O bêbado no meio-fio

 

Passeio aleatório (Random Walk) tem um sentido comum, que se compreende por intuição, algo como ”sair por aí ao acaso, sem destino, nem direção…”. É uma boa intuição, diz algo importante sobre um passeio aleatório, mas não diz tudo.  Estamos falando de um processo estocástico (um conjunto de variáveis aleatórias) com características estatísticas muito próprias. 

Vou usar uma alegoria muito conhecida no meio acadêmico: pense num sujeito que abusou da ingestão de álcool – um bêbado – que vem caminhando pela rua e você, que observou o trajeto desde onde seus olhos alcançam, neste exato momento vê o bêbado no meio-fio, prestes a dar seu próximo passo. Eu te pergunto: “para que lado o bêbado cai? Para esquerda, para direita, vai ao centro??” Sua resposta: “Não sei!!”. Exato! Mesmo conhecendo a trajetória passada, você é incapaz de prever o futuro no passeio do bêbado…

A imprevisibilidade, na média, é uma característica intrigante desse processo, mais ainda quando se considera que, sim, tal processo tem tendência!! De um tipo especial (chamamos estocástica), mas tem tendência… E por quê? Porque o “para onde vai o bêbado”, os desvios que vão descrevendo a trajetória, acumulam-se infinitamente e todos eles afetam o momento presente desse caminho um tanto esquisito…

Para ficar mais fácil de entender, veja os gráficos seguintes:

 

Esses, eu mesma criei numa planilha de excel, por isso as datas no eixo horizontal são apenas ilustrativas.

Observando os gráficos, fica fácil compreender o significado da presença da tendência, da persistência na trajetória do passeio aleatório.

E só de olhar, para quem já teve a curiosidade de observar o gráfico de variáveis econômicas, vai pensar que estes passeios aleatórios criados por mim se parecem muito com o comportamento visual de coisas como a taxa nominal de câmbio, os preços das ações, os índices de movimentação das bolsas de valores, etc…

Isso mesmo… este é um fato estilizado de variáveis financeiras: em geral, apresentam as características de um passeio aleatório!! São, dessa forma, imprevisíveis… Então, muito cuidado se um analista ou consultor financeiro te disser que pode cuidar do seu dinheiro porque tem um método muito eficiente de prever o comportamento dos preços dos ativos financeiros… principalmente se este método for gráfico!! De fato, se houvesse conteúdo informacional para ser extraído para a média de tais variáveis, eu estaria rica… eu e a torcida do flamengo (que domina minimamente econometria de séries temporais…)!! Pode ser que haja conteúdo informacional na variância, ou seja, no comportamento do risco dos ativos, mas isso já é outra história…

Esse foi um assunto que introduzi na última aula de finanças, fundamental para compreender a hipótese de eficiência (fraca) dos mercados financeiros e começar a saga rumo à teoria de formação de portfólio, fundamento da moderna teoria de finanças. Vou falando mais sobre o assunto ao longo das semanas.

 


O II Enbeco

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No ultimo dia 09 de março, encontramo-nos em Belo Horizonte, no Ibmec, para a realização do II Encontro Brasileiro de Blogueiros de Economia (Enbeco), organizado por Claudio Shikida e Cristiano Costa. No primeiro painel do evento, participaram os colegas Angelo Fasolo (The Duke of Hazard), Celso Toledo e Fabio Kanczuk (A Consciência de três Liberais), Drunkeynesian (Anônimo, mas não mais para os participantes do encontro!), que falaram sobre a crise do euro e o caso da Grécia, e concordaram que, após o ajuste da dívida grega, acabou a crise do euro, mas sem uninanimidade sobre a saída ou não da Grécia da zona do euro.

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No segundo painel, participamos eu, Thomas Kang (Oikomania) e Claudio Shikida. O tema era o uso dos blogs na sala de aula, eu iniciei o painel contando um pouco da minha experiência em usar o blog como repositório de textos sobre temas de macroeconomia e finanças, mas também como estratégia didática, com atividades que envolvem a participação ativa dos estudantes, conectadas a atividades em sala de aula e, obviamente, com avaliação e nota. Os colegas do painel contaram um pouco da história de seus respectivos blogs, mas sem um foco muito específico no tema. Num momento em que a internet ja vem revolucionando a educação, esse é um tema que não atrai os colegas professores de economia, aqui no nosso mundo – a maior parte vai mesmo na linha do “chalk and talk”… (veja esse post).

