Programação do XII Workshop de Economia

Cartaz de divulgação -  XII Workshop de Economia

.

“Na minha economia”…

 

Tenho assistido às mais diversas demonstrações de criatividade por aqui. Os seminários e os colóquios rendem muito, e minha conclusão é a seguinte: a criatividade é tanta que a cada vez que ouço a expressão “na minha economia” se, de fato, houvesse ali uma tentativa de representar os fatos estilizados de uma economia real, teríamos milhares de economias no planeta terra! E cada uma mais esquisita que a outra!

Claro, eu entendo perfeitamente o papel do modelo econômico e advogo em favor, inclusive, de seu uso, uma vez que seria impossível representar toda a complexidade das relações econômicas reais. Pois bem, o que fazer então? Aqui vai uma sequência de passos simples para construir a “sua economia” e, por meio dela, compreender um pouco melhor a economia de todos nós:

  1. Comece pensando em um problema real, de interesse de economias com características parecidas, ou (o que é raro) de interesse de todas as economias (se almejar um estudar um problema geral assim, e conseguir, terá um belo artigo científico no final!).
  2. A motivação da sua pesquisa é o ponto mais importante, precisa ser muito clara e associada aos fatos estilizados relevantes (leia-se, história), produzidos por você por meio da análise dos dados ou encontrados na literatura;
  3. Estabeleça elos claros entre a sua proposta de abordagem do problema e as encontradas na literatura relevante. Não é necessário revisar e relacionar sua pesquisa com tudo que já foi produzido, isso seria mesmo praticamente impossível; porém, a seleção do que seja relevante é uma “fina arte” e mostrará aos pares quão especialista no assunto você é;
  4.  “Elos claros” significam duas coisas: em que aspectos sua abordagem é igual, em que se diferencia da literatura;
  5. Use, sim, a linguagem matemática e escolha os instrumentos adequados ao seu propósito, justificando-os brevemente, se fugirem do padrão. É a dinâmica do seu problema que te interessa? Ou são os equilíbrios de longo prazo? Você necessita de uma estrutura estocástica, ou seja, choques aleatórios te interessam, ou determinista? Para cada possibilidade, a matemática te oferece um possível instrumento de análise. Porém, conte também heuristicamente, com palavras, a estrutura básica que seu modelo matemático sintetiza, ressaltando, de novo, os aspectos em que você inova;

O que mais tem me preocupado é constatar como os colegas e estudantes por aqui facilmente se fascinam pelo instrumento, e esquecem os fins. Ou seja, invertem a ordenação acima e começam pelo modelo matemático que, por fim, não conseguem convencer que sirva para lançar luzes sobre problemas concretos… Ainda bem que há muitos e competentes colegas que insistem nas perguntas básicas: “ok, na ‘sua economia’ as coisas acontecem do jeito que você diz, mas em que circunstâncias, no mundo real, esse resultado seria factível?”. E pronto. Como diz uma amiga, “acabou história, morreu vitória”.

“Não entendi o enredo desse SAMBA, amor…”

.

Embora possa parecer pelo título deste post, esta não é mais uma tentativa de escrever sobre deus-e-sua-era como em post anterior, ainda que ela sempre esteja aberta e anunciada no próprio título do blog. Reconhecidamente, não tenho o talento e as “horas-bunda” (leia-se experiência vivenciada) de alguns colegas de profissão, como Eliana Cardoso, para fugir muito dos temas de economia, ainda. Voltemos a eles.

A menção à frase do samba composto por Jorge Aragão e Dona Ivone Lara destaca a palavra SAMBA como uma sigla. Como tem sido divulgado recentemente pela mídia, essa sigla nomeia o mais novo modelo de avaliação de políticas econômicas desenvolvido pelo Banco Central do Brasil (BCB), o Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach (SAMBA), nos moldes dos que têm sido adotados por bancos centrais no mundo todo ao longo da última década.

