Mulher – nem melhor, nem pior: diferente

 

Mulheres, homens, guerra dos sexos, desigualdades de gênero, sexo forte, sexo frágil, e afins… Assuntos que nunca me interessaram até certo momento da minha vida. Achava eu, na inocência que se permite à juventude, que não seria o fato de ser mulher ou homem que faria diferença na minha vida profissional, em minha atuação na sociedade – bastaria o mérito, a eficiência, a capacidade para esta ou aquela atividade e pronto! Só dependeria de mim!

 

Claro, essa ilusão não durou muito (talvez tenha durado mais do que deveria)… aos poucos e a duras penas, aprendi que recorrentemente precisaria comprovar muito mais qualificação para alcançar o respeito e o reconhecimento que é quase natural à média dos homens, em termos profissionais e sociais. E aprendi que teria de aceitar salários menores e dificuldades específicas no acesso a cargos mais elevados, à progressão na carreira, por ser mulher. Na academia científica não é diferente: reproduzem-se as discriminações de gênero (não só, infelizmente) que se encontram na sociedade. E isso cansa, exige energia e atenção contínuas.

 

Sem pretensão alguma de discutir o assunto do ponto de vista neurológico, psicológico ou mesmo social, aqui registro apenas minhas impressões. Como mulher, reconheço diferenças de gênero. Minha percepção do mundo é a feminina, minha lógica de apreensão dos fatos e de respostas a eles, minha forma de dialogar, discutir e buscar soluções comuns me parecem diferentes da masculina. Nem melhor, nem pior: diferente, não desigual.

 

Abomino desigualdades de toda sorte. Discriminar é tratar como desigual.

 

Assim, a eleição da primeira mulher para o cargo mais importante da nação lança uma luz no fim do túnel, planta uma semente de esperança para as gerações futuras de brasileiras: “Sim, a mulher pode!”

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Macroeconomia Moderna – convergência metodológica

 

A propósito do tema trazido hoje por jornal de grande circulação e reportado em portais e blogs, em artigo do Professor Delfim Netto sobre a macroeconomia moderna, acredito que posso dar alguma contribuição: meu projeto de pos-doutoramento, a ser desenvolvido no próximo ano (se tudo continuar caminhando bem!), trata exatamente do tema.

Recentemente, proeminentes pesquisadores da área de macroeconomia têm debatido o tema de que tenhamos um novo consenso em relação à análise de flutuações econômicas e aos impactos da política econômica sobre tais flutuações, política monetária, principalmente. Muitos macroeconomistas atualmente concordam com a existência de uma convergência nos seguintes aspectos: os efeitos da política monetária sobre a demanda agregada sob diversos tipos de rigidez nominal produz flutuações do produto no curto prazo; a crença de que haja ondas de progresso tecnológico que determinam o produto no médio e no longo prazos (efeitos dos choques tecnológicos, captados por meio dos modelos de crescimento econômico);  e a crença de que percepções sobre o futuro afetam a demanda agregada hoje. Os modelos novo-keynesianos sintetizam essa convergência de visão.

Do ponto de vista metodológico, Spanos* apresenta os caminhos dos desenvolvimentos recentes: um que enfatiza o uso dos dados e a análise da dinâmica das flutuações econômicas por meio dos efeitos de choques estruturais, buscando coerência empírica; e outro que privilegia a fundamentação teórica, por meio de modelos idealizados simples, que capturam as características-chave de fenômenos econômicos de interesse, usados para a análise de políticas econômicas alternativas e efeitos sobre o bem-estar.

O enfoque que busca coerência empírica está associado aos desenvolvimentos da metodologia “geral-para-específico” em Autorregressão Vetorial Cointegrada (Cointegrated Vector Autoregression, CVAR), principalmente desenvolvida na Europa, com raízes na London School of Economics, e pode ser compreendida como uma busca por equilíbrio entre a teoria e os dados, evitando os extremos. A segunda, identificada como sendo a perspectiva dos Estados Unidos, pode ser bem descrita, ainda segundo SPANOS (2009), como o ponto de vista da preeminência da teoria (Pre-Eminence of Theory, PET) e tem se consolidado nos modelos de equilíbrio geral estocásticos dinâmicos (Dynamic Stochastic General Equilibrium, DSGE) – que têm como objeto principal explicar fenômenos econômicos agregados, baseando-se em uma estrutura microfundamentada a partir de processos de otimização do comportamento dos agentes (firmas, famílias e governo) sujeitos a restrições orçamentária e tecnológica, expectativas racionais e especificações de imperfeições de mercado.

Apenas para dar o tom da minha perspectiva sobre o tema, concluo: restam muitas questões em aberto e que necessitam ser exploradas, tanto em relação à adequação de modelos teóricos do tipo DSGE às características próprias de economias emergentes, quanto à aderência empírica de tais modelos – que, afinal, se não nos ajudam a compreender as regularidades observadas, podem ser um meio pouco útil de análise de política econômica, e monetária especificamente.

 

* Spanos, A “The Pre-Eminence of Theory versus the European CVAR Perspective in Macroeconometric Modeling”. Economics: The Open-Access, Open-Assessment E-Journal, Vol. 3, 2009.


