Economia no Ensino Médio

O conhecimento básico de economia, acredito, deve fazer parte da cultura geral de cidadãos bem-informados, contribuindo para capacitá-los a tomar decisões mais apropriadas no seu dia-a-dia, em relação às suas compras diárias, à alocação do seu tempo e de sua renda, ou mesmo em relação às escolhas de seus representantes políticos, que sempre apresentam plataformas sobre o quê, quanto e como gastar do orçamento público. Toda decisão que envolve benefícios e custos é, por natureza, uma decisão econômica.

Introduzir uma disciplina de educação econômica no ensino médio pode ser um começo para que a difusão da cultura econômica comece a se tornar uma realidade, agora que nós brasileiros já podemos nos preocupar com outras questões econômicas além da inflação. Isso também não é novidade em outros países: nos EUA os jovens podem escolher linhas de formação no ensino médio que contemplam disciplinas de economia básica; na Espanha há até uma Olimpíada Nacional de Economia para estudantes de ensino médio, que têm disciplinas dessa área no currículo obrigatório.

Ao longo do ano passado, realizamos, eu e uma colega de Departamento, um projeto de Extensão em que visitamos 10 escolas públicas de ensino médio, com apoio do Fundo de Extensão e Cultura da Universidade de São Paulo, buscando aproximar os jovens da economia e vice-versa. A aproximação da economia aos jovens se deu por meio da escolha do método didático: introduzimos conceitos fundamentais de oferta, demanda e equilíbrio de mercado a partir da aplicação de um jogo de leilão duplo, em que o conhecimento conceitual se constrói a partir dos resultados do jogo.

Veja um exemplo: numa das escolas, tínhamos 16 compradores, com cartas vermelhas com a seguinte distribuição {10, 10, 10, 9, 9, 9, 8, 8, 8, 7, 7, 6, 6, 5, 5, 4}, e 16 vendedores, cujas cartas pretas estavam distribuídas como {2, 2, 2, 3, 3, 3, 4, 4, 4, 5, 5, 6, 6, 7, 7, 8}, informações não conhecidas pelos jogadores no início de jogo, obviamente.  Após a leitura das instruções as cartas eram distribuídas para que a primeira rodada fosse realizada, em que 14 negócios foram fechados. O gráfico mostra os preços fechados a cada rodada, e é facilmente observado que na primeira rodada os preços negociados têm uma amplitude elevada, do mínimo de 3 ao máximo de 8. Ao longo das rodadas, enquanto cada aluno almejava seu auto-interesse (maximizar seus ganhos), buscando fechar o melhor negócio no mercado, naturalmente os preços negociados começavam a convergir para um valor em torno do equilíbrio teórico, o valor 6 – na última rodada, dos 12 negócios fechados, 9 marcaram em seis. Ao longo das negociações, os participantes iam sendo informados dos preços que estavam sendo fechados, o que mimetizava o papel da informação perfeita nos mercados concorrenciais.

Enquanto as rodadas estão ocorrendo, cada participante, de posse dessa informação e sabendo o número que está em sua carta, que para o comprador, representa a sua disposição máxima a pagar pelo bem, e para o vendedor, o custo para produzir, e, portanto, o preço mínimo que poderia vender, vai ao mercado em busca de obter o maior ganho, que será premiado ao final do experimento (no caso, os prêmios eram caixas de bombons, uma para o comprador e outra para o vendedor de maiores ganhos). Depois que as oito divertidas rodadas aconteciam, a primeira informação que sistematizamos e começamos a discutir são os preços negociados, fazendo em lousa o gráfico de dispersão de preços ao longo das rodadas:

É a partir dos resultados concretos, produzidos pela participação entusiasmada dos estudantes, que eles aprendem – isto é um exemplo de uma metodologia de aprendizagem ativa, que, acredito seja adequada para ensinar economia, não só no ensino médio, mas principalmente nele, motivando os alunos a descobrir os conceitos fundamentais, em vez da velha estratégia do “cuspe e giz”.

Veja também o postEnsinando Economia por meio de jogos em sala de aula“.