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O último painel contou com a participação de Cristiano Costa, Felipe Salto (Blog do Felipe Salto) e Fernando Meneguin (Brasil, Economia e Governo), tratando do tema fiscal, com a entusiasmada atuação do Cristiano, tentando chamar a atenção da platéia para o absurdo que é nossa estrutura tributária.

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Foi um encontro bastante divertido e informal, muito bem organizado, e que rendeu bons debates de idéias e, mais importante, a oportunidade para o público de conhecer um pouco mais das contribuições da blogosfera para a disseminação de informações e análises técnicas ou normativas sobre temas de economia.

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Obrigada a todos, patrocinadores, participantes e painelistas, e principalmente, ao Cláudio e ao Cristiano, pela organização do evento! 

European Safe Bonds: uma solução viável?

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A crise da dívida na zona do Euro tem sido um dos principais assuntos na mídia internacional nos últimos meses. Não vou ficar chovendo no molhado, aqui. Mas, assistindo a um painel sobre o assunto promovido pelo Program for Economic Research de Columbia Economics, há cerca de duas semanas, que teve como participantes Richard Clarida (columbia Economics), Ricardo Reis (Columbia Economics) e Charles Calomiris (Columbia Business School), algumas perspectivas interessantes sobre o assunto foram debatidas, dentre elas a proposta de criação dos European Safe Bonds (ESBies), defendida por Ricardo Reis.

Clarida foi o primeiro a falar e se posicionou muito contrariamente às “exigências absurdas” da Alemanha para que Grécia, Espanha, Itália e Irlanda absorvam, por meio de seus governos, as dívidas de seus bancos a fim de evitar uma crise bancária sem precedentes, que se espalharia como fogo pelo sistema bancário europeu, uma vez que alemães e franceses são os principais detentores de tais dívidas.

Calomiris (ele é muito bem-humorado e distribuiu um instigante texto de 9 páginas que pode ser encontrado aqui) argumenta que a saída para a Grécia é mesmo o calote e a reestruturação da sua dívida, para o quê necessita, sim, deixar a zona do euro. Em sua avaliação, os países em crise apresentam três distintos problemas que requerem diferentes respostas de política econômica: 1) sobre-endividamento; 2) elevados déficits acompanhados de sobre-endividamento; e 3) perda de competitividade; – a Grécia conjuga os três, por isso requer tratamento emergencial. E Portugal vai no mesmo caminho… Já Irlanda e Espanha parecem não estar em rota de insolvência fiscal, principalmente se não absorverem as dívidas externas de seus bancos locais. E para ele, a Itália poderia resolver rapidamente o problema de sustentabilidade da dívida (sobre esse assunto, veja esse post) se cortasse gastos fiscais, mas isso parece pouco provável pois está politicamente quebrada. O final de seu texto não é muito animador: os governos preferem postergar medidas impopulares e o resultado provável será uma sequência caótica de medidas emergenciais e ad hoc, pouco coordenadas, tomadas em resposta às corridas aos bancos na Grécia ou em outro lugar, conforme depositantes desconfiem da conversibilidade de seus depósitos.

Ricardo Reis apresenta uma saída interessante e baseada nos mercados financeiros no lugar dos governos, propondo a criação de um ativo seguro para a e zona do euro, os ESBies. Essa proposta se consolidou a partir dos estudos e discussões de um grupo de economistas europeus (macroeconomistas e economistas financeiros)  que se reuniu no grupo denominado Euro-nomics e que tem como objetivos “systematically identify the weaknesses of the Eurozone design that have caused this crisis and propose remedies to end it”, nas palavras do próprio. O argumento principal para a proposta é que o mercado de dívidas soberanas da eurozona é fragmentado, e vem sendo tratado na última década como se todas as dívidas tivessem o mesmo grau de risco, o que, de certa forma, propiciou o fácil e crescente endividamento dos países que hoje se mostram insustentáveis. Além disso, tal fragmentação não propicia que os títulos europeus façam face aos títulos do tesouro americano, que, assim, ganham espaço como referência global de ativo livre de risco. A operacionalização da proposta exigiria a criação de uma nova instituição européia, a European Debt Agency(EDA), que desmembraria o portfólio das dívidas soberanas dos países membros em duas partes, os ESBies propriamente, que funcionaria como ativo livre de risco, e um “título junior” (junior claim??) que absorveria as possíveis perdas do conjunto de títulos, podendo servir como meio de investimento ou especulação de curto prazo.

