Síndrome de quase fim de semestre

 

Não tem jeito, ela está de volta… uma ano fora das salas de aula e achei que seria suficiente para aplacar a minha síndrome de fim de semestre. Não foi. E pior: ainda nem corrigi as provas intermediárias!!

Minha síndrome aparece na forma de um desânimo e um cansaço em despender energia para tornar o processo de ensino-aprendizagem mais eficiente, buscando formas mais adequadas de tratar os conteúdos, enfatizando o senso de continuidade dos temas abordados em aula, tentando inovações didáticas, etc, etc… Nada parece funcionar para que os estudantes compreendam seu papel no seu próprio processo de aprendizado: eles continuam lá, corpos presentes, mentes ausentes, como se aprendessem por osmose, raramente se dedicando àquilo que deles se espera – estudar, manter uma rotina do que eu chamo “horas-bunda de estudo”. Ok, você pode pensar que o problema não seja esse, que simplesmente a maior parte dos alunos (ou todos) opta por estudar outras disciplinas que não a minha, por motivos de afinidades pessoais com o conteúdo e/ou com o professor. É verdade. Isso pode acontecer, porém ainda não encontrei, em quase quinze anos de docência, um colega que me diga: “poxa, em média, essa turma estuda a minha matéria! participa das aulas fazendo questões interessantes (porque estudam antes da aula) e respondendo às questões que eu proponho, uma beleza!!”.

Sempre tenho longas conversas com alguns poucos colegas (de outras áreas) que se preocupam com o ensino e a formação dos estudantes, minha suspeita é a de que nosso sistema educacional forma robos passivos que vão às aulas esperando receber “cuspe e giz”. Pode até ser que seja, mas, poxa! no segundo ano de faculdade, com a idade e a experiência, já dá para começar a perceber que isso não funciona e que aprender depende mais de si do que do sujeito que está na frente da lousa!!

Até o final do semestre, minha síndrome se agrava e com certeza eu vou voltar aqui no papel de professora chata… rs

Felizmente, e porque minha decisão pela carreira docente é emocional e não racional, a cada nova turma eu recupero a esperança em que “dessa vez vai ser diferente”, afinal, estamos na Universidade de São Paulo, e se as coisas não melhorarem por aqui… enfim…

.

  

 

O bêbado no meio-fio

 

Passeio aleatório (Random Walk) tem um sentido comum, que se compreende por intuição, algo como ”sair por aí ao acaso, sem destino, nem direção…”. É uma boa intuição, diz algo importante sobre um passeio aleatório, mas não diz tudo.  Estamos falando de um processo estocástico (um conjunto de variáveis aleatórias) com características estatísticas muito próprias. 

Vou usar uma alegoria muito conhecida no meio acadêmico: pense num sujeito que abusou da ingestão de álcool – um bêbado – que vem caminhando pela rua e você, que observou o trajeto desde onde seus olhos alcançam, neste exato momento vê o bêbado no meio-fio, prestes a dar seu próximo passo. Eu te pergunto: “para que lado o bêbado cai? Para esquerda, para direita, vai ao centro??” Sua resposta: “Não sei!!”. Exato! Mesmo conhecendo a trajetória passada, você é incapaz de prever o futuro no passeio do bêbado…

A imprevisibilidade, na média, é uma característica intrigante desse processo, mais ainda quando se considera que, sim, tal processo tem tendência!! De um tipo especial (chamamos estocástica), mas tem tendência… E por quê? Porque o “para onde vai o bêbado”, os desvios que vão descrevendo a trajetória, acumulam-se infinitamente e todos eles afetam o momento presente desse caminho um tanto esquisito…

Para ficar mais fácil de entender, veja os gráficos seguintes:

 

Esses, eu mesma criei numa planilha de excel, por isso as datas no eixo horizontal são apenas ilustrativas.

Observando os gráficos, fica fácil compreender o significado da presença da tendência, da persistência na trajetória do passeio aleatório.

