Como decidimos? Parte 6

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“Capítulo 6 – A Mente Moral

 

Como anunciado no final do último capítulo, o capítulo seis discutirá outra esfera da tomada de decisões: decisões morais e moralidade.  Iniciando-se a partir da análise da psicopatia para entender quais processos não estão presentes nestes cérebros, busca-se compreender então como a maioria das pessoas toma estas decisões.

Psicopatas não se simpatizam com os outros, o que os leva a agir de maneira a não levar os sentimentos dos outros em consideração, e moralidade é vista basicamente como tratamos outras pessoas. Embora considerados normais em todos outros aspectos, psicopatas diferem por possuírem o cérebro emocional danificado, criando um vazio emocional. Este vazio os torna indiferentes a cenas de violência ou dor sobre outros, palavras que contenham sentido de causar mal a outro, ou mesmo a mentir.  O principal problema causador disto parece ser uma amígdala defeituosa. Sendo a amígdala a responsável por sentimentos negativos como medo e ansiedade, psicopatas não se sentem mal por fazer outros sofrerem.

Enquanto a conexão entre moralidade e emoção, ao invés de razão, possa ser perturbadora, na prática as emoções decidem sobre a moralidade de uma decisão e então a parte racional busca motivos e defesas para esta decisão. Lógica, legalidade, filosofia e teologia têm pouco a ver com esta tomada de decisão. No livro, o autor usa um cenário moral criado por Haidt, em que dois irmãos fazem sexo e o pesquisador retira contextualmente todo e qualquer empecilho advindo desta relação, e as pessoas continuam julgando tal fato imoral, sem poder defender este julgamento racionalmente. Este seria o motivo de psicopatas serem tão perigosos: a eles faltam as emoções que guiam as decisões morais em primeiro lugar. Desta forma, a parte racional do cérebro pode defender qualquer decisão, dado que as emoções não dizem para não serem violentos, por exemplo.

Uma vez que decisões morais são decisões de diferente natureza, os circuitos responsáveis por decisões morais fazem parte de uma adaptação biológica recente que nos distancia da maioria dos outros animais, notadamente por sermos os mais sociais dos animais. Isto foi descoberto analisando-se o cérebro das pessoas enquanto estas tomam decisões morais. As imagens colhidas em experimentos mostram que se ativam circuitos diferentes no cérebro se a decisão for pessoal ou impessoal. Decisões impessoais, que podem ser descritas pelo fato de uma pessoa afetar outros indiretamente por suas ações, são tomadas pelos circuitos de tomada de decisões racionais; enquanto decisões pessoais, descritas como ações realizadas diretamente sobre alguém, são tomadas por outros circuitos, responsáveis por interpretar os pensamentos e sentimentos de outras pessoas. Exemplo aplicado disso, a mudança no treinamento militar americano depois de descoberta a baixa taxa de tiros contra inimigos durante a guerra, tamanho o medo dos soldados americanos de matarem. O novo treinamento focou-se na encenação exaustiva do abatimento do alvo, de modo a tornar isto algo mais natural, e no uso de táticas que envolvem decisões mais impessoais, como o bombardeio.

O autor, então, argumenta que ser simpático exige que o cérebro crie uma teoria sobre o estado de espírito de outra pessoa. Na falta de informações reais sobre outros, tendemos a nos colocar no lugar de outra pessoa para imaginar como nos sentiríamos, e isto acaba criando simpatia.  Este fato é explicado no livro com o experimento do jogo do ultimato, em que participantes ofereceram dividir mais igualmente o dinheiro, antecipando como outros participantes se sentiriam. Os próximos experimentos servem de base para argumentar em favor de uma tendência do cérebro em tentar encontrar estados de espírito que pode inclusive se estender a objetos inanimados, uma correlação positiva entre atividade nas regiões simpáticas e a inclinação ao altruísmo, e um sistema de recompensa por altruísmo que chega a oferecer maior sensação de prazer do que ganhos pessoais. 

Seguindo a linha de utilizar exemplos de mentes danificadas para entender a mente normal (como no caso da psicopatia), o livro traz uma série de estudos sobre autismo e como isto afeta os circuitos simpáticos. Uma das áreas do cérebro afetada pelo autismo é chamada de “neurônios espelhos”, responsável por copiar outra pessoa, simulando a ação percebida dentro do cérebro.  Consequentemente, autistas não conseguem espelhar o sentimento de outros, e não reagem perante alguém com raiva ou alegre, por exemplo. Além disso, autistas não apresentam atividade em uma área para reconhecimento facial, e precisam tentar entender um rosto de forma puramente racional, como fariam com uma cadeira, por exemplo. Estas duas áreas ajudam a explicar o isolamento emocional de um autista, e a falta de simpatia decorrente. Quando participam do jogo do ultimato, autistas tendem a ser racionais sem antecipar o sentimento dos outros participantes, oferecendo mais divisões injustas do dinheiro e aumentando a chance de rejeição.  Posteriormente, experimentos mostraram que pessoas isoladas de outros participantes, portanto sem o contato visual que poderia estimular o circuito simpático, tendem a agir como os autistas. Mais ainda, quando é dado muito poder a um individuo, ou este toma uma decisão baseada em estatística pura, o altruísmo não encontra equivalência nas respostas emocionais, e as decisões são mais egocêntricas.

