Por que o “mercado” acerta a taxa de juros?

 

Sempre que está para ocorrer uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a mídia realiza pesquisa com analistas de mercado sobre suas expectativas a respeito de qual será a decisão do Copom e, em geral, eles estão corretos em suas previsões.

Na semana passada, pesquisa da Reuters mostrou que “de 31 economistas ouvidos, 18 previam Selic estável este mês. Dos 13 que projetavam alta, 12 apostavam em elevação de 0,50 ponto percentual e um estimava alta de 0,25 ponto.” (citando UOL Notícias)

Por que isso acontece?

Existe inside information (informação privilegiada)? Ou será que os analistas de mercado dispõem de uma excelente bola de cristal?

Nada disso. Em geral, os analistas responsáveis pelas projeções sabem como funciona o regime de metas de inflação, bem como o modo pelo qual o Banco Central gerencia a política monetária. Dois requisitos são fundamentais para isso: a credibilidade e a transparência na atuação do Banco Central. E é muito importante que haja essa convergência entre o que os agentes que tomam decisões acham sobre os caminhos futuros da macroeconomia brasileira, leia-se, em última instância, os caminhos do PIB e da inflação, e o que o Banco Central acha, quando se escolhe gerenciar a política monetária por meio de um regime de metas de inflação.

Os anos da década de noventa marcaram o alcance de um consenso sobre o objetivo de longo prazo da política monetária: estabilidade de preços. Algum trade-off entre inflação e desemprego tem lugar, ainda, no curto prazo, uma vez que rigidezes nominais ou reais são admitidas.

Uma questão central de qualquer regime monetário diz respeito ao uso de uma âncora nominal para propiciar o alcance da estabilidade de preços. 

O que é uma âncora nominal? A âncora nominal é uma restrição sobre o valor da moeda nacional, necessária para sucesso de regimes monetários, e que provê condições para que o nível de preços da economia seja unicamente determinado.

No caso do regime de metas de inflação, a âncora nominal é exatamente as expectativas do público quanto à inflação futura, sendo extremamente importante que Banco Central comunique ao mesmo público, de forma clara e objetiva, como avalia a trajetória futura da macroeconomia. Para isso, em 2000, o BC iniciou a publicação de uma série de trabalhos para discussão, criando um canal de troca de informações e debate técnico com o público acadêmico e do mercado financeiro a respeito dos modelos e técnicas que poderiam, a princípio, ser utilizados como suporte para a tomada de decisão de política monetária, criando massa crítica para a compreensão mais ampla e profunda do funcionamento da economia brasileira. Além disso,   publica o Relatório de Inflação trimestral, divulga o cronograma das reuniões do Copom para o ano seguinte com a periodicidade das reuniões, composição e atribuições e competências de seus integrantes; divulga as decisões do Copom imediatamente, sendo que as atas explicando os motivos para a decisão tomada são divulgadas após uma semana – o que vem ocorrendo desde o início de 2000.

Assim, eu me preocuparia muito se, ao contrário, os analistas de mercado e agentes formadores de opinião em geral começassem a errar mais que acertar ao prever as decisões do Copom sobre a taxa básica de juros.

 

5 Respostas to “Por que o “mercado” acerta a taxa de juros?”

  1. Juliana Dal Pino Says:

    Not so RANDOM after all…! 😉

  2. Fernando Says:

    Sempre se fala de expectativas. Será que elas podem ser quantificadas? O pressuposto do preço como informação ainda é válido?

    • Roseli Silva Says:

      Há algumas formas de se aproximar de uma mensuração das expectativas, por meio de levantamentos primários, pesquisas de campo sobre “sensações” dos agentes a respeito do futuro, como são os indicadores de confiança, em geral. Há também indicadores antecedentes, como a produção da indústria de papelão e embalagens, ou o consumo industrial de energia elétrica, entre outros, que auxiliam na projeção do nível de atividade. E há também os mercados de derivativos que, ao formar preço hoje para entrega futura do bem (em geral commodities) ou outro ativo financeiro, também revelam as expectativas dos agentes. Mas tudo isso está sujeito à pressuposição de que o preço consubstancie a informação relevante para a tomada de decisão, o que é tanto mais verdade quanto menos falhas de mercado afetarem a formação do preço… Mas, confesso, hoje, após a última crise financeira em que os prejuízos privados foram socializados pelas maiores economias mundiais, eu não sei mais que ordem econômica prevalece… a de mercado parece estar irremediavelmente corrompida.

  3. Marcos Says:

    “Mas, confesso, hoje, após a última crise financeira em que os prejuízos privados foram socializados pelas maiores economias mundiais, eu não sei mais que ordem econômica prevalece… a de mercado parece estar irremediavelmente corrompida.”

    Então quer dizer que a Hipótese das Expectativas Racionais está FRACASSADA?


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