8 Respostas to “Economia no Ensino Médio”

  1. Liv's Says:

    Muito interessante! Pelo gráfico dá para ver precisamente a dispersão e depois o equilíbrio dos preços!
    Nossa, maravilha! Tomara que introduzam essa disciplina nas escolas mesmo! Seria a socialização da Economia, revelando às pessoas como usar seu dinheiro conscientemente e possibilitando o entendimento do mundo enigmático das finanças. Economia para todos!

  2. Paulo Says:

    Realmente este experimento é muito interessante,pois demontra a racionalidade dos agentes dado a internalização da informação.Sobre economia no ensino médio, principalmente público, e como conhecedor deste meio, ja que o frequentei, garanto que as necessidades em outras matérias, como matemática,ainda são maiores e de maior relevancia para tais estudantes.
    Creio que futuramente esta disciplina deverá sim ser colocada aos estudantes,porém quando estes estiverem mais preparados.
    Sobre a estratégia “cuspe e giz”, concordo que é arcaica e que deve ser complementada e aproveito o espaço para pedir tais complementos em disciplinas como econometria onde sobra “cuspe e giz” e falta algo mais prático.

  3. Raphael Frazão Says:

    Uma nova restruturação no ensino médio é indiscutivel! Um novo currículo atualizado e antenado com as necessidades reais dos estutandes se faz necessário. Trazer para os estudantes diciplinas mais ligadas ao dia-a-dia e as necessidades do mercado serão inovações importantes para o futuro do pais; com certeza a economia será uma delas. Mas o ensino nacional ainda precisa passar por reformas mais básicas: como formar professores mais capassitados, estrutura escolar mais adequada, como laborátorios e bibliotecas modernas.
    Fica aqui meio anseio pela conscientização dos governantes e ,principalmente, da sociedade da necessitade readequar o currículo escolar.

  4. Mario Americo Says:

    Genial o experimento professora. Seria muito legal ter participado de alguma coisa do tipo no meu ensino médio. Como seria bom(até demais pra ser verdade) que fosse ensinado o básico de economia nas escolas. Uma coisa que faz parte do nosso cotidiano não deveria ser exclusividade de poucos.

  5. Kula Machado Says:

    impressionante a aplicação da economia de forma que os alunos de verdade experimentem e vejam o que de fato ocorre na prática com a economia. leciono no ensino médio num curso profissionalizante que tem como disciplina Economia. Tenho, confesso, muita dificuldade em achar formas criativas como esta de mostrar-lhes a matéria de um jeito mais próximo da realidade dos alunos. Adoraria receber info’rmações sobre material, livros, ou artigos voltados ao assunto. Obrigado, e parabéns pela iniciativa do Blog.

  6. ENEF: informar ou formar? « Random Walk Says:

    […] para torná-lo mais efetivo para jovens da era da internet (sobre o assunto, veja os posts “Economia no Ensino Médio” e  ”Ensinando Economia por meio de jogos em sala de aula” […]

  7. Willane Says:

    Olá professora… sou aluna da UFT e estou pensando em fazer um projeto de extensão nesta area, para ensinar economia básica para os alunos de ensino médio. Este projeto tem duas intenções, queremos que os alunos entendam sobre demanda, oferta, preços, mercados, bolsa de valores, e queremos também atrair os olhos para os vestibulandos a fim de aumentar a concorrencia do nosso vestibular. Como contra-partida teremos os graduandos em sala de aula, envolvidos com extensão e a prática do ensino.
    Vi neste post que vc elaborou um projeto de extensão parecido com o que desejamos… gostaria de saber se poderia me enviar cópia deste projeto para que nos embasemos nele, ou usemos como exemplo.

    Atenciosamente,
    Willane Queiroz.

    • Roseli Silva Says:

      Oi, Willane

      Tenho um artigo publicado na revista de Cultura e Extensão da USP sobre esse projeto, que está disponível online. Nele, explicamos o projeto e os resultados obtidos (http://www.usp.br/prc/revistausp4.pdf)
      Caso queira mais detalhes do experimento, a referência principal é essa: HOLT, C. A. Classroom Games: Trading in a Pit Market. Journal of Economic Perspectives. 1996, v. 10, n. 1, p. 193-203.

      Boa sorte!

      Profa. Roseli


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