Papel social do economista

 

Já falei algumas vezes, neste blog, sobre a formação e o papel social do economista. Concordo com a visão do colega Mansueto de Almeida, que mantém um excelente blog de economia, expressa no início da entrevista concedida à Rio Bravo (podcast 194) sobre política fiscal. Como dito em um post anterior:

“Os objetivos da política econômica não são definidos pelos economistas, acadêmicos ou práticos, nem pelos burocratas, tampouco pelos gestores da política econômica – no caso da política monetária, presidente, diretores e técnicos dos bancos centrais. A definição desses objetivos faz parte de um contexto mais amplo de escolhas sociais, políticas e econômicas, e, para o bem ou para mal, não tem outro fórum de decisão que não o político, ao menos em sociedades democráticas.”

E sobre o papel social do economista, também há concordância: estabelecer e avaliar os prós e contras de escolhas alternativas, também reportado num outro post:

“O Economista é um profissional que analisa e propõe soluções para problemas associados a escolhas de várias ordens: financeiras, produtivas, sobre alocação de recursos públicos, de tempo, sobre decisões de consumo, etc. Para identificar e analisar tais problemas, os Economistas têm um modo particular de pensar, um modo estruturado (para simplificar o todo complexo do mundo real), em que buscamos: caracterizar os fatores históricos, políticos e institucionais que afetam o problema; ressaltar as principais variáveis econômicas envolvidas;  hipotetizar relações entre elas a partir das teorias e modelos conhecidos; e obter observações reais (dados) para estas variáveis para que, se for o caso, possamos analisar o problema a partir de instrumentos estatísticos e fazer inferência sobre hipóteses de interesse.”

 

Também concordo com Mansueto que ainda temos um visão do papel do economista muito distorcida, oriunda da década de sessenta, em que este profissional se rogava o direito de ditar o que é bom ou mau para a sociedade. Quem dera pudéssemos apenas fazer bem o nosso papel social, aquele para o qual temos vantagens competitivas, e deixássemos as escolhas que envolvem juízo de valor para o fórum representativo da maioria.

 

 

Momento de Epifania

 

Sob um céu azul, com nuvens brancas daquelas que eu costumava passar horas observando quando muito menina, daquelas que viravam elefantes, coelhos, peixes… ah! Um centauro! Agora, um… um… uma… e mais alguns minutos, lá estava a fada de asas esvoaçantes… e… sumiu! Essas nuvens vieram me visitar ontem à tarde. Na verdade, eu que fui buscá-las, deitada na grama de um campo à beira de um trecho de lago, milimetricamente idealizados, campo e lago, por Olmsted and Vaux, como todo o Central Park, lá nos idos do século dezenove…

Olhando para cima, hipnotizada pela simples beleza de um céu azul, que brincava de esconde-esconde com as nuvens brancas, deixei-me ali parada, os pés descalços sobre a grama traziam uma sensação indescritível de liberdade para o todo. Em certos momentos acho mesmo que consegui nem pensar em nada. Nem em saudade (que é tanta), nem em contas e ajustes daqui e de lá nas finanças para fazer a vida acontecer, nem nos modelos de equilíbrio geral estocástico dinâmico, nem nas séries temporais, nem nos temporais em série que acometem meu coração vagabundo. Nada. Meditei, creio eu. Desse estado meditativo, que ao durar alguns minutos já me foi um grande feito, passei ao estado imaginativo fértil (menos estranho a mim): quem seria eu, onde eu estaria e o que estaria sentindo naquele exato momento se os sonhos da menina-que-gostava-de-nuvens tivessem se realizado? E se aquela fada de asas esvoaçantes tivesse balançado sua varinha de condão em minha direção? “Belo exercício de ficção” – pensei e nele embarquei. Nunca precisei de nada além da imaginação para viajar para os lugares, as eras, as fantasias que desejei. A menina queria ser escritora, quando ainda mal sabia escrever. Escrever era tão lindo… as letras juntas que formam coisas com tanto significado, e com uma força imperativa, permitiam expressar a revolução diária de todos nós… É certo que “pato” nada tem de especial, além de ser a primeira palavra que escrevi numa folha tirada de um caderno de uma das minhas irmãs, sentada no colo do meu pai, à mesa da cozinha, enquanto minha mãe preparava o jantar… Eles falavam sobre coisas que eu não compreendia, mas eu sentia que o clima não era bom… e eu escrevia, escrevia, escrevia as letras que minhas irmãs mais velhas me ensinavam em suas horas de brincar de escolinha comigo, eu, a aluna, sempre. Escrevia e lia. E nada fazia sentido… num certo momento mágico: “P-A-T-O… pato!!!! Pai, escrevi pato!!!”. Que felicidade!!! Momento de epifania. Meu pai olhou, leu “É mesmo filha, escreveu pato!” e voltou aos assuntos importantes com minha mãe, sem muita atenção àquela pequena alma esfuziante que parecia ter descoberto o mundo numa folha de papel. Mas esse pequeno momento de reconhecimento de minha “genialidade” nada precoce por parte do meu pai já me foi suficiente – sabemos o poder do pai. Felicidade infinita. Dali não parei mais de escrever. Escrevia sempre. Passava horas reescrevendo as estórias que lia ou ouvia – minha mãe havia nos presenteado com um conjunto de três livros de estórias, curtas e ilustradas, e três discos em que algumas delas eram narradas – eu me lembro da voz dos narradores até hoje. Escrevia tanto que faltava papel e os lápis iam ao limite do impossível. Depois… vieram os números… e eu me apaixonei por eles… Mas, tivesse eu sido escritora… acho que não seria muito diferente de quem sou hoje, talvez estivesse mesmo aqui e agora, em Nova Iorque, local mais que apropriado para uma alma cosmopolita como a minha, em retiro para escrever meu novo livro, aguardado com elevadas expectativas pelo leitores, fãs e críticos. Um livro que serviria para algo: bom entretenimento, com reflexões sobre a vida e a morte, o amor e o ódio, a paz e a guerra do cotidiano dos que não ignoram suas próprias existências. Nisso, sim, diferença fundamental entre a ficção e a realidade atual.

 

 

%d blogueiros gostam disto: