ENEF: informar ou formar?

 

A Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef) é uma iniciativa de um conjunto de instituições públicas e privadas dos mercados financeiros, com apoio do Ministério da Educação e Cultura (MEC), que desenvolve um projeto de Educação Financeira na Escola com objetivo de introduzir o tema a 450 escolas de São Paulo, Rio de Janeiro, Tocantins, Ceará e Distrito Federal, abrangendo um universo de mais de 18 mil estudantes.

A última edição (Edição No. 8, 2010) da Revista Nova Bolsa traz uma matéria sobre o assunto, da jornalista Silvia Penteado, para a qual eu contribuí com uma entrevista por e-mail e que aparece citada na p. 41 da referida revista. No momento de concessão daquela entrevista, eu não tinha conhecimento sobre o material didático desenvolvido e chamei a atenção exatamente para esse ponto: a necessidade de se desenvolver uma metodologia de ensino inovadora e eficiente.

Atualmente, tenho um exemplar do primeiro módulo do material desenvolvido para o projeto e o analisarei em breve, por isso ainda me faço a pergunta do título deste post (postarei comentários sobre). Paralelamente, sigo com minhas pesquisas sobre metodologia de ensino de economia e o uso de experimentos e simulações para torná-lo mais efetivo para jovens da era da internet (sobre o assunto, veja os postsEconomia no Ensino Médio” e  “Ensinando Economia por meio de jogos em sala de aula” )

Reproduzo, na íntegra, a entrevista concedida:

SP 1). Gostaria de saber o que vc acha dessa iniciativa do governo, a Estratégia Nacional de Educação Financeira?

R. Acho a iniciativa louvável e em sintonia com o tratamento do tema nos países europeus que se intensificou recentemente. O conhecimento básico de economia, acredito, deve fazer parte da cultura geral de cidadãos bem-informados, contribuindo para capacitá-los a tomar decisões mais apropriadas no seu dia-a-dia, em relação às suas compras diárias, à alocação do seu tempo e de sua renda, ou mesmo em relação às escolhas de seus representantes políticos, que sempre apresentam plataformas sobre o quê, quanto e como gastar do orçamento público. Toda decisão que envolve benefícios e custos é, por natureza, uma decisão econômica. Considero que a difusão de tal conhecimento possa ser realizada por meio da introdução do tema no ensino médio, uma vez que o ensino superior, a depender da carreira escolhida, não necessariamente colocará o estudante/cidadão em contato com o assunto economia/finanças.

SP 2) Esse projeto pode trazer alguma contribuição efetiva para a melhoria do ensino? Pode, por exemplo, contribuir para melhorar os índices de aprendizagem que têm se mostrado tão baixos? Você acha que um ensino mais em cima do dia a dia pode interessar mais o aluno do que apenas teoria?

Pessoalmente, acredito que possibilitar aos estudantes um contato com temas de economia e finanças, que estão na mídia e na sua vida cotidiana, pode trazer ganhos em termos de aprendizagem mesmo para outras áreas, uma vez que lidar com tais assuntos pode levá-los a desenvolver raciocínios lógicos abstratos que exigem não só a compreensão textual dos problemas, mas também ao uso efetivo da lógica e dos instrumentos da matemática. Mas tudo isso depende, claro, da metodologia didática utilizada. E este é meu principal ponto em relação à iniciativa do ENEF – eu não conheço o material didático que foi desenvolvido e será aplicado no projeto-piloto no semestre que vem, em centenas de escolas públicas. Suponho que tenha sido desenvolvido para se integrar ao conteúdo curricular, uma vez que a estrutura do ensino médio brasileiro é bastante rígida e sobrecarregada em termos de carga horária em comparação com o modelo americano, por exemplo (o que não garante, obviamente, que tenhamos resultados relevantes em termos de qualidade do ensino). O que não pode acontecer é esperar que o processo de ensino-aprendizagem de temas de economia e finanças possa ser alcançado de forma efetiva sem um instrumento didático adequado. Nesse sentido, eu tenho desenvolvido projeto de extensão universitária que tem como objetivo utilizar jogos e simulações, derivados dos avanços nas últimas décadas da área de economia experimental, como instrumento didático.

SP 3) Você tem uma experiência com o ensino de educação financeira. Conte um pouco de como e por que essa idéia surgiu, como foi desenvolvido o projeto e como será testado.