A proposta é ousada e requer todo um esforço de institucionalização complexo, mas não impossível, em minha opinião. Porém, quanto mais a eurozona se afundar no prognóstico de Calomiris, mais difícil e custosa será a implementação de tal proposta. 

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Política Econômica e Consistência Macroeconômica

 

O que se espera da atuação dos bancos centrais na gestão da política monetária nas modernas economias de mercado? 

Vale iniciar nosso argumento lembrando uma regra básica em política econômica: para se alcançarem vários objetivos independentes deve haver pelo menos igual número de instrumentos de política também mutuamente independentes. Estes instrumentos devem, adicionalmente, ser efetivos, no sentido de realmente influenciar as variáveis-alvo no grau necessário, sendo que cada instrumento deve ser direcionado para o alvo sobre o qual exerce maior influência relativa, seguindo o “princípio da classificação efetiva de mercados”. Uma regra conhecida há muito tempo, desde o início da década de cinqüenta do século passado, e reforçada pelos trabalhos de Robert Mundell, ganhador do Nobel de 1999 por seus trabalhos em economia monetária e internacional, nos idos dos sessenta – porém muitas vezes ignorada na gestão da política econômica nos períodos recentes.

A partir dessa consideração, nossa resposta começa a ser apontada e ela deve considerar, então, para qual objetivo de política econômica a política monetária é efetiva, naquele sentido. Sabe-se que estabilidade em economia aberta implica equilíbrio interno (crescimento econômico e estabilidade do nível geral de preços) e externo (equilíbrio do balanço de pagamentos). O papel dos governos e sua atuação por meio da definição de regimes e objetivos de política econômica e da gestão dos instrumentos disponíveis para atingir esses objetivos devem contribuir para a estabilidade econômica seja alcançada e mantida.

Definindo objetivos

Os objetivos da política econômica não são definidos pelos economistas, acadêmicos ou práticos, nem pelos burocratas, tampouco pelos gestores da política econômica – no caso da política monetária, presidente, diretores e técnicos dos bancos centrais. A definição desses objetivos faz parte de um contexto mais amplo de escolhas sociais, políticas e econômicas, e, para o bem ou para mal, não tem outro fórum de decisão que não o político, ao menos em sociedades democráticas.

Não por acaso, os agentes econômicos, em geral, e os dos mercados financeiros, em particular por serem mercados de ações e reações quase imediatas, buscam o máximo de informações possível para comporem um quadro de expectativas quanto a possíveis mudanças de regimes monetários, cambiais e fiscais em períodos pré-eleitorais. Basta lembrar a nossa história recente, nas eleições de 2002. Os regimes nada mais são que as regras, institucionalizadas por lei ou pela prática, de atuação do governo frente aos agentes privados e dependem fundamentalmente das escolhas realizadas na esfera política. Nada impede que um novo governante mude o regime monetário e passe a agir, por exemplo, discricionariamente, de maneira imprevisível e possivelmente não pautada pela racionalidade econômica.

Por outro lado, usando do conhecimento dessa mesma racionalidade, os agentes econômicos (os mercados, como gostam de chamar alguns analistas) sabem que deve haver uma adequação entre os regimes monetário, cambial e fiscal para que a conjuntura macroeconômica seja considerada estável, consistente.

Consistência Macroeconômica – um exemplo simples.

