Depósito compulsório e estabilidade financeira

 

Começando esse tema, vale a pena falar um pouco sobre o que seja o tal do depósito compulsório, uma vez que esse blog pretende ser um meio de comunicação com um público amplo. Para entendê-lo, também é preciso saber que as instituições financeiras, os bancos comerciais, em particular, são empresas privadas como qualquer outra e objetivam a maximização da riqueza de seus acionistas (todo trimestre, a mídia divulga os elevados lucros dos bancos, não é novidade para ninguém!).

E de onde vem o lucro dos bancos? Basicamente, da diferença entre a taxa de juros que eles pagam às pessoas que neles depositam seus recursos e a taxa de juros que cobram das pessoas que tomam emprestado deles – os bancos são intermediadores financeiros. Essa diferença é o spread dos bancos, do qual uma parcela considerável é lucro (outras partes são tributos, provisão para inadimplência e custos operacionais e fixos – para os quais também cobram tarifas, aliás).

Para facilitar nossa vida, vamos pensar apenas numa fonte de captação: os depósitos à vista, aquele dinheiro que fica na sua conta corrente, e que você usa no dia-a-dia para fazer suas transações ao longo do mês. Sabemos que tais recursos não recebem remuneração alguma por parte do banco em que temos conta corrente, fazem parte do que chamamos de moeda na economia. Porém, eles estão à disposição do banco para realizar empréstimos de curto prazo para outros agentes que têm escassez de recursos (operações típicas dos mercados de crédito), e claro, a uma determinada taxa de juros.

Então, vejamos: nesse caso, o banco recebeu depósitos e paga juro zero por eles, e pode emprestá-los cobrando algum juro. O que a lógica de maximização de lucros levaria os bancos a fazer? Emprestar 100% de tudo que captou como depósito à vista, claro!! Um exemplo pode ajudar:

Maria tem R$ 100,00 e os deposita em sua conta corrente no banco A. O banco A empresta, então, para o seu cliente João, os R$ 100,00 que captou como depósito à vista. João, o tomador do empréstimo a uma determinada taxa de juros, deposita os R$ 100,00 em sua conta corrente no banco B, que, por sua vez, empresta os mesmos R$ 100,00 que captou como depósito à vista para outro cliente, que por sua vez, deposita em sua conta corrente…

Se contabilizamos apenas esse fluxo contínuo de operações de depósito à vista e empréstimos, tendo como intermediários os bancos comerciais, quanto de moeda teríamos em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$100,00 do João + R$100,00 do fulano + R$ 100,00 + R$100,00. + …

Ou seja, uma quantia infinita!!

Enquanto todos os agentes donos dos seus respectivos R$100,00 em suas contas correntes estivessem tentando comprar bens e serviços pagando com seus cartões de débito, o único problema seria o seguinte: como não haveria uma quantidade infinita de bens e serviços para comprar, o excesso de demanda causaria uma elevação generalizada nos preços, ou seja, inflação!!

Mas… e se a Maria decidisse sacar R$ 1,00 (um Realzinho só!!) de sua conta corrente, o que aconteceria? Acompanhe a cena: Maria vai à boca do caixa e pede “Quero R$ 1,00 da minha conta corrente”. O Sr. Caixa vai até o cofre do banco e onde estão os R$ 100,00 de Maria?? Emprestados para o João! Maria: “Cadê meu dinheiro? Socorro!”. O mesmo aconteceria com todos que fossem tentar sacar dinheiro de suas contas correntes, ou seja, crise de pânico geral e o sistema bancário desmoronaria, falência geral.

Buscando evitar tais situações de crise de liquidez (falta de dinheiro), ainda nos primórdios da criação dos sistemas bancários no mundo, estabeleceu-se que a autoridade reguladora do sistema (os bancos centrais, na modernidade) devem definir um percentual daquilo que é captado pelos bancos como depósito à vista (não só, atualmente) como uma garantia para os saques dos clientes. Esse percentual é mantido pelos bancos compulsoriamente, sem poder ser emprestado, e constitui a taxa percentual de reservas compulsórias ou depósito compulsório.