Finalmente, cérebros com potencial para serem simpáticos ainda precisam de certas experiências para poder desenvolver-se de forma plena. Particularmente, abuso infantil causa um isolamento do cérebro emocional, de forma a desligar o sistema simpático. Assim, crueldade e abuso geram mais crueldade e abuso.  Com o experimento de Harry Harlow, ficou claro como estas experiências afetam macacos sem nenhum contato com um similar, e este resultado foi comprovado em seres humanos com os eventos que se sucederam na Romênia Comunistas, onde a superlotação de órfãos criou esta mesma falta de afeição, com resultados de isolamento emocional semelhantes. Em outro experimento, crianças que foram abusadas não conseguiam consolar outra criança que chorava, e mesmo quando tentavam, terminavam por abusar física ou psicologicamente da outra criança. O ciclo de isolamento emocional perpetuava-se.  A conclusão, por outro lado, é que em mentes ditas como normais, que não sofreram abusos e puderam desenvolver-se sem distúrbios adicionais, os circuitos simpáticos se manifestem de forma a evitar a dor ou sofrimento de semelhantes.  O último experimento do capítulo cita como macacos rhesus evitaram a dor de outro macaco à custa de obter menos de sua comida favorita, ou mesmo passar fome, explicitando como o sistema simpático age de forma a simular os sentimentos de outros e considera-los antes de tomar uma decisão.

De forma concisa, o capítulo visa demonstrar através de experimentos e exemplos como a simpatia, suposta base da moralidade, fundamenta-se na capacidade do cérebro emocional de gerar respostas ao sentimento do outro, e não na razão, como se acreditava.”

GRUPO 06

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14 Respostas to “Como decidimos? Parte 6”

  1. Roseli Silva Says:

    Bacana! Demos sorte, um belo capítulo bem resumido!!

  2. Isabela P. S. Says:

    Este capítulo, mais uma vez trata da importância dos sentimentos na conduta dos seres humanos. A moral é um tema bastante antigo e também muito complexo. Pertencendo aos grandes debates filosóficos, seria difícil aprofundar-se nessa área sem recorrer a termos mais técnicos. Porém, o capítulo é eficaz e relaciona a simpatia pelo outro à moral. Desse modo, foi possível mostrar que muitos experimentos comprovam que a moralidade está mais associada aos sentimentos do que à razão.

  3. Anna Carolina M. del Cura Says:

    Com certeza um resumo muito bom =). Se eu tivesse mais tempo realmente iria ler mais sobre o cérebro, a mente humana… esses resumos está fazendo com que eu fique curiosa com o que mais o nosso cérebro tem a nos mostrar. Saber como funciona o cérebro dos autistas, por exemplo, é muito importante, assim sabemos como lidar com eles, e assim ocorre com todos os tipos de traumas e deficiência. Está aí uma área a ser muito explorada e que se soubermos juntar com o que aprendemos na faculdade, conseguiremos crescer mais profissionalmente e inovar muitas coisas 😉

  4. Thiago Zanandrea Moda Says:

    Esse capítulo abordou o ponto mais fundamental na tomada de decisão sob o meu ponto de vista, confirmou que nossa escolha é afetada primeira pelas emoções proporcionadas pela mente humana, e depois que usamos a razão, o inverso do que a maioria de nós acreditava.
    Achei interessante que as decisões impessoais que são definidas como as ações que usamos para afetarem a outras pessoas indiretamente são tomadas pelos circuitos de tomada de decisões racionais, o oposto do que eu esperava, acreditava que o ser humano seria mais sentimental na tomada de decisão que envolvesse outros indivíduos, percebemos isso no trecho : “que na falta de informações reais sobre os outros, tendemos a nos colocar no lugar da outra pessoa para imaginar como nos sentiríamos”.
    Acredito que as diferenças sociais ocorrem porque quando lidamos com dinheiro não pensamos muito nos outros e sim no próprio bolso, como visto no exemplo que mostrou que os autistas tendem a serem racionais sem antecipar o sentimento dos outros indivíduos, ou seja, temos um pouco do sentimento de um autista quando tomamos decisões que nos geram algum benefício próprio.

  5. Orlando Yuzo Iwamura Says:

    Um resumo muito bom. Gostei da parte que explica o comportamento do cérebro do autista. Não sabia autistas não conseguem espelhar o sentimento de outros. Mudando minha visão sobre a mente humana.