E só de olhar, para quem já teve a curiosidade de observar o gráfico de variáveis econômicas, vai pensar que estes passeios aleatórios criados por mim se parecem muito com o comportamento visual de coisas como a taxa nominal de câmbio, os preços das ações, os índices de movimentação das bolsas de valores, etc…

Isso mesmo… este é um fato estilizado de variáveis financeiras: em geral, apresentam as características de um passeio aleatório!! São, dessa forma, imprevisíveis… Então, muito cuidado se um analista ou consultor financeiro te disser que pode cuidar do seu dinheiro porque tem um método muito eficiente de prever o comportamento dos preços dos ativos financeiros… principalmente se este método for gráfico!! De fato, se houvesse conteúdo informacional para ser extraído para a média de tais variáveis, eu estaria rica… eu e a torcida do flamengo (que domina minimamente econometria de séries temporais…)!! Pode ser que haja conteúdo informacional na variância, ou seja, no comportamento do risco dos ativos, mas isso já é outra história…

Esse foi um assunto que introduzi na última aula de finanças, fundamental para compreender a hipótese de eficiência (fraca) dos mercados financeiros e começar a saga rumo à teoria de formação de portfólio, fundamento da moderna teoria de finanças. Vou falando mais sobre o assunto ao longo das semanas.

 


Inovações didáticas: o papel dos blogs

.

Não há dúvidas de que a blogosfera está revolucionando a mídia nos últimos anos. Muitos jornalistas independentes, profissionais de diversas áreas, acadêmicos, ou qualquer internauta que queira expressar suas opiniões, suas idiossincrasias, encontram na blogosfera um caminho rápido e fácil para isso.

Os blogs de economia ganham particular importância em momentos de crise como o atual e batalhas intelectuais interessantes travam-se nesse ambiente virtual (vou atualizar em breve minha lista de links que ficou parada no tempo e no espaço…).

Meu interesse principal em manter um blog tem sido, cada vez mais, didático. Como falei no post inaugural, não pretendo trazer para este espaço discussões extremamente técnicas e/ou complexas em minha área de atuação. Ao contrário, quero aqui aperfeiçoar minha capacidade de falar sobre economia numa linguagem simples e acessível, até mesmo informal, permitindo-me emitir avaliações normativas – o que procuro não fazer em sala de aula – sobre os diversos temas tratados.

O uso dos blogs para fins didáticos em economia ainda é bastante limitado e não tenho encontrado muitos blogs que possam servir de exemplo (estou fazendo um levantamento e aceito sugestões!). Por outro lado, se pensamos em uma atividade didática específica, como a que descrevo a seguir, qualquer blog de economia pode ser usado para este fim. Vejamos:

Exemplo de Atividade: Quando um conceito ou teoria são tratados em classe, pode-se propor aos estudantes uma atividade que consista em realizar buscas sobre opiniões de especialistas a respeito do tema abordado ou mesmo, para cursos mais avançados, que os estudantes tentem identificar na opinião expressa pelo especialista a lógica ou modelo econômico que o embasa (o que, diga-se de passagem, nem sempre é possível…).

Porém, quando falo do uso do blog como instrumento didático inovador, refiro-me a envolver os estudantes no aprendizado por meio de comentários sobre os posts associados aos conteúdos programáticos, participando ativamente, com dúvidas ou propostas de soluções de dúvidas que os colegas tenham postado, por meio da sugestão de outros blogs para leitura complementar, ou expressando a opinião sobre a forma como a matéria foi abordada, inclusive de forma crítica. A tentativa de implementar esse uso que me levou a abrir, desde já, duas páginas para concentrar posts associados diretamente aos conteúdos das disciplinas sob minha responsabilidade neste semestre (NPNG-Finanças I e NPNG-Macro I).

Para qualquer um dos usos, mas especialmente para o segundo caso, é essencial que a atividade no blog seja programada pelo professor, seja monitorada, e, mais importante, as dúvidas, opiniões e sugestões sejam levadas de volta para a sala de aula, contribuindo para o dinamismo e propiciando a integração entre os colegas e o estreitamento da relação professor-aluno, essencial para o aprendizado.

 

Política Econômica e Consistência Macroeconômica

 

O que se espera da atuação dos bancos centrais na gestão da política monetária nas modernas economias de mercado? 

Vale iniciar nosso argumento lembrando uma regra básica em política econômica: para se alcançarem vários objetivos independentes deve haver pelo menos igual número de instrumentos de política também mutuamente independentes. Estes instrumentos devem, adicionalmente, ser efetivos, no sentido de realmente influenciar as variáveis-alvo no grau necessário, sendo que cada instrumento deve ser direcionado para o alvo sobre o qual exerce maior influência relativa, seguindo o “princípio da classificação efetiva de mercados”. Uma regra conhecida há muito tempo, desde o início da década de cinqüenta do século passado, e reforçada pelos trabalhos de Robert Mundell, ganhador do Nobel de 1999 por seus trabalhos em economia monetária e internacional, nos idos dos sessenta – porém muitas vezes ignorada na gestão da política econômica nos períodos recentes.