A escolha por um regime de câmbio fixo como âncora nominal para os preços da economia prejudica a eficácia da política monetária para o controle da taxa de juros doméstica, o que é tanto mais verdade quanto mais elevada for a mobilidade de capital. Um raciocínio simples ilustra o fato: suponha que um dado nível de taxa de juros mais baixo que o verificado seja almejado pelo banco central (seguindo os objetivos econômicos traçados politicamente), que providenciaria uma expansão da oferta de moeda doméstica comprando títulos públicos em poder dos agentes privados (ou, alternativamente, diminuindo os depósitos compulsórios, o que traria uma alteração na seqüência do raciocínio sem alterar qualitativamente as conclusões). De forma sintética, essa decisão aumentaria a demanda por títulos públicos, elevando seus preços e, simultaneamente,  reduzindo as suas taxas de retorno. As taxas de retorno dos títulos públicos de curto prazo são a taxa básica de juros de uma economia, no caso da economia brasileira, a taxa Selic. Porém, uma taxa de juros doméstica menor,  em ambiente de alta mobilidade de capitais, desestimula os investidores a aplicarem seus capitais no mercado financeiro doméstico e a procurarem mercados mais rentáveis para um mesmo nível de risco.

Esse movimento repercute na formação da taxa de câmbio, provocando excesso de demanda por moeda estrangeira (dólar, em geral) e pressionando a taxa nominal de câmbio (o preço de uma unidade de moeda estrangeira) para cima. Porém, o regime em que o país opera é, por hipótese inicial, de câmbio fixo, o que implica que o banco central deve ofertar moeda estrangeira no mercado cambial, para manter a taxa à paridade pré-determinada por ele próprio, utilizando-se de suas reservas cambais. Ao ofertar moeda estrangeira, o banco central contrai a expansão monetária inicialmente almejada pela atuação da política monetária até que cessem as pressões sobre a taxa de câmbio, o que, com perfeita mobilidade de capitais, consiste em re-estabelecimento do nível da taxa de juros doméstica inicial.

Há que se apontar, também, a necessária combinação de um regime fiscal bem definido e sustentável intertemporalmente para que não haja mais uma fonte de geração de instabilidade macroeconômica – afinal, quanto mais a situação fiscal se caracterize por necessidade de financiamento do setor público (superávit primário insuficiente para pagamento dos juros sobre o estoque passado da dívida) financiada por títulos de curto prazo e indexados à taxa básica de juros (o chamado perfil da dívida mobiliária interna), mais as condições de realização de política monetária estarão condicionadas às necessidades fiscais de disputar financiamento nos mercados financeiros com os investimentos privados (dominância fiscal).

O exemplo anterior ilustrou o tipo de raciocínio lógico que, sendo de conhecimento comum a analistas, economistas, e agentes econômicos afetados mais imediatamente pelas decisões de política econômica, faz com que situações como a mudança de regime cambial que ocorreu em janeiro de 1999 no Brasil não sejam surpresas, uma vez que reconhecidamente insustentáveis.

PS. Este texto foi parte de um artigo publicado no Boletim FIPE.

Reinhart: alertando sobre o endividamento dos países desenvolvidos

Nesta última segunda-feira, Carmen Reinhart foi entrevistada pelo jornal Folha de São Paulo (veja aqui), e repetiu a conferência que fez aqui em Columbia duas semanas antes. Os principais argumentos e resultados mais recentes estão em seu artigo, também com Kenneth Rogoff, intitulado “A Decade of Debt”, que pode ser encontrado em sua homepage (aqui), em que também disponibiliza TODOS os dados do livro, sobre o qual já falamos aqui.

Recomendo a leitura do artigo. Para instigar…

"Public debts in the advanced economies have surged in recent years to levels not recorded since the end of World War II, surpassing previous peaks reached during
the First World War and the Great Depression"

Workshop de econometria – ou será grego?

Atividades acadêmicas a todo vapor por aqui!

É muito bom poder voltar a ser estudante, andar à pé ou de metro (tem chovido bastante por aqui… e como venta nesta ilha!) – é… isso não é la muito bom, vai! Mas faz parte do pacote. Aliás, foi exatamente por essas possibilidades que decidi, há quase 5 cincos, sair da atuação em universidades privadas para a pública: não há nada mais prazeroso para mim que voltar a estudar, aprender coisas novas, conhecer o dia-a-dia de outra cultura, interagir com gente do mundo do todo! Entrar numa sala de aula e simplesmente ouvir, pensar, anotar e, às vezes, fazer perguntas (nunca dormir, bocejar descaradamente, ou entrar e sair a toda hora… )! E o mais: ali, na sua frente, explanando um tópico da matéria, um sujeito cujos artigos você lê desde que “se entende por gente” na área!! Fantástico!

