Em busca de inovações didáticas…

 

Já tratei desse tema algumas vezes: considero necessário buscar instrumentos didáticos alternativos, que possam contribuir para o processo de ensino-aprendizagem. Esse processo requer a participação ativa do estudante, assumindo sua parcela de responsabilidade em seu aprendizado, ao realizar as atividades propostas, inclusive propondo alternativas à tais atividades, ao estudar com assiduidade e ao participar ativamente da aula, compartilhando suas dúvidas e buscando avançar com o auxílio do professor.

Os estudantes de hoje não são como os de vinte anos atrás: hoje há muita informação disponível, tudo se encontra na internet, tudo é muito rápido e superficial. As aulas não têm esse ritmo, e é difícil despertar o interesse e manter a concentração desses estudantes no momento da aula, daí a necessidade de inovações didáticas.

Pois bem, este semestre tentei algo diferente: abri um espaço para a disciplina que leciono na graduação aqui no Blog, a página “Bola da Vez!!!”. Não foi idéia original, não… Muitos colegas fazem isso, principalmente em outros países, e li sobre essa inovação num livro que resenhei* com uma colega, dentre várias outras que pretendo ir colocando em prática ao longo dos próximos semestres.

Resultado do Blog como instrumento didático este semestre: FRACASSO TOTAL.

A adesão dos alunos da disciplina foi nula. Nenhuma manifestação. Nenhuma dúvida, comentário, nenhuma interação entre a classe via blog. Posso pensar em algumas explicações para isso:

1. Meu perfil de professora (austera e exigente) inibe os alunos. É verdade… pode ser uma boa explicação, mas também sou bem-humorada e gosto de dar aulas, e estou certa de que essas características também são percebidas pelos alunos.

2. A disciplina deste semestre não ajuda. Outra verdade, matemática aplicada à economia II não é a coisa mais estimulante para se escrever sobre num blog, tem muitas equações, contas, modelos… Ok, vou dar um desconto…

3. Os estudantes, em média, querem mais é continuar passivos e ouvintes, querem ter o mínimo de trabalho possível nesse tal desse processo aí de que falo tanto, essa coisa de ensino-aprendizagem… Que, para eles, parece estar mais para “aprender por osmose”, basta ir à aula, sentar, fingir que está prestando atenção, balançar a cabeça positivamente para a professora não insistir na pergunta e continuar a falar e pronto! Se e quando receber seu diploma, será um economista!! Mas… essa explicação pode ser verdade para alguns, e eu me recuso a acreditar que seja para a média (é bom manter uma certa dose de ingenuidade e fé na humanidade nessa profissão…)

4. A inovação blog não é eficiente. Pode ser, mas eu acho que apenas uma evidência empírica é pouco para refutar uma hipótese… Acredito que a tradição do uso seja importante, e vou continuar tentando nos próximos semestres.

É isso! O que você, aluno, colega ou leitor, acha? Sua opinião é sempre bem-vinda!


15 Respostas to “Em busca de inovações didáticas…”

  1. claudio Says:

    Você foi ao ponto ao dizer que aluno não quer, em média, aprender. É um fato triste, mas verdadeiro. Dê-lhes a bibliografia e eles insistirão em ler apenas slides (e olhe lá). Ainda vão reclamar de você. Não é apenas em matérias que envolvem cálculo. Experimente que leiam a Teoria Geral (ou, para ser mais estudioso, um simples “O Discurso do Método”). Aí o discurso é que não há tempo, etc.

    O blog surge como uma bela – mesmo – opção de mostrar ao aluno como pesquisar mas, acredite-me, ainda assim não é suficiente. Haverá aquele que insistirá que não tem tempo, que sua vida infeliz não o permite ser inteligente (ao mesmo tempo em que usa sua mesma caixa craniana para criar um novo emoticon no MSN…). Roseli, ao final, toda turma de alunos indubitavelmente tem apenas 5 que se interessam e metade que finge se interessar. A outra metade é uma interrogação.