A partir dessa consideração, nossa resposta começa a ser apontada e ela deve considerar, então, para qual objetivo de política econômica a política monetária é efetiva, naquele sentido. Sabe-se que estabilidade em economia aberta implica equilíbrio interno (crescimento econômico e estabilidade do nível geral de preços) e externo (equilíbrio do balanço de pagamentos). O papel dos governos e sua atuação por meio da definição de regimes e objetivos de política econômica e da gestão dos instrumentos disponíveis para atingir esses objetivos devem contribuir para a estabilidade econômica seja alcançada e mantida.

Definindo objetivos

Os objetivos da política econômica não são definidos pelos economistas, acadêmicos ou práticos, nem pelos burocratas, tampouco pelos gestores da política econômica – no caso da política monetária, presidente, diretores e técnicos dos bancos centrais. A definição desses objetivos faz parte de um contexto mais amplo de escolhas sociais, políticas e econômicas, e, para o bem ou para mal, não tem outro fórum de decisão que não o político, ao menos em sociedades democráticas.

Não por acaso, os agentes econômicos, em geral, e os dos mercados financeiros, em particular por serem mercados de ações e reações quase imediatas, buscam o máximo de informações possível para comporem um quadro de expectativas quanto a possíveis mudanças de regimes monetários, cambiais e fiscais em períodos pré-eleitorais. Basta lembrar a nossa história recente, nas eleições de 2002. Os regimes nada mais são que as regras, institucionalizadas por lei ou pela prática, de atuação do governo frente aos agentes privados e dependem fundamentalmente das escolhas realizadas na esfera política. Nada impede que um novo governante mude o regime monetário e passe a agir, por exemplo, discricionariamente, de maneira imprevisível e possivelmente não pautada pela racionalidade econômica.

Por outro lado, usando do conhecimento dessa mesma racionalidade, os agentes econômicos (os mercados, como gostam de chamar alguns analistas) sabem que deve haver uma adequação entre os regimes monetário, cambial e fiscal para que a conjuntura macroeconômica seja considerada estável, consistente.

Consistência Macroeconômica – um exemplo simples.

A escolha por um regime de câmbio fixo como âncora nominal para os preços da economia prejudica a eficácia da política monetária para o controle da taxa de juros doméstica, o que é tanto mais verdade quanto mais elevada for a mobilidade de capital. Um raciocínio simples ilustra o fato: suponha que um dado nível de taxa de juros mais baixo que o verificado seja almejado pelo banco central (seguindo os objetivos econômicos traçados politicamente), que providenciaria uma expansão da oferta de moeda doméstica comprando títulos públicos em poder dos agentes privados (ou, alternativamente, diminuindo os depósitos compulsórios, o que traria uma alteração na seqüência do raciocínio sem alterar qualitativamente as conclusões). De forma sintética, essa decisão aumentaria a demanda por títulos públicos, elevando seus preços e, simultaneamente,  reduzindo as suas taxas de retorno. As taxas de retorno dos títulos públicos de curto prazo são a taxa básica de juros de uma economia, no caso da economia brasileira, a taxa Selic. Porém, uma taxa de juros doméstica menor,  em ambiente de alta mobilidade de capitais, desestimula os investidores a aplicarem seus capitais no mercado financeiro doméstico e a procurarem mercados mais rentáveis para um mesmo nível de risco.

Esse movimento repercute na formação da taxa de câmbio, provocando excesso de demanda por moeda estrangeira (dólar, em geral) e pressionando a taxa nominal de câmbio (o preço de uma unidade de moeda estrangeira) para cima. Porém, o regime em que o país opera é, por hipótese inicial, de câmbio fixo, o que implica que o banco central deve ofertar moeda estrangeira no mercado cambial, para manter a taxa à paridade pré-determinada por ele próprio, utilizando-se de suas reservas cambais. Ao ofertar moeda estrangeira, o banco central contrai a expansão monetária inicialmente almejada pela atuação da política monetária até que cessem as pressões sobre a taxa de câmbio, o que, com perfeita mobilidade de capitais, consiste em re-estabelecimento do nível da taxa de juros doméstica inicial.

Há que se apontar, também, a necessária combinação de um regime fiscal bem definido e sustentável intertemporalmente para que não haja mais uma fonte de geração de instabilidade macroeconômica – afinal, quanto mais a situação fiscal se caracterize por necessidade de financiamento do setor público (superávit primário insuficiente para pagamento dos juros sobre o estoque passado da dívida) financiada por títulos de curto prazo e indexados à taxa básica de juros (o chamado perfil da dívida mobiliária interna), mais as condições de realização de política monetária estarão condicionadas às necessidades fiscais de disputar financiamento nos mercados financeiros com os investimentos privados (dominância fiscal).

