Lição de empreendedorismo: crise x oportunidades

   
 
 
“Economia Veneziana em crise” – Este poderia ser o título deste post, estivéssemos nós nos idos das primeiras décadas do século XVII. Caos à vista, ricas famílias venezianas de mercadores enfrentando queda na demanda por seus produtos, pessoas sem ocupações, imóveis com preços em queda… (as características das recessões não mudam tanto ao longo do tempo). 
Em busca de diversificação de seus investimentos, tais famílias passaram supostamente a investir seu capital excedente no ramo da locação de teatros, em que as companhias de saltimbancos, formadas por excelentes cantores e cantoras oriundos da escola romana de música sacra, podiam apresentar em Veneza suas montagens de comédias ou tragédias faladas. “Daí para a ópera passar dos palácios ao teatro foi apenas um pulo”*. 
O Teatro San Cassiano, empreendimento da família Tron, foi o primeiro a cobrar entradas para os espetáculos de ópera e seus gestores e artistas, Benedetto Ferrari (1603-1681) e Francisco Manelli (1594-1667), transformaram a ópera em um verdadeiro espetáculo multimídia, com cenários e figurinos de alto luxo, com engenhosas invenções que permitiam recriar em palco as emoções de grandes batalhas mitológicas, a fúria de deuses que desciam do Olimpo em belas carruagens voadoras, aventuras no mar, no ar e na terra!! O investimento realizado na qualidade visual e vocal do espetáculo, bem como o cuidado em adequá-lo ao gosto popular, tinha por objetivo minimizar os riscos de tal inovador empreendimento, num momento em que a Ciência Econômica nem pensava em nascer – diga-se de passagem… 

Empreender é, antes de tudo, ousar, enfrentar desafios para os quais, em geral, não há condições adequadas de análise ou de previsão. Requer coragem e uma boa dose de jogo de cintura para lidar com situações inusitadas, com contratempos, equívocos e riscos de toda sorte. 

Sob as boas práticas de finanças, é aconselhável que o investidor-empreendedor procure formular o melhor conjunto de informações possível para sua tomada de decisão… Mas, sendo assim, como explicar a ação de homens e mulheres que se lançaram quase às escuras numa nova atividade, na criação de um produto ou serviço totalmente diferentes, como estes empreendedores que popularizaram a ópera na Itália do século XVII, contribuindo para uma verdadeira transformação social?? 

Um “viva!!” para o misterioso “espírito animal” keynesiano, que poderia ter me levado a escolher para este mesmo post, lá no início do século XVII, o título:

“Nasce o mais belo espetáculo do mundo!”

 

* Para saber mais sobre esse e muitos outros epísódios da história da ópera, recomendo a leitura do delicioso e preciso livro de Sérgio Casoy, “A Invenção da Ópera ou A História de um Engano Florentino“, Editora Algol, 2007. Um primor!! Divertida leitura tanto para os iniciados e amantes da ópera, quanto para os novatos!

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4 Respostas to “Lição de empreendedorismo: crise x oportunidades”

  1. Dolores Says:

    Roseli, parabéns pelo blog. Em relação a sua colocação sobre empreendedorismo e empreendedores, as reflexões de Eduardo Giannetti em “Auto-Engano” são também muito instigantes. Comentando a decisão de Gauguin de abandonar uma vida pessoal e familiar confortável para dedicar-se à pintura no Taiti, ele afirma: “‘Os erros do ser humano tornam-no digno de amor.´ O maior erro de todos seria de jamais errar. Condenar todos os que perderam a aposta só porque perderam-na em retrospecto significaria condenar Gauguin a não apostar – a não arriscar tudo para tornar-se Gauguin. O valor da busca genuína, por mais patética e auto-enganada que se revele a posteriori, não depende do valor do resultado alcançado. A aposta vale por si, qualquer que seja o placar do sorteio. A crença ilusória de que conseguiremos realizar muito (ou o impossível) é muitas vezes a condição necessária para que realizemos pelo menos um pouco (ou o possível). ´Se as pessoas não fizessem ocasionalmente coisas tolas´, anotou Wittgenstein num caderno de trabalho, ‘ nada inteligente jamais seria feito.´ Sem o auto-engano ex ante de muitos, a humanidade se privaria do milagre do improvável da genialidade ex post de poucos. O diamante da imortalidade é a dádiva imprevisível do carvão mortal.”

  2. Flaco Marques Says:

    Quanto mais anárquico esse espírito animal for, melhor será seu fruto. Afinal, existe limite para o conhecimento?

  3. Sugestão de leitura para as férias « Random Walk Says:

    […] primeira recomendação, no post intitulado “Lição de empreendedorismo: crise x oportunidades” juntou algumas de minhas paixões: ópera, história e finanças, no livro de Sérgio […]


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