Restrospectiva Random Walk

 

Um pouco da história desse blog, para fechar o ano. A idéia inicial surgiu em outubro de 2009, incentivos não me faltavam, fã que sempre fui dos blogs do meu querido amigo Cláudio Shikida, dentre outros. Assim é que a data inaugural dele é aquela. Porém, foi a partir de fevereiro de 2010 que as atividades efetivamente se iniciaram, e hoje, temos:

Quase 7.800 visitas; 35 artigos; 15 categorias em que elenco os principais temas e 10 tags, que uso para expressar o “estado de espírito” do post. Os números são modestos para a grandiosidade da internet, mas estão de bom tamanho, tratando-se de um blog de uma professora de economia que não pauta sua conduta pela popularidade junto aos alunos (adoro eufemismos… rs).

Sem contar o acesso de lançamento dos posts, em que eles ficam na página de entrada, os campeões em acessos diretos são:

Ensinando Economia por meio de jogos em sala de aula, com 234 acessos;

PIB, o que é isso mesmo? Com 204 acessos;

Estudar Economia, com 203 acessos.

O post campeão está associado à matéria que ficou na capa do site da USP, sobre projeto de extensão e cultura realizado com uma colega em escolas públicas de Ribeirão Preto, no dia 22 de abril, o que rendeu o dia campeão de visitas: dia 23 de abril, com imbatíveis 130 visitas!

A porta de acesso mais importante para o blog é mesmo minha página acadêmica, em que divulgo cada post novo, e dela vieram 746 visualizações, seguida do twitter (156), o que mostra que o esforço vale a pena, pois o blog tem servido de comunicação adicional com meus próprios pupilos, que são os que acessam regularmente minha página acadêmica.

E, para finalizar, adivinhem qual é o termo de motor de busca que mais levou os internautas ao meu blog?? Random walk, com mais de 200 buscas!

Como este é o último post do ano, aproveito para desejar a todos um 2011 esplendoroso!! Como inspiração, reproduzo um Fernando Pessoa que adoro:

“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.”


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Depósito Compulsório e taxa de juros

 

Continuando o assunto, vamos pensar agora numa estrutura financeira mais complexa, em que as pessoas decidem o quanto consumir no presente e o quanto poupar, de seu fluxo de renda corrente. Da decisão de consumo, deriva-se a decisão do quanto necessitarão de moeda (e, assim, quanto de moeda manterão em suas contas correntes e/ou em espécie) – as transações são um dos motivos para se demandar moeda. Porém, para a parcela da renda que se poupa, buscam-se aplicações em ativos financeiros que rendam juros, possibilitando um ganho ao poupador ao longo do tempo, como por exemplo a caderneta de poupança, os fundos de renda fixa ou variável, o títulos do governo, os títulos privados, as ações, etc. Assim, os bancos comerciais agora têm outras formas de captar recursos, que deverão ser devolvidos aos seus detentores, em determinados prazos com respectivas remunerações de juros, e podem, assim, emprestar tais recursos cobrando uma taxa superior aos tomadores de empréstimos (a diferença é o spread, como já falamos).

Do ponto de vista macroeconômico, quando agregamos os agentes econômicos em agentes privados (famílias e empresas) de um lado e governo do outro, as operações financeiras entre agentes privados são créditos para uns e débitos para outros e, são por simplificação, excluídas da análise nessa agregação. Restam, do ponto de vista de ativos financeiros, as transações entre agentes privados e governo e, além do ativo moeda, há também os títulos públicos! Então, pense que, nessa simplificação, estamos considerando que o ativo disponível para aplicação financeira é 0 título público de curto prazo, cuja remuneração é a taxa básica de juros da economia, associada ao agente de menor risco ou livre de risco, o governo. A importância de tal taxa é clara: a partir dela, as taxas de prazos e riscos maiores são determinadas – no caso brasileiro, falamos da taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia, em que são registradas as transações com títulos públicos em mercado secundário).

Ok, agora podemos resumir os efeitos dos depósitos compulsórios sobre a taxa básica de juros: suponha que haja uma elevação no depósito compulsório, sabemos (veja post anterior) que haverá menos capacidade de “criação de moeda por parte dos bancos comerciais”. Tudo o mais constante, os agentes estavam em equilíbrio tendo a quantidade desejada de moeda e de títulos em suas carteiras financeiras, e agora têm menos moeda à disposição, o que fazem? Reavaliam suas carteiras de ativos e ofertam títulos públicos buscando recompor a quantidade de moeda desejada, dado o nível de transações planejadas. Com excesso de oferta de títulos, o preço do título cai e a sua taxa interna de retorno se eleva (há uma relação inversa entre preço e juros dos títulos, como se observa facilmente em uma perpetuidade). Observe que, nesse processo, a única intervenção do banco central (autoridade monetária) foi  a elevação do compulsório, já que o resultado final de juros maiores é consequência do ajuste de carteira de ativos entre agentes privados no mercado secundário de títulos públicos.