  6. Débora L. Squilante Says:

    Desculpa em discordar Thiago, mas os autistas são indivíduos com um deficit em sua inteligência interpessoal (em relação aos outros) e inteligência intrapessoal (em relação a si próprio). Dado isso, quando tomamos decisões que nos beneficiam, não estamos agindo de forma semelhante a um autista.
    Fixando esses dados apresentados, segundo Howard Gardner, a criança autista é um exemplo prototípico de um indivíduo com a inteligência intrapessoal prejudicada; na verdade, essas crianças talvez nunca tenham sido capazes de se referirem a si mesmas.

  7. Priscila "Ω´" Pacheco Says:

    Primeiramente, atendeu as minhas expectativas… Muito bom o resumo! Mas como é de se esperar… vamos debater um pouco! Pontos no capítulo que me chamaram muito a atenção: a relação entre os irmãos, moralmente sabemos que isso é inadequado, porém mesmo sem a contextualização do cenário, por que ainda é errado? Outra coisa… no capítulo o autor chama de Simpatia uma coisa que sempre entendi como Empatia (o.O)… alguém sabe a teoria psicológica (apresentada no texto, ou não) para diferenciar uma da outra… ou podemos pensar que em certos pontos são tão semelhantes chegando a serem quase indistinguíveis?

  8. Débora L. Squilante Says:

    Através da linguagem, os seres humanos formam uma interação. No encontro entre dois indivíduos pode ocorrer uma simpatia, que seria uma inclinação ou tendência a se atrair pelo próximo. A simpatia, portanto, está ligada a subjetividade do ser humano e não no mundo objetivo, materializado. Na interação entre dois indivíduos atraídos (um pelo outro), eles são capazes de desenvolver uma empatia, que seria uma forte identificação. No processo de identificação, entramos em contato com o mundo do outro, reconhecemos nós próprios e fazemos do mundo do outro, o nosso próprio.
    Respondendo sua pergunta, não são semelhantes. A simpatia está apenas em um estado subjetivo. Enquanto a empatia necessita do mundo objetivo e subjetivo, pois ela só ocorre durante a interação, após ter ocorrido a simpatia.

  9. Heber Mizuno Says:

    Axei interessante a parte que fala sobre a decisão pessoal/impessoal e da ligação com as partes do cérebro, é por isso que muitas vezes as pessoas ajudam uma outra (pobre ou que esteja em uma situação difícil qualquer) quando estão “frente a frente”, mas são capazes de tomar uma decisão que prejudique muitas pessoas sem nem um tipo de reflexão, por se tratar de uma decisão impessoal.

  10. Rodrigo Sanches - Usuário Says:

    Numa das partes que falam sobre a conexao moralidade-emoção-razão, no momento que li, imaginei um julgamento inverso: primeiro vem o veredito e depois as provas que, necessariamente, são a favor do parecer final – até parece aqueles desenhos animados que mostram o funcionamento do nosso cerebro com pessoas trabalhando em situações reais, rsrs.

    Bem intrigante esse capítulo. Uma explicação desses comportamentos humanos bem alicerçada somente em teorias neurais e biologicas – nada de filosofia, sociologia, outra logia humana. Mas, mesmo o cérebro tentando gerar uma teoria sobre o outro para gerar simpatia, o uso dos neuronios-espelhos, o cérebro não está livre do erro, uma vez que conseguimos detectar sentimentos, expressoões faciais porque aprendemos assim com a observação – mais uma vez, a evidencia da internalização.

  11. Karina Pagan Says:

    O fato das pessoas que passaram por algum trauma durante o desenvolvimento do cérebro não conseguirem ter comportamento tais como consolar uma pessoa ou ser simpático foi o que mais chamou a atenção neste capitulo.Outro aspecto interessante foi que os psicopatas por terem o cérebro emocional danificado são insensíveis e não se importam com os sentimentos das outras pessoas.Assim observa-se o quanto o cérebro emocional influencia o comportamento de um individuo

  12. Natália Pagan Says:

    Achei interessante a explicação sobre o comportamento dos psicopatas ,estes apresentam um vazio emocional por causa de uma amídala defeituosa .Também gostei da explicação sobre o que determina o comportamento da pessoa tendo como base o passado onde algum trauma ocorrido provocaria um vazio emocional.Enfim um capitulo muito bom que explicou bem o comportamento destes tipos de pessoas.

    • Débora L. Squilante Says:

      Eu não concordo com o termo “vazio emocional”.
      Os psicopatas são altamente emocionais. A diferença é que seus sentimentos são negativos, como raiva, inveja, rancor e sentimento de vingança – que leva a obsessão e atos criminosos.
      O vazio emocional se encaixaria melhor com um autista do que com um psicopata.
      Lembrando que o mistério que envolve a psicopatia ainda está longe de ser esclarecido, e que a explicação da amídala defeituosa é apenas mais uma das teorias. Há também a hipótese da ausência de alguns hormônios.


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