O exemplo anterior ilustrou o tipo de raciocínio lógico que, sendo de conhecimento comum a analistas, economistas, e agentes econômicos afetados mais imediatamente pelas decisões de política econômica, faz com que situações como a mudança de regime cambial que ocorreu em janeiro de 1999 no Brasil não sejam surpresas, uma vez que reconhecidamente insustentáveis.

PS. Este texto foi parte de um artigo publicado no Boletim FIPE.

Observar, observar e observar.

 

Esses são os três mandamentos do bom econometrista. Sempre que dou aulas de econometria (mas não só) faço questão de usar essa brincadeira para que os estudantes aprendam que é preciso observar os dados, analisar gráficos e estatísticas básicas (sim, é por isso também que você estuda medidas de posição, de variação e de associação no seu primeiro curso de estatística) antes de sair apertando botões de poderosos softwares econométricos.

Pergunto aos alunos “Qual o primeiro mandamento do bom econometrista?”. Faz-se o silêncio… Eu respondo “OBSERVAR”. Pergunto em seguida, “E o segundo?” – alguns arriscam piadinhas típicas “torturar ou martelar os dados, para que eles digam o que você quer saber”. Eu aproveito a piadinha para informá-los que, além de péssima econometria, isso é ou ignorância ou má fé, ou ambas. Respondo, com bom-humor: “OBSERVAR!”. E, então obtenho de todos a resposta correta para o terceiro mandamento: “OBSERVAR!”.

E por que isso? Porque a tentação de sair apertando botão é grande, formular e estimar complexos modelos dinâmicos com restrições de curto e/ou longo prazos, e obter resultados em segundos! Que maravilha!! Dá uma sensação de poder e de conhecimento… Mas, como eu também costumo dizer, com softwares as coisas funcionam assim: entram dados errados ou sem sentido, saem resultados incorretos e sem sentido, por mais que os testes estatísticos possam mostrar resultados significantes.

Quantas vezes já recebi estudantes de mestrado em minha sala pedindo ajuda para analisar resultados de testes que eram completamente inesperados ou inconsistentes com os fatos estilizados? Várias. Em muitos dos casos, os problemas estavam na base de dados… problemas que teriam sido evitados se o estudante tivesse OBSERVADO seu próprio banco de dados. Outras vezes, os famigerados testes de tendência e de especificação de modelos multivariados, gerando resultados estapafúrdios, por que? Porque o aprendiz propõem especificações, às vezes, opostas àquelas que a simples observação de gráficos temporais e de dispersão entre as variáveis parecem indicar. Em se tratando de séries temporais principalmente, OBSERVAR é um requisito fundamental para não fazer besteira ou achar que está redescobrindo a roda.

Este tema me ocorreu porque, assistindo a apresentações de trabalhos em andamento dos estudantes de PhD aqui de Columbia, eu me dei conta de que o problema é comum aqui também (então, meus queridos alunos, vocês não estão sós!). Para ilustrar, descrevo um caso: o estudante leu um artigo que mostrava evidências empíricas de efeitos diferentes da política monetária sobre o emprego de trabalhadores qualificados e não qualificados na Turquia, por traz desses efeitos estudados há uma literatura de economia do trabalho. Então, ele, se achando o “golden boy”, propõe construir uma ponte para interligar a teoria de economia monetária e a de trabalho… Ok, pode ser realmente que essa evidência da Turquia seja comum a outros países… mas pode ser que seja associada às características específicas do mercado de trabalho daquela economia… O que se esperaria, antes de mais nada, seria uma análise básica, simples, da relação entre política monetária e o emprego (ou desemprego) de trabalhadores qualificados e não-qualificados para um conjunto de países, ou pelo menos para os EUA, economia que o estudante pretendia analisar. E esta foi, de fato, a primeira pergunta que os professores da casa fizeram ao sujeito: “mas… cadê os dados ilustrando a possibilidade de ocorrência desses efeitos?? Mostre ao menos um diagrama de dispersão para motivar a discussão.” Pasmem: o estudante não tinha o banco de dados com desagregação por qualificação. Ainda assim, fez um monte de conjecturas teóricas e estimou um modelo multivariado pros EUA com os dados tradicionais de emprego agregado, completamente inútil para os seus próprios propósitos… Impressionante.