É assim que o depósito compulsório pode ser, e é, utilizado como instrumento de política monetária! Observe também que, como este é um processo que passa pela decisão dos agentes privados em recompor suas carteiras de ativos, o efeito final sobre a taxa básica de juros é muito mais demorado (leva meses) e, portanto, incerto.

É isso!


Depósito compulsório e estabilidade financeira

 

Começando esse tema, vale a pena falar um pouco sobre o que seja o tal do depósito compulsório, uma vez que esse blog pretende ser um meio de comunicação com um público amplo. Para entendê-lo, também é preciso saber que as instituições financeiras, os bancos comerciais, em particular, são empresas privadas como qualquer outra e objetivam a maximização da riqueza de seus acionistas (todo trimestre, a mídia divulga os elevados lucros dos bancos, não é novidade para ninguém!).

E de onde vem o lucro dos bancos? Basicamente, da diferença entre a taxa de juros que eles pagam às pessoas que neles depositam seus recursos e a taxa de juros que cobram das pessoas que tomam emprestado deles – os bancos são intermediadores financeiros. Essa diferença é o spread dos bancos, do qual uma parcela considerável é lucro (outras partes são tributos, provisão para inadimplência e custos operacionais e fixos – para os quais também cobram tarifas, aliás).

Para facilitar nossa vida, vamos pensar apenas numa fonte de captação: os depósitos à vista, aquele dinheiro que fica na sua conta corrente, e que você usa no dia-a-dia para fazer suas transações ao longo do mês. Sabemos que tais recursos não recebem remuneração alguma por parte do banco em que temos conta corrente, fazem parte do que chamamos de moeda na economia. Porém, eles estão à disposição do banco para realizar empréstimos de curto prazo para outros agentes que têm escassez de recursos (operações típicas dos mercados de crédito), e claro, a uma determinada taxa de juros.

Então, vejamos: nesse caso, o banco recebeu depósitos e paga juro zero por eles, e pode emprestá-los cobrando algum juro. O que a lógica de maximização de lucros levaria os bancos a fazer? Emprestar 100% de tudo que captou como depósito à vista, claro!! Um exemplo pode ajudar:

Maria tem R$ 100,00 e os deposita em sua conta corrente no banco A. O banco A empresta, então, para o seu cliente João, os R$ 100,00 que captou como depósito à vista. João, o tomador do empréstimo a uma determinada taxa de juros, deposita os R$ 100,00 em sua conta corrente no banco B, que, por sua vez, empresta os mesmos R$ 100,00 que captou como depósito à vista para outro cliente, que por sua vez, deposita em sua conta corrente…

Se contabilizamos apenas esse fluxo contínuo de operações de depósito à vista e empréstimos, tendo como intermediários os bancos comerciais, quanto de moeda teríamos em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$100,00 do João + R$100,00 do fulano + R$ 100,00 + R$100,00. + …

Ou seja, uma quantia infinita!!

Enquanto todos os agentes donos dos seus respectivos R$100,00 em suas contas correntes estivessem tentando comprar bens e serviços pagando com seus cartões de débito, o único problema seria o seguinte: como não haveria uma quantidade infinita de bens e serviços para comprar, o excesso de demanda causaria uma elevação generalizada nos preços, ou seja, inflação!!

Mas… e se a Maria decidisse sacar R$ 1,00 (um Realzinho só!!) de sua conta corrente, o que aconteceria? Acompanhe a cena: Maria vai à boca do caixa e pede “Quero R$ 1,00 da minha conta corrente”. O Sr. Caixa vai até o cofre do banco e onde estão os R$ 100,00 de Maria?? Emprestados para o João! Maria: “Cadê meu dinheiro? Socorro!”. O mesmo aconteceria com todos que fossem tentar sacar dinheiro de suas contas correntes, ou seja, crise de pânico geral e o sistema bancário desmoronaria, falência geral.

