Expectativas como elemento-chave (Clube de Leitura II)


Seguimos com nossas atividades no Clube de Leitura e na reunião passada, em que tratamos do Livro Segundo da Teoria Geral, o grande aprendizado foi, sem dúvida, sobre as primeiras elucidações a respeito do papel das expectativas na determinação do produto e da renda, via principalmente seu componente investimento produtivo.

Nos capítulos tratados, importantes definições foram elucidadas e os princípios da formação da contabilidade social, definidos. Nas palavras do próprio Keynes:

 

“As três perplexidades que mais dificultaram meu progresso na elaboração deste livro e impediram que me expressasse convenientemente até encontrar alguma solução para elas foram: em primeiro lugar, a escolha das unidades quantitativas adequadas aos problemas do sistema econômico em seu conjunto; em segundo, o papel representado pelas expectativas na análise econômica; e, em terceiro, a definição da renda.” (TG, início do capítulo 4)

Concordamos que tais definições tenham sido inovadoras e complexas para o momento em que estavam sendo propostas, mas nós, formados na tradição keynesiana, tiramos de letra! De qualquer forma, é sempre muito interessante entender como conceitos e definições naturais para nós, hoje, foram desenvolvidos e consolidados, estudando o raciocínio e os argumentos a partir da genialidade de seu formulador.

O papel das expectativas é revelado, ainda que de maneira preliminar, como sendo o elemento principal na interligação entre o presente e o futuro, como parte da decisão de investir:

“Toda produção se destina, em última análise, a satisfazer o consumidor. Normalmente decorre algum tempo — às vezes bastante — entre o momento em que o produtor assume os custos (tendo em vista o consumidor) e o da compra da produção pelo consumidor final. Enquanto isso, o empresário (aplicando-se esta designação tanto ao produtor quanto ao investidor) tem de fazer as melhores previsões que lhe são possíveis sobre o que os consumidores estarão dispostos a pagar-lhe quando, após um lapso de tempo que pode ser considerável, estiver em condições de os satisfazer (direta ou indiretamente); e não lhe resta outra alternativa senão guiar-se por estas previsões, se sua produção tem de ser realizada, de qualquer forma, por processos que requerem tempo.” (TG, início do capítulo 5)

É muito bonito o processo de descoberta da análise dinâmica que permeia a base de fundamentação da macroeconomia e que perdemos quando nos detemos apenas nos livros-texto básicos!

Sigamos para o livro terceiro! Boa leitura!


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Dicas para se preparar para provas


Estas dicas são especialmente para os meu alunos de Matemática Aplicada II, e se estendem ao estudo de conteúdos quantitativos e aplicados à economia, naturalmente.

Em primeiro lugar, identifique o assunto, o que é que você está estudando? Como esse assunto se relaciona com o que você já estou na área? O que tem de novidade? Quando você responde a essas perguntas você está construindo conexões em sua memória que facilitam a compreensão e o aprendizado efetivo, sem “decorebas”!!

Identificar o que é novo é importante para definir um foco claro e estudar de maneira eficiente. Confie no que você já sabe, não pense que será necessário estudar novamente todo o conteúdo anterior (desde limites e derivadas de função de uma variável, no nosso caso!!), apenas revisando aqueles pontos diretamente conectados ao que tem de novidade no estudo atual, se for necessário.

A partir da identificação do assunto em termos mais gerais, identifique os casos e as variações específicas. Para cada caso, esteja certo de que você sabe identificar a técnica de tratamento e/ou de solução adequados. Isso vai te poupar muito tempo no momento da prova, pois você diminui as chances de se atrapalhar tentando aplicar uma técnica de solução que não se aplica ao caso ou a um problema para o qual não há solução fechada (tais como boa parte das equações diferenciais não-lineares…)

Cumpridas as duas primeiras etapas, estude as técnicas de solução para cada caso. Aqui, cada estudante tem sua maneira própria – alguns gostam de resumir o conteúdo teórico, outros de apenas lê-lo, outros ainda preferem fazer esquemas lógicos mais visuais, etc. O importante é observar a regra geral: matemática (ou conteúdos quantitativos em geral) requer a prática, o treino, a resolução completa de exercícios, várias vezes. Apenas olhar, ler e achar que sabe fazer quando precisar não resolve em termos de um aprendizado efetivo, para a média dos estudantes – o treino é fundamental para a maioria de nós.

Depois dessas etapas de estudo, por se tratar de uma disciplina aplicada, é necessário associar as novas ferramentas e técnicas de solução ao conteúdo de Economia: identifique claramente as aplicações possíveis de serem realizadas para o seu nível de formação. Cheque se compreende o problema econômico envolvido e como o uso das novas ferramentas quantitativas melhora a sua compreensão sobre o assunto.

Se você estiver seguro de que compreende o básico, dedique um pouco do tempo e esforços intelectuais para pensar em outras variações possíveis, em extensões dos modelos ou formas diferentes de tratar o mesmo problema econômico, a partir do seu novo conhecimento quantitativo.  Afinal, você será um economista em breve!

E, o mais importante, estude com alegria! Com genuína vontade de aprender e de iluminar a escuridão da ignorância que nos acomete a todos nós, continuamente.

Bom estudo!

Belo compêndio das crises financeiras


Fui convidada a dar uma palestra para estudantes vestibulandos sobre crises financeiras e aproveitei a oportunidade para terminar a leitura de um livro bastante interessante, do qual pude aproveitar muitas informações e dados para a palestra. A obra referida intitula-se  “Oito séculos de delírios financeiros: desta vez é diferente” de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, ambos pesquisadores de primeira linha e com experiência prática, publicado este ano pela Elsevier. Um belo compêndio das crises financeiras, muito bem documentado por dados históricos e com o rigor necessário para uma obra de divulgação científica. Não precisa ser economista para ler, basta gostar do assunto e de leitura de tabelas e gráficos, que muitas vezes são deixados a falarem por si sós, como os próprios autores alertam.

Dois trechos que reporto resumem bem o que os leitores encontrarão:

“Se há um tema comum na ampla gama de crises que consideramos nesse livro, é a realidade de que acumulação de dívidas excessivas, por governos, bancos, empresas ou consumidores, em geral impõe riscos sistêmicos mais sérios do que se pensa durante os ciclos de prosperidade”

“Já vimos tudo isso antes. Os instrumentos de ganhos e perdas financeiras têm variado ao longo dos séculos, assim como os tipos de instituições, que muito se expandiram, apenas para ampliar a magnitude dos fracassos. Porém, as crises financeiras, no transcurso das eras, seguem um ritmo de prosperidade e recessão. Países, instituições e instrumentos financeiros podem mudar com o passar do tempo, mas a natureza humana continua a mesma.”

A tônica do livro é esta: busca desmistificar a síndrome do “dessa vez é diferente” que acomete a quase todos a cada nova crise financeira. Para isso, mostram recorrências que antecedem as crises inflacionárias e cambiais; as de inadimplência de dívidas soberanas; e as crises bancárias, associadas em geral a bolhas nos mercados de ativos reais (como o imobiliário, que antecedeu a última grande crise bancária de 2007-2008, que os autores denominam de Segunda Grande Contração – a primeira, é a crise de 1929). Finalizam o livro com a proposta de um conjunto de indicadores que poderiam auxiliar na compreensão de movimentos potenciais geradores de crises financeiras.

Recomendo a leitura!


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