    Há formas de tentar estimular alunos? Há, mas a lei proíbe seu uso (choques ou balas de fuzil não são recomendáveis, he he he). No final, talvez você só esteja mal-humorada com o resultado, mas o que falta mesmo, na minha opinião, é um pai e uma mãe que sejam sérios e que assumam que o filho não é um super-homem (mulher) e insistam para que estude. Pais que mostrem ao filho o valor do estudo e a lição básica de que não existe almoço grátis. Caso metade dos papais e mamães fizessem este dever de casa, uma boa parcela de alunos não só usaria blogs como algo útil em seu aprendizado como criariam seus próprios blogs.

    Eis uma pergunta para você: por que tantos americanos adolescentes têm excelentes blogs de economia, inteligentes e divertidos, enquanto que no Brasil blogs similares são tão escassos?

    Esta é a pergunta que talvez nos ajude a entender melhor o problema. Não, não tenho a resposta, mas tenho anos de experiência. Convivo e convivi com alunos que tentam me enganar e me elogiam na frente (e despejam insultos nas minhas costas), com alunos que tentam e não conseguem e assumem o custo (e os que não assumem), com os que são elogiados e se perdem no êxtase, com os que não são elogiados e perseveram, etc, etc. Não é diferente do resto da vida, mas é frustante que a maioria ainda puxe a média mais para baixo do que o contrário.

    Mas tenha esperança. Nem que seja para você se sentir apenas bem com você mesma. Ter esperança dá uma sensação de que vale a pena, mesmo quando não vale. A vida, ao final, é uma mistura de ciclos e tendências estocásticos.

    Ei, quem disse que eu iria te animar? ha ha ha.

    Abraços, grande amiga.

    Claudio, um sempre prolixo e auto-crítico amigo sem prentensões maiores e com um sonho único: ter em suas mãos uma jabuticaba do tamanho de uma bola de basquete (que goste de economia?).

  2. Liv´s Says:

    Adorei: “(é bom manter uma certa dose de ingenuidade e fé na humanidade nessa profissão…)”…

    Acho que o caminho é esse, do contrário, nada valerá a pena…

    bjo grande!

  3. Mario Abramo Says:

    Roseli,
    Embora não seja professor, venho acompanhando a questão do ensino de ciẽncias (deliberadamente em minúsculas) no ciclo médio com alguma profundidade. E vejo que o que mudou muito entre a minha geração, ou melhor, com meus colegas do Aplicação, e a atual é a relação com o conhecimento.
    Não é mais, como era pra mim, in illo tempore, uma relação prazeirosa. Uma coisa de descobrir sentido no universo, De enteder porquê colocar ou não vírgula em uma frase, e onde. E saber que regras existem também para serem violadas (como a vírgula antes do e), mas quando e em que casos.
    Voltando para o tema: Eu pensei em um exercício envolvendo a web. O exercício seria criar ou editar um tópico sério na Wikipedia. A avaliação não seria apenas do professor, e sim da comunidade toda, uma avaliação pública. Não sei se vc pode (ou tem interesse em) usar essa idéia.
    O wiki tem uma vantagem em relação ao wordpress: aceita automaticamente comandos em LaTeX, o que facilita muito escrever fórmulas. Ouvi falar q o WordPress também pode aceitar, mas é necessário implementar uma interface. Existe um editor online de fórmulas, mas a grande maioria dos blogs só aceita que se coloque as fórmulas como figuras.
    Desculpe esse pitaco meio desconstruído, mas tá sendo muito complicado digitar, tou com o dedo mindinho da mão esquerda meio zureta… 😦
    []s
    Mario

    • Roseli Silva Says:

      Mário,
      Obrigada pelos comentários. O exercício que vc sugere é muito interessante, eu vou tentar implementá-lo na próxima oportunidade. Como, vira-e-mexe, leciono disciplinas quantitativas, ter uma opção para lidar com fórmulas online é uma boa, eu não sabia que o wiki aceita LaTex! Quanto à relação prazerosa e subversiva com o conhecimento… minha percepção é semelhante a sua, isso se perdeu na geração atual… Melhoras para seu mindinho!
      Abs!

  4. VERA MARTINS DA SILVA Says:

    Roseli,

    Bem bacana a tua iniciativa…não desanime se os alunos não pularam de alegria e aderiram à inovação…continue tentando…

    Uma idéia/sugestão: promover uma premiação aos participantes de alguma atividade que vc pensou – e como aluno fé movido a notinhas, que tal dar uns pontos para premiar a participação em atividades inovativas ??

