A auto-ajuda da especulação

 

Será que se pode ensinar a “atividade de especulação”?

Dezenas, diria até centenas, de livros que eu costumo chamar de “literatura de auto-ajuda da especulação” prometem ter a chave para tal aprendizagem, prometem contar os “segredos para se ficar rico operando nos mercados financeiros”. Alguns deles são verdadeiros best-sellers no mercado editorial e devem, sim, ter rendido uma boa soma para os bolsos de seus escritores…  mas duvido que tenham levado alguém  à enriquecer, apenas com base em seus receituários.

 “Os Axiomas de Zurique” é um desses famosos livros, escrito em meados da década de oitenta e que estava em sua 22a. edição em 2008. O exemplar que li, entremeado por várias outras leituras noturnas, realizadas naquele momento pré-sono (momentos em que leio literatura em geral), ganhei de um aluno do meu último curso de finanças… O livro apresenta 12 grandes axiomas e 16 secundários, e cada capítulo finaliza com uma recomendação de estratégia especulativa. Li este livro com a confiança de que sempre se pode aprender algo, nos lugares, momentos e com as pessoas mais inusitados e improváveis (já tive vários exemplos disso em meu cotidiano…). E aprendi: principalmente, que especular não tem a ver apenas com conhecimento teórico e prático e com características de personalidade, mas também com cultura familiar e social – não é à toa que se trata de Zurique…

Destaco aqui, entretanto, os piores e mais dispensáveis dos ditos “axiomas”: o 4o. Grande Axioma: Das Previsões e o 5o. Grande Axioma: Dos Padrões. Qualquer aluno de graduação que tenha tomado um curso de finanças e tenha compreendido o conceito de “passeio aleatório” sabe tudo o que está dito nestes axiomas, de forma muito mais objetiva e clara (veja minha página sobre o assunto, em que explico a escolha do título deste blog).

No mais, a leitura foi divertida, o livro é recheado de casos de pessoas que se deram mal em determinadas situações dos mercados financeiros nas décadas de setenta e começo da de oitenta, por, segundo o autor, tomarem exatamente decisões que ele condena – a posteriori, contrárias aos axiomas…  O tom do discurso é, paradoxalmente, doutrinário e cômico, ou talvez tenha sido meu filtro ranzinza, para com este tipo de literatura, e científico demais que botou graça em tudo… uma diversão!

Como já apontei no post anterior, os objetivos de “investidores financeiros” e de “especuladores” são distintos e a teoria de finanças busca muito mais compreender e explicar o comportamento dos primeiros, que dos segundos, que podem, inclusive, ser amantes do risco – um tipo de “personalidade” da qual a teoria convencional não trata…

Resposta: não se pode ensinar a “atividade de especulação”.

Pode-se, isto sim, ensinar e aprender muitas ferramentas estatísticas e econométricas que vão te mostrar algumas coisas interessantes, muitos modelos teóricos que servirão de base para seu pensamento em vários momentos, muitos casos de especulação de sucesso e de fracasso que também trarão ensinamentos práticos, pode-se aprender e conhecer muito profundamente mercados específicos em que se pretende operar… mas nem mesmo o melhor conjunto de informação vai garantir nada – é tomar o risco e testar para saber se, munido de todas estas coisas em conjunto com suas características pessoais, culturais e sociais, você vai dar num bom especulador!

Boa sorte!

 

 

 

 

 

 

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3 Respostas to “A auto-ajuda da especulação”

  1. Livs Says:

    Muito interessante! A atividade da especulação (já levando em conta que a pessoa tenha conhecimento para tal)depende então, muito da sua personalidade – afeita ao risco, e do momento certo para se realizar a operação – ou seja: sorte!

  2. Flaco Marques Says:

    Senhor! Perdoai-vos por tentar econometrificar a intuição! Não sabem o que fazem senhor!
    Hehe.

  3. Sugestão de leitura para as férias « Random Walk Says:

    […] no mês de março, no post “A auto-ajuda da especulação“, apresentei algumas observações sobre um clássico dessa área: “Os Axiomas de […]


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