Professores… Professores??? Ah… Professores!!!

 

Nada a declarar.

 


Ainda o tema da sustentabilidade fiscal

 

Num artigo acadêmico a ser publicado em breve, em co-autoria com um colega, avaliamos a sustentabilidade da política fiscal brasileira, utilizando uma restrição orçamentária intertemporal para o setor público, que significa que a cointegração entre gasto fiscal e arrecadação fiscal é uma condição suficiente para um comportamento sustentável, dada a estacionariedade da taxa real de juros. Utilizamos séries temporais longas e que incluem períodos mais recentes que estudos anteriores (julho de 1986 a dezembro de 2006), o que permite avaliar os efeitos dos ajustes fiscais realizados principalmente a partir de 1998, bem como o comportamento mais recente de elevação dos gastos públicos.

A sustentabilidade intertemporal da política fiscal, ou do endividamento público, é fundamental para a estabilidade macroeconômica e, dessa forma, o tema é recorrente e requer reavaliações empíricas ao longo do tempo.

O trabalho referido oferece evidências de que as séries de gasto total e arrecadação total cointegram, o que implica que a política fiscal brasileira foi sustentável durante o período compreendido entre julho de 1986 e dezembro de 2006, com avaliação de possíveis quebras estruturais inclusive. Em outras palavras, durante esse período, o governo brasileiro obedeceu a uma restrição orçamentária intertemporal, igualando o estoque da dívida pública existente ao valor presente dos superávits futuros esperados.

Esse resultado confirma a grande maioria da evidência empírica disponível para o caso brasileiro. Mais importante, resgata-se a relevância da senhoriagem como fonte adicional de receita para o atendimento da restrição orçamentária intertemporal do governo. De fato, mostramos que, no caso do modelo empírico que não inclui a senhoriagem como fonte de arrecadação, durante o período analisado, a cointegração entre receitas e despesas públicas existe, porém os parâmetros do vetor de cointegração não atendem às condições de sustentabilidade fraca ou forte. Isto significa, especificamente, que a senhoriagem é fonte de receita essencial para a o alcance da sustentabilidade no período.

Tal resultado poderia ser um reflexo do comportamento recente, após 2002, de crescentes gastos públicos e evidencia que, do ponto de vista intertemporal, os recentes esforços de estabilização fiscal ainda não são suficientes para que se reconheça, por meio dos dados fiscais, um comportamento sustentável no longo prazo por parte do governo brasileiro.

Em síntese, reafirmam-se os resultados dos trabalhos realizados anteriormente, para o caso brasileiro, que não utilizaram observações posteriores a 2000, ano em que foi promulgada a Lei de Responsabilidade Fiscal e foi assinado o último contrato de reestruturação de dívida estadual. Portanto, não é estranho concluir que a senhoriagem, durante grande parte do período anterior a 2000, fazia o papel do ajuste fiscal ao garantir o cumprimento da restrição orçamentária intertemporal do governo brasileiro.

Sim, esse ainda é um ponto frágil da estabilidade macroeconômica brasileira, que mereceria destaque no debate entre os candidatos desse segundo turno.

 

 

O Valor do Voto

Em meio a um “setembro negro” e decisivo pessoalmente, venho tentando escrever aqui sobre as atuais eleições. Ao mesmo tempo, questionava-me se seria necessário “mais uma análise” sobre o assunto, ainda que eu pretendesse discutir questões mais técnicas, que me vêm de algum conhecimento sobre teoria de escolha pública e correlatos. Enfim, o tempo passou, a análise não veio e, sim, eu acho que ela teria sido totalmente dispensável… Há especialistas demais e eu pouco ou nada teria a contribuir para minorar a avalanche de intolerância, radicalismo, má-fé e afins que se tornou marca da mídia quase completamente nessas eleições. No lugar dela, preferi falar neste momento pré-eleição, como alguém que sempre soube, desde a mais tenra idade, que apenas a educação pode propiciar igualdade de oportunidades ou diminuir as desigualdades delas. Esse “saber” nem eu mesma sei explicar de onde, talvez de uma fina intuição, de uma percepção aguçada do entorno e de querer, a partir daí, romper aquilo que parecia, com uma brutalidade tamanha, fazer questão de grudar meus horizontes a um palmo do meu nariz. E ali, naqueles horizontes restritos, a educação, o conhecimento, e só ele, seria a via de libertação – eu sabia. Cada livro, dos poucos que me chegavam então, abria mais uma porta, acendia mais uma luz, e assim foi, e assim é, ainda hoje. E assim, também bem cedo, decidi que meu voto, em qualquer eleição, seria sempre em favor da diminuição das desigualdades sociais pelas vias democráticas. Eu quero crer que, depois de superar a miséria material, estado deplorável de condição humana, o próximo passo da demanda social será por mais e melhor educação, em todos os níveis. E aí, sim, estaremos rumando para o desenvolvimento socio-econômico. Sim, isso ainda demora décadas, eu não vou viver para ver, infelizmente, mas fico feliz com a possibilidade de que estejamos caminhando nesse sentido. É isso. Esse é o valor do meu voto. Cada um que tenha o seu, e que respeitemos as diferenças! Boa eleição a todos!

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