Depois que os três primeiros mandamentos estiverem bastante bem compreendidos e praticados, os três seguintes são, claro, TESTAR, TESTAR e TESTAR, como já recomendava explicitamente David Hendry em 1980. Mas isso fica para um próximo post.


Mais alternativas ao “cuspe e giz”

 

Publicamos uma resenha bibliográfica* com o intuito de chamar a atenção para a importância das discussões sobre didática no ensino de economia, e aproveito, novamente, para trazer o tema aqui, reproduzindo o início dela e indicando a referência completa:

O objetivo geral do livro é facilitar o trabalho de economistas acadêmicos que querem encontrar novas maneiras de ensinar economia. Para tanto, apresenta e discute técnicas didáticas alternativas ao método tradicional de ensino, popularmente conhecido como “cuspe e giz”, que propiciem uma maior eficiência no processo de ensino-aprendizagem, engajando os estudantes de maneira efetiva. No prefácio da obra, os editores, William Becker, Professor de Economia da Universidade de Indiana e editor do Journal of Economic Education, Michael Watts, Professor de Economia do Centro para Educação Econômica, da Universidade de Purdue e Editor Associado do Journal of Economic Education, e Suzzane Becker, Editora Assistente do Journal of Economic Education, afirmam que os livros sobre ensino de economia estão na moda e que eles (W. Becker e M. Watts) anteciparam esta tendência ao publicarem em 1998, pela mesma editora, o primeiro volume do atual trabalho, esclarecendo que o volume de que trata esta resenha não é uma nova edição do anterior, mas, sim, um sequência, por trazer extensões e novos colaboradores, assim como uma atualização de tópicos tratados anteriormente, mas agora escritos por outros autores, dentre os quais Avinash Dixit, Willian Greene e Peter Kennedy.

O livro é composto por onze capítulos que tratam explicitamente do uso de novas técnicas didáticas, principalmente voltadas para introduzir os princípios básicos de economia seja para carreiras outras, seja para os primeiros cursos da formação do economista. Uma ênfase bastante grande é dada à aplicação de jogos que, além de ser o foco explícito do terceiro capítulo, também aparece no capítulo primeiro dedicado ao ensino de teoria dos jogos, bem como no quinto capítulo, que trata de técnicas de aprendizado ativo. O quê e como ensinar princípios de macroeconomia moderna com rigor de pensamento, mas dispensando o aparato algébrico e gráfico, é a discussão apresentada no capítulo sexto. O estudo de métodos quantitativos pode ser motivado por meio dos trabalhos dos laureados com Prêmio Nobel de economia, e o décimo capítulo trata deste tema. O livro se encerra com um capítulo sobre métodos de avaliação do aprendizado, que, afinal, também fazem parte da metodologia didática adotada pelo professor. Destacamos como pontos fortes da obra as referências bibliográficas específicas para cada capítulo e a praticidade da lista de dicas, denominada “do´s and don´ts” que trazem indicações importantes e iluminam o caminho dos que se aventurarem a inovar aplicando algumas das técnicas propostas no livro. A exposição das experiências didáticas de diversos autores é, ao mesmo tempo, interessante, mas implica sobreposição parcial de conteúdo em alguns capítulos, o que torna a leitura menos produtiva e pode ser apontada como um ponto fraco da obra.”

 

* Silva, R.; Batista-Ferreira, N.N. “Resenha Bibliográfica: BECKER, William E.; WATTS, Michael; BECKER, Suzzane R. (Ed.). Teaching Economics: more alternatives to chalk and talk. Cheltenham-UK: Edward Elgar Publishing Limited, 2006. 225 p.¨ Estudos Econômicos, v. 40, n. 4, P. 967-973, outubro-dezembro 2010.


Depósito Compulsório e taxa de juros

 

Continuando o assunto, vamos pensar agora numa estrutura financeira mais complexa, em que as pessoas decidem o quanto consumir no presente e o quanto poupar, de seu fluxo de renda corrente. Da decisão de consumo, deriva-se a decisão do quanto necessitarão de moeda (e, assim, quanto de moeda manterão em suas contas correntes e/ou em espécie) – as transações são um dos motivos para se demandar moeda. Porém, para a parcela da renda que se poupa, buscam-se aplicações em ativos financeiros que rendam juros, possibilitando um ganho ao poupador ao longo do tempo, como por exemplo a caderneta de poupança, os fundos de renda fixa ou variável, o títulos do governo, os títulos privados, as ações, etc. Assim, os bancos comerciais agora têm outras formas de captar recursos, que deverão ser devolvidos aos seus detentores, em determinados prazos com respectivas remunerações de juros, e podem, assim, emprestar tais recursos cobrando uma taxa superior aos tomadores de empréstimos (a diferença é o spread, como já falamos).