Ao longo do ano de 2009, desenvolvi um Projeto de Extensão financiado pelo Fundo de Cultura e Extensão da USP, em parceria com minha colega de departamento, Profa. Natália Batista, com o objetivo de introduzir conceitos iniciais de economia por meio de uma metodologia inovadora a um público importante e normalmente sem acesso a tal conhecimento, os alunos do ensino médio de 10 escolas públicas de Ribeirão Preto, cerca de 300 alunos participaram da atividade.

A escolha do público alvo deveu-se à percepção de que temas econômicos e financeiros vêm se inserindo cada vez mais cedo na vida dos jovens, e que para os alunos da rede pública de ensino a disponibilização destas informações talvez não ocorra de maneira espontânea. Devido às características deste público, a transmissão das noções básicas de economia foi realizada por meio da implementação de jogos em que a fixação do conceito decorre da participação do aluno em um jogo (experimento) realizado em sala de aula. Nesta situação, os alunos atuam como agentes que tomam decisões em ambientes o mais próximo possível daquele encontrado na sua vida prática, facilitando a compreensão abrangente e profunda por parte do aluno. A inovação do nosso projeto em relação às iniciativas que também se direcionam ao publico leigo está, então, na metodologia didática.

O jogo (ou experimento) proposto naquele projeto e aplicado às turmas de ensino médio visitadas trata de um aspecto fundamental para compreensão do funcionamento dos mercados financeiros, dentre outros mercados, o modelo de oferta e demanda em mercados competitivos. O objetivo é que os alunos descubram o modelo de oferta e demanda por si próprios e possam perceber que um grande número de participantes não é necessário para obter resultados eficientes e competitivos, como propõe a teoria econômica. Um experimento de mercado pode ser usado para ilustrar uma variedade de outros fatores como, por exemplo, os efeitos do controle de preços e alterações na oferta e demanda sobre a formação do preço de mercado.

Como resultado direto da aplicação deste projeto, os quase 300 estudantes de ensino médio de escolas públicas de Ribeirão Preto adquiriram capacidades cognitivas referentes a temas econômicos, particularmente o funcionamento do mercado e domínio dos fatores relevantes ao processo de alocação de recursos, envolvidos tanto nas decisões de consumo quanto nas de produção.

Acredito que experimentos eficientes são capazes de induzir a aprendizagem em um nível mais profundo, em que se pode, a partir dos resultados, apontar a utilidade da abstração apresentada na teoria econômica. É possível projetar e colocar em prática experiências pedagógicas eficientes com apoios simples, sem a necessidade de computadores ou laboratórios próprios, e que são facilmente reproduzíveis em sala de aula – o melhor uso dos experimentos, jogos ou simulações, é o de ilustrar concretamente importantes idéias fundamentais que requerem uma profunda compreensão ou conceitos teóricos abstratos. Há vários tipos de experimentos que podem facilmente ser desenvolvidos nas salas de aula: decisões individuais, leilões e negociações estratégicas, mercados competitivos ou monopolistas, decisão de poupar e de como investir a poupanças entre os ativos financeiros disponíveis, determinação do produto e do emprego na macroeconomia, relação entre taxa de juros e inflação, entre moeda e inflação, etc… disponíveis em geral nas seguintes fontes: Journal of Economic Education, Economic Inquiry, Journal of Economic Perspectives e Classroom Expernomics.

Atualmente, desenvolvemos um projeto em parceria com colegas da Universidade Mackenzie para visitar pelo menos 40 escolas, entre públicas e privadas, na cidade de São Paulo, e introduzir, por meio de jogos e simulações, noções não só de equilíbrio de mercado, mas também de processo eleitoral e decisão de votar (muito pertinente em ano eleitoral), de como as pessoas, firmas e governo interagem em diferentes mercados através da troca de bens e serviços (macroeconomia) e de como o banco central utiliza diferentes ferramentas de política monetária para ajustar a taxa de juros e seus efeitos sobre o produto e inflação.



2 Respostas to “ENEF: informar ou formar?”

  1. lifega Says:

    Muito boa, a entrevista. Pena que, na edição, aspectos importantes do que vc disse não foram contemplados. Que bom que vc publicou a íntegra aqui! Parabéns!

    Lígia


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