Tenho frequentado os workshops de macroeconomia e de econometria, em que participam convidados de diversas universidades mundo à fora, e os colloquiuns dessas mesmas áreas. Nesses últimos, tenho me sentido bastante confortável, porque são apresentações dos artigos que comporão as teses dos estudantes de phd do departamento, então, embora o nível seja elevado, eu tenho acompanhado bem as discussões. O mesmo posso dizer do Money & Macro Workshop, coordenado pelos profs. Ricardo Reis (meu supervisor no programa) e Michael Woodford, que acontece às terças pela tarde, embora aqui realmente se discuta a fronteira da área, ainda tem sido bastante palatável.

Porém… Econometrics Workshop, coordenado pela prof. Serena Ng, que regularmente conta com a presença dos profs. Bernard Salanié e Jushan Bai… nossa! tem sido quase grego para mim! A discussão aqui é em nível avançadíssimo e teórico, claro. Para alguém que se pretende boa usuária da econometria apenas, como eu, é muito difícil entender o propósito dos artigos e muito menos o desenvolvimento deles. Para dar uma idéia, veja o título do último: “Cube-Root-N and Faster Convergence, Laplace Estimators, and Uniform Inference”… hã?? pareceu grego a certa altura da apresentação…


Interligação e contágio entre bolsas de valores

 

Tenho desenvolvido uma pesquisa sobre esse assunto, que ficou na gaveta esperando os efeitos das crises de 2007/2008 aparecerem devidamente nas séries temporais de índices de liquidez das bolsas de valores de quase 30 países. Quem trabalha com evidências empíricas entende o que digo: choques aleatórios ou quebras estruturais são eventos imprevisíveis (isso mesmo!) e tê-los no início ou no final de um período amostral é tudo o que um econometrista não precisa!

Pois bem, retomei o tema e atualizei, com a ajuda de um ex-aluno, o banco de dados e o trabalho entrou na lista dos que pretendo finalizar neste ano. Basicamente, a pergunta fundamental que busco responder é se há oportunidades de arbitragem de longo prazo entre os países estudados, ou, ao menos, entre grupos de países de classe de risco diferentes.

A interligação entre mercados financeiros internacionais, principalmente a partir dos anos noventa, tem sido tema recorrente de trabalhos teóricos e empíricos. As possibilidades de diversificação do risco, associadas à maior mobilidade e flexibilidade do movimento de capitais internacionais, levam à hipótese de que os mercados acionários domésticos já estejam apresentando uma significativa associação de longo prazo e de que a interdependência de curto prazo, que se revela nas relações dinâmicas entre esses mercados, também possa ser significativa e, assim, forneça informações importantes para a tomada de decisão por parte do investidor internacional, uma vez que podem implicar em previsibilidade e potencializar ações de estratégia de transação e hedge.

Há várias metodologias para avaliar essa questão, e é importante também distinguir  contágio e interligação.

Forbes e Rigobon (1999 e 2000)* discutem a literatura sobre contágio, mostrando que não há consenso sobre o que exatamente constitui o contágio ou como ele deveria ser definido. Os mesmos autores apontam que uma definição preferida do termo tem sido: “propagação de choques em excesso ao que poderia ser explicado pelos fundamentos”. Utilizando o exemplo dos impactos da crise russa sobre o mercado de ações brasileiro em 1998, contrargumentam que esses países não possuíam, então, quaisquer ligações comerciais fortes, ou competiam nos mesmos mercados, e tinham apenas poucas ligações financeiras diretas de tal forma que dificilmente se poderiam caracterizar ligações entre os fundamentos desses países, a não ser pelo aspecto fiscal e de endividamento semelhante. Os autores em questão enfatizam, ainda, que um problema de ordem prática (como medir?) também está associado à definição de contágio baseada em fundamentos econômicos.