Do ponto de vista macroeconômico, quando agregamos os agentes econômicos em agentes privados (famílias e empresas) de um lado e governo do outro, as operações financeiras entre agentes privados são créditos para uns e débitos para outros e, são por simplificação, excluídas da análise nessa agregação. Restam, do ponto de vista de ativos financeiros, as transações entre agentes privados e governo e, além do ativo moeda, há também os títulos públicos! Então, pense que, nessa simplificação, estamos considerando que o ativo disponível para aplicação financeira é 0 título público de curto prazo, cuja remuneração é a taxa básica de juros da economia, associada ao agente de menor risco ou livre de risco, o governo. A importância de tal taxa é clara: a partir dela, as taxas de prazos e riscos maiores são determinadas – no caso brasileiro, falamos da taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia, em que são registradas as transações com títulos públicos em mercado secundário).

Ok, agora podemos resumir os efeitos dos depósitos compulsórios sobre a taxa básica de juros: suponha que haja uma elevação no depósito compulsório, sabemos (veja post anterior) que haverá menos capacidade de “criação de moeda por parte dos bancos comerciais”. Tudo o mais constante, os agentes estavam em equilíbrio tendo a quantidade desejada de moeda e de títulos em suas carteiras financeiras, e agora têm menos moeda à disposição, o que fazem? Reavaliam suas carteiras de ativos e ofertam títulos públicos buscando recompor a quantidade de moeda desejada, dado o nível de transações planejadas. Com excesso de oferta de títulos, o preço do título cai e a sua taxa interna de retorno se eleva (há uma relação inversa entre preço e juros dos títulos, como se observa facilmente em uma perpetuidade). Observe que, nesse processo, a única intervenção do banco central (autoridade monetária) foi  a elevação do compulsório, já que o resultado final de juros maiores é consequência do ajuste de carteira de ativos entre agentes privados no mercado secundário de títulos públicos.

É assim que o depósito compulsório pode ser, e é, utilizado como instrumento de política monetária! Observe também que, como este é um processo que passa pela decisão dos agentes privados em recompor suas carteiras de ativos, o efeito final sobre a taxa básica de juros é muito mais demorado (leva meses) e, portanto, incerto.

É isso!


Depósito compulsório e estabilidade financeira

 

Começando esse tema, vale a pena falar um pouco sobre o que seja o tal do depósito compulsório, uma vez que esse blog pretende ser um meio de comunicação com um público amplo. Para entendê-lo, também é preciso saber que as instituições financeiras, os bancos comerciais, em particular, são empresas privadas como qualquer outra e objetivam a maximização da riqueza de seus acionistas (todo trimestre, a mídia divulga os elevados lucros dos bancos, não é novidade para ninguém!).

E de onde vem o lucro dos bancos? Basicamente, da diferença entre a taxa de juros que eles pagam às pessoas que neles depositam seus recursos e a taxa de juros que cobram das pessoas que tomam emprestado deles – os bancos são intermediadores financeiros. Essa diferença é o spread dos bancos, do qual uma parcela considerável é lucro (outras partes são tributos, provisão para inadimplência e custos operacionais e fixos – para os quais também cobram tarifas, aliás).

Para facilitar nossa vida, vamos pensar apenas numa fonte de captação: os depósitos à vista, aquele dinheiro que fica na sua conta corrente, e que você usa no dia-a-dia para fazer suas transações ao longo do mês. Sabemos que tais recursos não recebem remuneração alguma por parte do banco em que temos conta corrente, fazem parte do que chamamos de moeda na economia. Porém, eles estão à disposição do banco para realizar empréstimos de curto prazo para outros agentes que têm escassez de recursos (operações típicas dos mercados de crédito), e claro, a uma determinada taxa de juros.