    Continue tentando…

    Vera Martins

  5. Anderson Portugal Says:

    Após passar a correria que está aqui prometo também colocar minha opinião como professor que fui por 5 anos e aluno que ainda estou sendo. 🙂
    Beijos,

  6. Mario Says:

    Prossora, só gostaria de dizer que, na minha opiniao, o fracasso deveu-se(óia que lindo) ao segundo motivo citado. A materia nao ajudou muito. Por vezes eu pensei em entrar no blog e deixar duvidas(de verdade…estudei mto pra segunda prova)mas é dificl ficar escrevendo duvidas de equaçoes, graficos, teias de aranha…eu naum consigo nem colocar um tezinho na frente do P…rsrs..De qualquer forma, parabenizo pela intenção prossora. Acredito que em macro teria ajudado muito.
    Abraço…

    PS: o nome do cara que deixou o terceiro comentario é muito bonito…

    • Mario Abramo Says:

      Xará,
      Marumeno. Poder-se-ia dizer (óia que mais lindo) que existe sim uma dificuldade de discutir matemática sem escrever equações nem desenhar gráficos de teia de aranha (aliás, só fiz isso pra seeds de conjoint analisys até hoje), mas Matemática não é só fórmula. Até o Excel faz análise de ANova, nem por isso vou dar diploma pra ele… 😉
      Acredito que ainda o uso dos sites como blogs e assemelhados pra discussões sérias tá no be-a-bá. Muita gente tem preconceitos e restrições quanto a isso. Numa avaliação de um projeto pedagógico que fiz, os professores foram quase unânimes em desprezar o conteúdo da web. Mais, em outro local, os alunos eram proibidos de contribuir para a página de Orkut da escola. Pelamordasminhasbarbasbrancas… e isso enquanto enchiam a boca pra falar de autonomia, responsabilidade e participação. Ok, enough
      Mas pra quem não vive sem fórmulas, tá aqui um editor online, que transforma, se necessário, código LaTeX em gif:
      http://a2mstats.blogspot.com/2010/04/equation-editor-for-ningcom.html
      Quando escrever fórmula for tão fácil quanto escrever emoticom, talvez as coisas mudem… 🙂
      []s
      Mario
      PS: concordo integralmente com seu PS

  7. Marcos Says:

    Professora,

    Concordo com o que o Mário falou. O principal motivo para tal “fracasso”, ao meu ver, é o de que a matéria realmente não é lá muito empolgante. Acho importante e tudo mais, mas não é algo que gere um maior interesse à maioria dos alunos.
    E quanto à parte “Os estudantes, em média, querem mais é continuar passivos e ouvintes..”, até concordo a afirmação, ainda mais em matérias em que sabemos que os professores são realmente muito exigentes! Mas acho que não se aplica a uma razão que justifique o fracasso de tal inovação didática. Acho que em matérias mais “empolgantes”, como Macroeconomia I e II, por exemplo, a participação da classe com dúvidas, opiniões e comentários é bem mais frequente e tal ferramenta obteria um sucesso até que considerável.

    Abraços.