Buscando evitar tais situações de crise de liquidez (falta de dinheiro), ainda nos primórdios da criação dos sistemas bancários no mundo, estabeleceu-se que a autoridade reguladora do sistema (os bancos centrais, na modernidade) devem definir um percentual daquilo que é captado pelos bancos como depósito à vista (não só, atualmente) como uma garantia para os saques dos clientes. Esse percentual é mantido pelos bancos compulsoriamente, sem poder ser emprestado, e constitui a taxa percentual de reservas compulsórias ou depósito compulsório.

No exemplo acima, suponha que o banco central estabeleça o depósito compulsório em 20% dos depósitos à vista. Então, dos R$100,00 que a Maria depositou no banco A, este poderia emprestar apenas R$ 80,00, e assim sucessivamente. Quanto de moeda haveria em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$80,00 do João + R$64,00 do fulano + R$ 51,20 + R$40,86. + …

Ou, colocando os R$100,00 em evidência: R$100,00*(0,8 + 0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8*0,8 + …) o que levaria a um total de R$ 500,00 que seria, então, o total de moeda em circulação na economia (para quem não se lembra, a soma entre parênteses é a soma infinita de uma progressão geométrica e resulta em 5).

Resumindo: as captações à vista dos bancos comerciais precisam ter uma parcela mantida à parte do sistema de intermediação financeira para garantir a estabilidade do mesmo, frente às necessidades de saques destes recursos por parte dos depositantes; a compulsoriedade tornou-se óbvia a partir das explicações acima, espero! Essa possibilidade de multiplicar a moeda em circulação na economia por meio dos empréstimos a partir dos depósitos à vista é o que tradicionalmente se denomina “poder de criação de moeda dos bancos comerciais”, e o tal poder é medido pelo multiplicador monetário (no caso do exemplo, valor de 5 obtido na soma infinita) que é, como se pode notar, inversamente proporcional ao percentual de reservas compulsórias. Quanto maiores os depósitos compulsórios, menos recursos sobram para os bancos emprestarem, e menor é o poder de “multiplicação” da moeda por parte do sistema bancário. Por esse motivo, tal percentual é também um instrumento de política monetária. Como ele e a taxa de juros estão relacionados, trataremos num próximo post, porque este já ficou muito longo…

Medidas macroprudenciais e política monetária

 

Primeiro, vamos começar esclarecendo de que trata o tema deste post. Como os comunicados do Banco Central do Brasil (BCB) passaram recentemente a enfatizar medidas dessa natureza, dá a impressão de ser alguma inovação no campo da política monetária. Mas não é. Medidas ou ações macroprudenciais surgiram na literatura de regulação e supervisão bancária, na década de setenta e, não sem razão, tais termos ganharam importância nas discussões pós-crise de 2007-2008.

E por quê? Porque tratam exatamente de medidas para diminuir o risco sistêmico do setor bancário. Esse risco tem duas principais fontes: a primeira é a tendência a sobre-exposição a riscos que as instituições financeiras (assim como as empresas e os consumidores) apresentam no auge de um ciclo de crédito, seguida de uma excessiva aversão ao risco na fase de desaceleração (o que pode estar associado à crença de que uma instituição é muito importante para falir…); a outra importante fonte é o fato de que os bancos, individualmente, são incapazes de lidar com os efeitos de suas ações arriscadas sobre o sistema financeiro como um todo. As medidas macroprudenciais devem lidar com essas duas fontes de risco, por exemplo, elevando as exigências de requerimento de capital para operações de risco, como fez o nosso BCB no início do mês corrente, e, principalmente, centrado o foco na supervisão.

A literatura e a prática da política monetária tem resgatado esse tipo de medida em busca de  maior estabilidade e resiliência para o sistema financeiro, também chamando a atenção para os limites de tais medidas, que não podem, por si, fazer o ajuste fino do ciclo macroeconômico. Necessários também são: a operação dos instrumentos de política monetária, respondendo simetricamente às fases dos ciclos financeiros e de negócios; a política fiscal sustentável; assim como, de maneira vital, a cooperação internacional, sem a qual as ações de países individuais podem ser insignificantes no atual estágio de integração financeira mundial.

Como alerta, dada a recente ênfase da mídia sobre o tema e também sobre o discurso do futuro presidente do BCB, aproveito para destacar que medidas macroprudenciais não são a mesma coisa que operar instrumentos tradicionais de política monetária, como o depósito compulsório! Fazer política monetária por meio de depósito compulsório é apenas uma forma mais demorada e incerta (portanto, mais ineficiente) de alterar a taxa de juros, não se iludam com discursos enganosos que começam a exaltar “a libertação do BCB dos grilhões dos mercados financeiros”. Pura bobagem. Mas posso falar sobre isso num próximo post!

 


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