Então, vejamos: nesse caso, o banco recebeu depósitos e paga juro zero por eles, e pode emprestá-los cobrando algum juro. O que a lógica de maximização de lucros levaria os bancos a fazer? Emprestar 100% de tudo que captou como depósito à vista, claro!! Um exemplo pode ajudar:

Maria tem R$ 100,00 e os deposita em sua conta corrente no banco A. O banco A empresta, então, para o seu cliente João, os R$ 100,00 que captou como depósito à vista. João, o tomador do empréstimo a uma determinada taxa de juros, deposita os R$ 100,00 em sua conta corrente no banco B, que, por sua vez, empresta os mesmos R$ 100,00 que captou como depósito à vista para outro cliente, que por sua vez, deposita em sua conta corrente…

Se contabilizamos apenas esse fluxo contínuo de operações de depósito à vista e empréstimos, tendo como intermediários os bancos comerciais, quanto de moeda teríamos em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$100,00 do João + R$100,00 do fulano + R$ 100,00 + R$100,00. + …

Ou seja, uma quantia infinita!!

Enquanto todos os agentes donos dos seus respectivos R$100,00 em suas contas correntes estivessem tentando comprar bens e serviços pagando com seus cartões de débito, o único problema seria o seguinte: como não haveria uma quantidade infinita de bens e serviços para comprar, o excesso de demanda causaria uma elevação generalizada nos preços, ou seja, inflação!!

Mas… e se a Maria decidisse sacar R$ 1,00 (um Realzinho só!!) de sua conta corrente, o que aconteceria? Acompanhe a cena: Maria vai à boca do caixa e pede “Quero R$ 1,00 da minha conta corrente”. O Sr. Caixa vai até o cofre do banco e onde estão os R$ 100,00 de Maria?? Emprestados para o João! Maria: “Cadê meu dinheiro? Socorro!”. O mesmo aconteceria com todos que fossem tentar sacar dinheiro de suas contas correntes, ou seja, crise de pânico geral e o sistema bancário desmoronaria, falência geral.

Buscando evitar tais situações de crise de liquidez (falta de dinheiro), ainda nos primórdios da criação dos sistemas bancários no mundo, estabeleceu-se que a autoridade reguladora do sistema (os bancos centrais, na modernidade) devem definir um percentual daquilo que é captado pelos bancos como depósito à vista (não só, atualmente) como uma garantia para os saques dos clientes. Esse percentual é mantido pelos bancos compulsoriamente, sem poder ser emprestado, e constitui a taxa percentual de reservas compulsórias ou depósito compulsório.

No exemplo acima, suponha que o banco central estabeleça o depósito compulsório em 20% dos depósitos à vista. Então, dos R$100,00 que a Maria depositou no banco A, este poderia emprestar apenas R$ 80,00, e assim sucessivamente. Quanto de moeda haveria em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$80,00 do João + R$64,00 do fulano + R$ 51,20 + R$40,86. + …

Ou, colocando os R$100,00 em evidência: R$100,00*(0,8 + 0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8*0,8 + …) o que levaria a um total de R$ 500,00 que seria, então, o total de moeda em circulação na economia (para quem não se lembra, a soma entre parênteses é a soma infinita de uma progressão geométrica e resulta em 5).

Resumindo: as captações à vista dos bancos comerciais precisam ter uma parcela mantida à parte do sistema de intermediação financeira para garantir a estabilidade do mesmo, frente às necessidades de saques destes recursos por parte dos depositantes; a compulsoriedade tornou-se óbvia a partir das explicações acima, espero! Essa possibilidade de multiplicar a moeda em circulação na economia por meio dos empréstimos a partir dos depósitos à vista é o que tradicionalmente se denomina “poder de criação de moeda dos bancos comerciais”, e o tal poder é medido pelo multiplicador monetário (no caso do exemplo, valor de 5 obtido na soma infinita) que é, como se pode notar, inversamente proporcional ao percentual de reservas compulsórias. Quanto maiores os depósitos compulsórios, menos recursos sobram para os bancos emprestarem, e menor é o poder de “multiplicação” da moeda por parte do sistema bancário. Por esse motivo, tal percentual é também um instrumento de política monetária. Como ele e a taxa de juros estão relacionados, trataremos num próximo post, porque este já ficou muito longo…

Em busca de inovações didáticas…

 

Já tratei desse tema algumas vezes: considero necessário buscar instrumentos didáticos alternativos, que possam contribuir para o processo de ensino-aprendizagem. Esse processo requer a participação ativa do estudante, assumindo sua parcela de responsabilidade em seu aprendizado, ao realizar as atividades propostas, inclusive propondo alternativas à tais atividades, ao estudar com assiduidade e ao participar ativamente da aula, compartilhando suas dúvidas e buscando avançar com o auxílio do professor.

Os estudantes de hoje não são como os de vinte anos atrás: hoje há muita informação disponível, tudo se encontra na internet, tudo é muito rápido e superficial. As aulas não têm esse ritmo, e é difícil despertar o interesse e manter a concentração desses estudantes no momento da aula, daí a necessidade de inovações didáticas.

