crescimento do PIB no primeiro impulsionado pelo consumo privado, os investimentos e o aumento de seus gastos devido à depreciação do iene que impulsionou as vendas externas e as importações.

  5. Gustavo Krieck Says:

    A resposta para a questão questão é que sim, os brasileiros podem experimentar também. Porém para isso deve ser analisado todos os aspectos desde a economia brasileira até a parte social e politica. Como citado em alguns post acima a adoção de algo similar ao que vem sendo implantado no Japão causaria protestos devido ao descrédito político do país. Outro ponto que deve ser ressaltado é a diferença das economias: Brasil e Japao sao bastante diferentes nesse aspecto enquanto a Europa já é mais semelhante ao Japao (dai o “Draghinomics” citado pela Amanda, que é semelhante ao Abenomics).
    Portanto é possível sim arriscar, mas não necessariamente através de medidas semelhantes as japonesas.

  6. Augusto Rodrigues Simonetti Says:

    Impossível não notar a diferença de objetivos entre as políticas econômicas japonesas e as brasileiras. A busca pelo aumento da inflação, uma maior oferta monetária, aumento dos gastos públicos e o corte de impostos corporativos como medidas benéficas ao país são fatos raramente vistos no Brasil, que segue na contramão dessas políticas pela situação em que se encontra. Outro ponto digno de nota é o percentual do pacote de estímulo econômico que têm como alvo o setor de infraestrutura (aproximadamente 55%), constituindo um relevante fator do aumento dos gastos do governo e do papel deste como promotor de uma política econômica keynesiana.

    Compreensível o comprometimento do banco central em adquirir títulos da dívida pública, já que esse processo diminuiria a oferta de títulos no mercado, elevando o preço dos mesmos, levando a um concomitante aumento da oferta monetária e uma queda nas taxas de juros, visando, de acordo com a política econômica de Abe, estimular o consumo e o investimento privado.

    Percebo também um certo trade-off entre o aumento dos impostos sobre o consumo, na tentativa de aumentar a arrecadação e conter o avanço da relação dívida/PIB e a estratégia de promover o aquecimento da economia através de uma política monetária expansionista bem como metas para aumentar a inflação.


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