Os mesmos autores sintetizam três metodologias clássicas para testar o contágio ou a interligação entre mercados acionários: correlação entre os retornos; análise de cointegração e modelos de volatilidade.

Minha pesquisa utiliza a metodologia de cointegração multivariada e caminha para a aplicação também de modelos multivariados de volatilidade. Espero em breve reportar alguns resultados aqui! Aguardem!

 

* FORBES, K.; RIGOBON, R. No Contagion, only Interdependency: Measuring Stock Market Co-movements. NBER Working Paper 7267, 1999.

FORBES, K.; RIGOBON, R. Contagion in Latin America: Definitions, measurement, and policy implications. NBER Working Paper 7885, 2000.

 

Depósito Compulsório e taxa de juros

 

Continuando o assunto, vamos pensar agora numa estrutura financeira mais complexa, em que as pessoas decidem o quanto consumir no presente e o quanto poupar, de seu fluxo de renda corrente. Da decisão de consumo, deriva-se a decisão do quanto necessitarão de moeda (e, assim, quanto de moeda manterão em suas contas correntes e/ou em espécie) – as transações são um dos motivos para se demandar moeda. Porém, para a parcela da renda que se poupa, buscam-se aplicações em ativos financeiros que rendam juros, possibilitando um ganho ao poupador ao longo do tempo, como por exemplo a caderneta de poupança, os fundos de renda fixa ou variável, o títulos do governo, os títulos privados, as ações, etc. Assim, os bancos comerciais agora têm outras formas de captar recursos, que deverão ser devolvidos aos seus detentores, em determinados prazos com respectivas remunerações de juros, e podem, assim, emprestar tais recursos cobrando uma taxa superior aos tomadores de empréstimos (a diferença é o spread, como já falamos).

Do ponto de vista macroeconômico, quando agregamos os agentes econômicos em agentes privados (famílias e empresas) de um lado e governo do outro, as operações financeiras entre agentes privados são créditos para uns e débitos para outros e, são por simplificação, excluídas da análise nessa agregação. Restam, do ponto de vista de ativos financeiros, as transações entre agentes privados e governo e, além do ativo moeda, há também os títulos públicos! Então, pense que, nessa simplificação, estamos considerando que o ativo disponível para aplicação financeira é 0 título público de curto prazo, cuja remuneração é a taxa básica de juros da economia, associada ao agente de menor risco ou livre de risco, o governo. A importância de tal taxa é clara: a partir dela, as taxas de prazos e riscos maiores são determinadas – no caso brasileiro, falamos da taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e Custódia, em que são registradas as transações com títulos públicos em mercado secundário).

Ok, agora podemos resumir os efeitos dos depósitos compulsórios sobre a taxa básica de juros: suponha que haja uma elevação no depósito compulsório, sabemos (veja post anterior) que haverá menos capacidade de “criação de moeda por parte dos bancos comerciais”. Tudo o mais constante, os agentes estavam em equilíbrio tendo a quantidade desejada de moeda e de títulos em suas carteiras financeiras, e agora têm menos moeda à disposição, o que fazem? Reavaliam suas carteiras de ativos e ofertam títulos públicos buscando recompor a quantidade de moeda desejada, dado o nível de transações planejadas. Com excesso de oferta de títulos, o preço do título cai e a sua taxa interna de retorno se eleva (há uma relação inversa entre preço e juros dos títulos, como se observa facilmente em uma perpetuidade). Observe que, nesse processo, a única intervenção do banco central (autoridade monetária) foi  a elevação do compulsório, já que o resultado final de juros maiores é consequência do ajuste de carteira de ativos entre agentes privados no mercado secundário de títulos públicos.

É assim que o depósito compulsório pode ser, e é, utilizado como instrumento de política monetária! Observe também que, como este é um processo que passa pela decisão dos agentes privados em recompor suas carteiras de ativos, o efeito final sobre a taxa básica de juros é muito mais demorado (leva meses) e, portanto, incerto.

É isso!