Pois bem, este semestre tentei algo diferente: abri um espaço para a disciplina que leciono na graduação aqui no Blog, a página “Bola da Vez!!!”. Não foi idéia original, não… Muitos colegas fazem isso, principalmente em outros países, e li sobre essa inovação num livro que resenhei* com uma colega, dentre várias outras que pretendo ir colocando em prática ao longo dos próximos semestres.

Resultado do Blog como instrumento didático este semestre: FRACASSO TOTAL.

A adesão dos alunos da disciplina foi nula. Nenhuma manifestação. Nenhuma dúvida, comentário, nenhuma interação entre a classe via blog. Posso pensar em algumas explicações para isso:

1. Meu perfil de professora (austera e exigente) inibe os alunos. É verdade… pode ser uma boa explicação, mas também sou bem-humorada e gosto de dar aulas, e estou certa de que essas características também são percebidas pelos alunos.

2. A disciplina deste semestre não ajuda. Outra verdade, matemática aplicada à economia II não é a coisa mais estimulante para se escrever sobre num blog, tem muitas equações, contas, modelos… Ok, vou dar um desconto…

3. Os estudantes, em média, querem mais é continuar passivos e ouvintes, querem ter o mínimo de trabalho possível nesse tal desse processo aí de que falo tanto, essa coisa de ensino-aprendizagem… Que, para eles, parece estar mais para “aprender por osmose”, basta ir à aula, sentar, fingir que está prestando atenção, balançar a cabeça positivamente para a professora não insistir na pergunta e continuar a falar e pronto! Se e quando receber seu diploma, será um economista!! Mas… essa explicação pode ser verdade para alguns, e eu me recuso a acreditar que seja para a média (é bom manter uma certa dose de ingenuidade e fé na humanidade nessa profissão…)

4. A inovação blog não é eficiente. Pode ser, mas eu acho que apenas uma evidência empírica é pouco para refutar uma hipótese… Acredito que a tradição do uso seja importante, e vou continuar tentando nos próximos semestres.

É isso! O que você, aluno, colega ou leitor, acha? Sua opinião é sempre bem-vinda!


Eficiência relativa nos mercados futuros

 

A hipótese de eficiência de mercado tem origens bastante remotas, mas se consolidou na forma em que é debatida até hoje a partir do trabalho de Fama(1970). Conforme tal hipótese, mercados eficientes são aqueles em que os preços refletem completamente as informações disponíveis. São caracterizados por um grande número de pessoas bem informadas, cujas decisões de compra e venda exercem rápida influência sobre os preços.

Fama (1970) classifica a eficiência em três tipos: fraco, semiforte e forte. Sob eficiência fraca, supõe-se que todas as informações relevantes já estejam incorporadas no preço à vista e, portanto, os preços passados não seriam úteis para previsão. Essa forma de eficiência corresponde à hipótese de passeio aleatório para os ativos financeiros (veja a página Random Walk???). Já a eficiência semiforte engloba, além das características do tipo fraco, a suposição de que todas as demais informações públicas também já estejam refletidas no preço à vista. Os preços à vista, sob eficiência forte, passariam a refletir, além dos conjuntos de informações anteriores, também informações privadas ou privilegiadas.

A hipótese de eficiência já foi amplamente avaliada para o mercado acionário, principalmente considerando-se os testes de passeio aleatório. Muitos trabalhos também abordam o tema no mercado de commodities, e suas conclusões, em geral, divergem da que Fama encontrou para o mercado acionário americano.

Em uma pesquisa com um ex-aluno do mestrado, testei a hipótese de eficiência relativa dos mercados futuro e à vista (spot) de açúcar, para dois horizontes de previsão, em contraposição à hipótese de arbitragem de commodities. Em linhas gerais, as evidências empíricas encontradas suportam a adequação da metodologia de cointegração para análise de eficiência relativa nos mercados de açúcar, em contraposição à hipótese de arbitragem e geram evidências fracas de ineficiência, resultados sujeitos à hipótese de estacionariedade do custo de carregamento (exceto pelo componente taxa de juros, que foi explicitamente testado para estacionariedade).

Quem tiver interesse, está para sair do forno:

Silva, R.; Takeuchi, R. “Mercados Futuro e à Vista de Açúcar: uma análise empírica de eficiência versus arbitragem“.  RESR, Piracicaba, SP, vol. 48, nº 02, p. 307-330, abr/jun 2010.



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.