No exemplo acima, suponha que o banco central estabeleça o depósito compulsório em 20% dos depósitos à vista. Então, dos R$100,00 que a Maria depositou no banco A, este poderia emprestar apenas R$ 80,00, e assim sucessivamente. Quanto de moeda haveria em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$80,00 do João + R$64,00 do fulano + R$ 51,20 + R$40,86. + …

Ou, colocando os R$100,00 em evidência: R$100,00*(0,8 + 0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8*0,8 + …) o que levaria a um total de R$ 500,00 que seria, então, o total de moeda em circulação na economia (para quem não se lembra, a soma entre parênteses é a soma infinita de uma progressão geométrica e resulta em 5).

Resumindo: as captações à vista dos bancos comerciais precisam ter uma parcela mantida à parte do sistema de intermediação financeira para garantir a estabilidade do mesmo, frente às necessidades de saques destes recursos por parte dos depositantes; a compulsoriedade tornou-se óbvia a partir das explicações acima, espero! Essa possibilidade de multiplicar a moeda em circulação na economia por meio dos empréstimos a partir dos depósitos à vista é o que tradicionalmente se denomina “poder de criação de moeda dos bancos comerciais”, e o tal poder é medido pelo multiplicador monetário (no caso do exemplo, valor de 5 obtido na soma infinita) que é, como se pode notar, inversamente proporcional ao percentual de reservas compulsórias. Quanto maiores os depósitos compulsórios, menos recursos sobram para os bancos emprestarem, e menor é o poder de “multiplicação” da moeda por parte do sistema bancário. Por esse motivo, tal percentual é também um instrumento de política monetária. Como ele e a taxa de juros estão relacionados, trataremos num próximo post, porque este já ficou muito longo…

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7 Respostas to “Depósito compulsório e estabilidade financeira”

  1. lifega Says:

    Gostei, achei bem didático… até a parte matemática. Mas… mas… mas… fiquei cheia de perguntas!
    E uma conclusão: quer dizer que, se eu não desejar que o banco lucre com meu parco dinheiro, sou obrigada a depositá-lo, compulsoriamente, debaixo do colchão?
    😉

  2. Liv´s Says:

    Nossa, adoreio post, entendi! Então, se ng depositar nada nos bancos, nem abrir conta, os bancos falem! Gente, vamos falir com os bancos!Pra que ficar dando dinheiro pros banqueiros emprestarem pros outros com juros abusivos, eqto eles enriquecem e nós não gahmamos nada com isso, ou melhor, só perdemos, pagando caro para as taxas de quaisquer operações que realizamos!Affffeee…que loucura!

  3. Liv´s Says:

    A parte matemática achei “esquisita! hehe…pq dá um total de 500,00? E o final não sei se entendi:”Por esse motivo, tal percentual é também um instrumento de política monetária. Como ele e a taxa de juros estão relacionados, …” : A política monetária então, será aplicada nessa soma dos 80% de cada 100,00, que dá 500,00, que é a moeda em circulação? Ou sejam, o governo entao aplicará alguma norma nessa grana que tá circulando, é isso?

    • Roseli Silva Says:

      Nossa!! Muitas perguntas! Primeiro, o que nós ganhamos com as contas correntes? Comodidade, facilidade para fazer transações, segurança, entre outras coisas. Há benefícios e custos e certamente os benefícios ultrapassam os custos, caso contrário não seria viável a existência de tais operações. Imagine vc recebendo seu salário em dinheiro e andando com ele pra lá e pra cá, ou, guardando embaixo do colchão, como sugeriu a Lígia! Outro ponto é que eu tratei apenas de umas das operações nas quais os bancos são intermediadores, há inúmeras outras, e a que tratei é exatamente a que está associada ao conceito de moeda na economia: soma de todos os depósitos à vista nos bancos comerciais e o papel moeda em poder do público. Para fazer política monetária por meio da alteração do compulsório, sim, o Banco Central pode alterar o percentual, como fez em início do mês corrente, elevando-o. Mas veja, esse é o funcionamento normal e necessário para a “engrenagem” da economia funcionar!! E porque os bancos não são instituições sem fins lucrativos, há a necessidade de regulação por parte do governo, o que faz parte das medidas macroprudenciais do post anterior!!
      Obrigada pelo comentários, abraços!!

  4. Liv´s Says:

    desculpe os erros de digitação…

  5. Luis Alexandre Says:

    Este é um post que todo mundo deve ler.

    Fantástico!!

    Parabéns


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