Depósito compulsório e estabilidade financeira

 

Começando esse tema, vale a pena falar um pouco sobre o que seja o tal do depósito compulsório, uma vez que esse blog pretende ser um meio de comunicação com um público amplo. Para entendê-lo, também é preciso saber que as instituições financeiras, os bancos comerciais, em particular, são empresas privadas como qualquer outra e objetivam a maximização da riqueza de seus acionistas (todo trimestre, a mídia divulga os elevados lucros dos bancos, não é novidade para ninguém!).

E de onde vem o lucro dos bancos? Basicamente, da diferença entre a taxa de juros que eles pagam às pessoas que neles depositam seus recursos e a taxa de juros que cobram das pessoas que tomam emprestado deles – os bancos são intermediadores financeiros. Essa diferença é o spread dos bancos, do qual uma parcela considerável é lucro (outras partes são tributos, provisão para inadimplência e custos operacionais e fixos – para os quais também cobram tarifas, aliás).

Para facilitar nossa vida, vamos pensar apenas numa fonte de captação: os depósitos à vista, aquele dinheiro que fica na sua conta corrente, e que você usa no dia-a-dia para fazer suas transações ao longo do mês. Sabemos que tais recursos não recebem remuneração alguma por parte do banco em que temos conta corrente, fazem parte do que chamamos de moeda na economia. Porém, eles estão à disposição do banco para realizar empréstimos de curto prazo para outros agentes que têm escassez de recursos (operações típicas dos mercados de crédito), e claro, a uma determinada taxa de juros.

Então, vejamos: nesse caso, o banco recebeu depósitos e paga juro zero por eles, e pode emprestá-los cobrando algum juro. O que a lógica de maximização de lucros levaria os bancos a fazer? Emprestar 100% de tudo que captou como depósito à vista, claro!! Um exemplo pode ajudar:

Maria tem R$ 100,00 e os deposita em sua conta corrente no banco A. O banco A empresta, então, para o seu cliente João, os R$ 100,00 que captou como depósito à vista. João, o tomador do empréstimo a uma determinada taxa de juros, deposita os R$ 100,00 em sua conta corrente no banco B, que, por sua vez, empresta os mesmos R$ 100,00 que captou como depósito à vista para outro cliente, que por sua vez, deposita em sua conta corrente…

Se contabilizamos apenas esse fluxo contínuo de operações de depósito à vista e empréstimos, tendo como intermediários os bancos comerciais, quanto de moeda teríamos em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$100,00 do João + R$100,00 do fulano + R$ 100,00 + R$100,00. + …

Ou seja, uma quantia infinita!!

Enquanto todos os agentes donos dos seus respectivos R$100,00 em suas contas correntes estivessem tentando comprar bens e serviços pagando com seus cartões de débito, o único problema seria o seguinte: como não haveria uma quantidade infinita de bens e serviços para comprar, o excesso de demanda causaria uma elevação generalizada nos preços, ou seja, inflação!!

Mas… e se a Maria decidisse sacar R$ 1,00 (um Realzinho só!!) de sua conta corrente, o que aconteceria? Acompanhe a cena: Maria vai à boca do caixa e pede “Quero R$ 1,00 da minha conta corrente”. O Sr. Caixa vai até o cofre do banco e onde estão os R$ 100,00 de Maria?? Emprestados para o João! Maria: “Cadê meu dinheiro? Socorro!”. O mesmo aconteceria com todos que fossem tentar sacar dinheiro de suas contas correntes, ou seja, crise de pânico geral e o sistema bancário desmoronaria, falência geral.

Buscando evitar tais situações de crise de liquidez (falta de dinheiro), ainda nos primórdios da criação dos sistemas bancários no mundo, estabeleceu-se que a autoridade reguladora do sistema (os bancos centrais, na modernidade) devem definir um percentual daquilo que é captado pelos bancos como depósito à vista (não só, atualmente) como uma garantia para os saques dos clientes. Esse percentual é mantido pelos bancos compulsoriamente, sem poder ser emprestado, e constitui a taxa percentual de reservas compulsórias ou depósito compulsório.

No exemplo acima, suponha que o banco central estabeleça o depósito compulsório em 20% dos depósitos à vista. Então, dos R$100,00 que a Maria depositou no banco A, este poderia emprestar apenas R$ 80,00, e assim sucessivamente. Quanto de moeda haveria em circulação na economia?