  8. Mateus Says:

    Querida Roseli,
    Antes de tudo, devo avisar que não apresento aqui qualquer tipo de inovação didática. Porém, achei muito interessante a discussão que você levantou e me senti compelido a comentar sobre alguns pontos. Admito que eu sinta certo receio de cometer gafes ou erros ao me expressar livremente, pois não tenho tanto embasamento teórico e experiência de vida como você, minha professora. Contudo, na posição de aluno, posso apresentar um “outro lado da moeda” que, creio eu, possa vir a ser interessante.
    Primeiro, concordo que hoje em dia os alunos sejam diferentes. Porém, é importante ressaltar que, há vinte anos, o número de privilegiados que conseguiam qualquer tipo de ensino superior era muito menor. Para se chegar a essa posição, acredito que era necessária uma força de vontade própria muito maior, já que em muitas famílias o valor atribuído aos estudos era menor do que o é hoje. Então, só ingressavam em faculdades aqueles que realmente tinham interesse. Hoje isso nem sempre é verdade, mas também não é necessariamente ruim. Creio que, mesmo quando não há tanto interesse, é possível absorver algum tipo de conhecimento, o que será benéfico futuramente para a sociedade em geral, que aos poucos ganha mais senso crítico.
    Por outro lado, tudo isso dificulta o trabalho do professor, que acaba tendo que aturar os alunos desinteressados (conversas em aula, “choros” por nota etc.). Não conheço a solução para um problema de tal magnitude, mas acredito que ele deve levantar várias questões a vocês professores: devo cobrar a presença dos alunos nas aulas? Devo tirar aquele aluno chato da sala? Será que ele merece passar?
    Em relação a isso, devo dizer que nesse semestre tive uma experiência surpreendente. Em certa disciplina que cursei, verifiquei que, mesmo não se cobrando presença, a freqüência dos alunos às aulas foi alta. Além disso, eles pareciam realmente estar interessados, inclusive eu (claro), e apenas se desconcentravam em raríssimas ocasiões. O resultado final foi bom. O desempenho dos alunos foi bom e tenho certeza que muito conhecimento nos foi adicionado.
    Ressalto, porém, que essa foi uma exceção. Imagino que a ótima didática do professor, aliada à importância da disciplina para nossa formação, fez com que nosso interesse aumentasse.
    É necessário entender também que certas matérias são mais atraentes para alguns do que para outros. Afinal, somos todos diferentes, mesmo que todos nós estejamos cursando economia. Na verdade, são raros os alunos inteiramente desinteressados. Há sempre alguma disciplina em que nos engajamos mais. É isso que observo, felizmente, nos meus colegas de classe.
    Por fim, devo dizer que a influência de nossos pais em nossas vidas nem sempre tem o resultado desejado. A pressão deles para que se estude muitas vezes não é válida ou eficiente, ainda mais quando já não somos mais crianças. O que conta mesmo é uma vontade própria de se superar, por qualquer motivo que seja. Porém, não acho que esse tipo de força de vontade seja de fácil conquista.
    Enfim, atribuo nosso eventual desinteresse a tais fatos citados. Não vejo que sua experiência foi um fracasso total. Como você mesmo disse, acho que é válido testar a ferramenta em semestres futuros e em outras disciplinas.
    Agradeço muito a sua atenção e saiba que, mesmo que eu “sofra” um pouco para ser aprovado (se é que serei) em sua disciplina, fico feliz de ver que também aprendo muito.

  9. Cláudia Oshiro Says:

    Oi, Roseli.

    Acho ótimo que ainda existam professores esperançosos e preocupados com o aprendizado dos alunos. De fato, acho que tem muitos alunos que não estejam nem aí, mas não creio que seja a maioria. Dá um desconto pra gente! Hehehe…

    Acho que o modo como a faculdade permite o aluno ir empurrando o curso com a barriga tb é um problema, mas aí são uns outros quinhentos…

    Uma coisa que me disseram no curso de preparação pedagógica (pois é, a gente faz isso para ser PAE) e que eu achei interessante é que aluno é sempre aluno. Dificilmente um aluno reagirá da maneira como o professor imagina quando prepara a aula. Acho que o comportamento passivo e ouvinte está meio enraizado, infelizmente. Então, não é pra ficar decepcionada não. Acho mto válida a sua tentativa e tem que continuar tentando alternativas até dar resultado. Não pode perder a esperança nos alunos, mesmo que seja uma tarefa árdua.

    Quanto à inovação específica do curso de Matemática, acho que a ideia de dar nota pela participação pode ser uma boa. Com um bom incentivo não tem como os alunos (pelo menos boa parte deles) não se interessarem. E aquela coisa, né, não é possível atingir a todos, mas se conseguir despertar interesse em alguns já faz grande diferença.

    Não desanime! Parabéns pela iniciativa!!!

    Ah, pensei numa inovação didática para o curso de séries temporais, depois posso te contar? Na verdade não chega a ser uma inovação… hehehe… é uma ideia.

    Abraços

  10. Evandro Says:

    Talvez sua idéia de atrair seus alunos não tenha dado certo, mas atraiu estudantes de outras universidades, como eu. As vezes os objetivos trassados levam a resultados diferentes dos previsto, é uma falha, mas não é um fracasso total. Gosto muito de acompanhar e acesso pelo menos 2 vezes na semana e até adicionei o seu link em meu blog.

    Espero que um dia seus alunos valorizem como deveriam. Como já comentado, a criação de um incentivo pode ajudá-la a prender a atenção deles.

    Abraços e bom trabalho!


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