Resposta: R$100,00 da Maria + R$80,00 do João + R$64,00 do fulano + R$ 51,20 + R$40,86. + …

Ou, colocando os R$100,00 em evidência: R$100,00*(0,8 + 0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8 + 0,8*0,8*0,8*0,8 + …) o que levaria a um total de R$ 500,00 que seria, então, o total de moeda em circulação na economia (para quem não se lembra, a soma entre parênteses é a soma infinita de uma progressão geométrica e resulta em 5).

Resumindo: as captações à vista dos bancos comerciais precisam ter uma parcela mantida à parte do sistema de intermediação financeira para garantir a estabilidade do mesmo, frente às necessidades de saques destes recursos por parte dos depositantes; a compulsoriedade tornou-se óbvia a partir das explicações acima, espero! Essa possibilidade de multiplicar a moeda em circulação na economia por meio dos empréstimos a partir dos depósitos à vista é o que tradicionalmente se denomina “poder de criação de moeda dos bancos comerciais”, e o tal poder é medido pelo multiplicador monetário (no caso do exemplo, valor de 5 obtido na soma infinita) que é, como se pode notar, inversamente proporcional ao percentual de reservas compulsórias. Quanto maiores os depósitos compulsórios, menos recursos sobram para os bancos emprestarem, e menor é o poder de “multiplicação” da moeda por parte do sistema bancário. Por esse motivo, tal percentual é também um instrumento de política monetária. Como ele e a taxa de juros estão relacionados, trataremos num próximo post, porque este já ficou muito longo…

Medidas macroprudenciais e política monetária

 

Primeiro, vamos começar esclarecendo de que trata o tema deste post. Como os comunicados do Banco Central do Brasil (BCB) passaram recentemente a enfatizar medidas dessa natureza, dá a impressão de ser alguma inovação no campo da política monetária. Mas não é. Medidas ou ações macroprudenciais surgiram na literatura de regulação e supervisão bancária, na década de setenta e, não sem razão, tais termos ganharam importância nas discussões pós-crise de 2007-2008.

E por quê? Porque tratam exatamente de medidas para diminuir o risco sistêmico do setor bancário. Esse risco tem duas principais fontes: a primeira é a tendência a sobre-exposição a riscos que as instituições financeiras (assim como as empresas e os consumidores) apresentam no auge de um ciclo de crédito, seguida de uma excessiva aversão ao risco na fase de desaceleração (o que pode estar associado à crença de que uma instituição é muito importante para falir…); a outra importante fonte é o fato de que os bancos, individualmente, são incapazes de lidar com os efeitos de suas ações arriscadas sobre o sistema financeiro como um todo. As medidas macroprudenciais devem lidar com essas duas fontes de risco, por exemplo, elevando as exigências de requerimento de capital para operações de risco, como fez o nosso BCB no início do mês corrente, e, principalmente, centrado o foco na supervisão.

A literatura e a prática da política monetária tem resgatado esse tipo de medida em busca de  maior estabilidade e resiliência para o sistema financeiro, também chamando a atenção para os limites de tais medidas, que não podem, por si, fazer o ajuste fino do ciclo macroeconômico. Necessários também são: a operação dos instrumentos de política monetária, respondendo simetricamente às fases dos ciclos financeiros e de negócios; a política fiscal sustentável; assim como, de maneira vital, a cooperação internacional, sem a qual as ações de países individuais podem ser insignificantes no atual estágio de integração financeira mundial.

Como alerta, dada a recente ênfase da mídia sobre o tema e também sobre o discurso do futuro presidente do BCB, aproveito para destacar que medidas macroprudenciais não são a mesma coisa que operar instrumentos tradicionais de política monetária, como o depósito compulsório! Fazer política monetária por meio de depósito compulsório é apenas uma forma mais demorada e incerta (portanto, mais ineficiente) de alterar a taxa de juros, não se iludam com discursos enganosos que começam a exaltar “a libertação do BCB dos grilhões dos mercados financeiros”. Pura bobagem. Mas posso falar sobre isso num próximo post!

 


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