Para os que acompanham o Random Walk, isso não era novidade, pois o tema já foi tratado em,  Macroeconomia Moderna: convergência metodológica. A novidade é a divulgação em abril último, em forma de working paper, do SAMBA (veja aqui). A versão anterior, datada de setembro de 2008 circulou em meios restritos como trabalho para discussão em seminários e workshops de bancos centrais e apresentava ainda muitos problemas. A nova versão, em um calhamaço de 138 páginas (como divulgou recentemente o Estadão) está bem mais consistente em termos de representação da estrutura da economia brasileira. Eu tenho me debruçado sobre ela deste então… 

Os modelos da classe DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium), à qual pertence o SAMBA, apresentam duas características que podem justificar sua vantagem em relação aos macroeconômicos tradicionais, mais agregados: a primeira delas é que, em contraste com esses, é possível, dada uma correta especificação dos parâmetros da economia, utilizar os modelos DSGE para fazer previsões válidas e avaliar os impactos de mudanças de políticas econômicas, considerando a reação dos agentes a essas mudanças (livres da crítica de Lucas); e a segunda característica é o aumento na precisão das previsões que esses modelos propiciam.  

Eu tenho três pontos centrais de trabalho com tais modelos: 1. sua sensibilidade à escolha de parâmetros, e estou preparando minhas próprias estimativas dos parâmetros principais da economia brasileira para efeitos de comparação; 2. a capacidade do modelo em reproduzir as respostas empíricas, verificadas por meio da análise econométrica dos dados, grande calcanhar de Aquiles dos modelos estocásticos de equilíbrio geral, que vem sendo recentemente solucionada com a introdução de fricções financeiras nos modelos, e; 3. a sensibilidade dos resultados gerais à suposição de diferentes regras fiscais.

Claro… trabalho para mais de um ano! Por enquanto, estou “catando” os bugs (infinitos…) da primeira versão do meu modelo em Matlab, em breve espero ter resultados interessantes para compartilhar.

De toda forma, vale ressaltar que nenhum banco central do mundo toma decisão baseado apenas em resultados dos seus modelos DSGE. Afirmar isso, seja para o BCB ou qualquer outro, é completa falta de informação de como se gerencia política monetária ou má fé… Só mesmo para quem “não entendeu o enredo desse SAMBA, amor…”

.

Em busca de inovações didáticas…

 

Já tratei desse tema algumas vezes: considero necessário buscar instrumentos didáticos alternativos, que possam contribuir para o processo de ensino-aprendizagem. Esse processo requer a participação ativa do estudante, assumindo sua parcela de responsabilidade em seu aprendizado, ao realizar as atividades propostas, inclusive propondo alternativas à tais atividades, ao estudar com assiduidade e ao participar ativamente da aula, compartilhando suas dúvidas e buscando avançar com o auxílio do professor.

Os estudantes de hoje não são como os de vinte anos atrás: hoje há muita informação disponível, tudo se encontra na internet, tudo é muito rápido e superficial. As aulas não têm esse ritmo, e é difícil despertar o interesse e manter a concentração desses estudantes no momento da aula, daí a necessidade de inovações didáticas.

Pois bem, este semestre tentei algo diferente: abri um espaço para a disciplina que leciono na graduação aqui no Blog, a página “Bola da Vez!!!”. Não foi idéia original, não… Muitos colegas fazem isso, principalmente em outros países, e li sobre essa inovação num livro que resenhei* com uma colega, dentre várias outras que pretendo ir colocando em prática ao longo dos próximos semestres.

Resultado do Blog como instrumento didático este semestre: FRACASSO TOTAL.

A adesão dos alunos da disciplina foi nula. Nenhuma manifestação. Nenhuma dúvida, comentário, nenhuma interação entre a classe via blog. Posso pensar em algumas explicações para isso:

1. Meu perfil de professora (austera e exigente) inibe os alunos. É verdade… pode ser uma boa explicação, mas também sou bem-humorada e gosto de dar aulas, e estou certa de que essas características também são percebidas pelos alunos.

2. A disciplina deste semestre não ajuda. Outra verdade, matemática aplicada à economia II não é a coisa mais estimulante para se escrever sobre num blog, tem muitas equações, contas, modelos… Ok, vou dar um desconto…

3. Os estudantes, em média, querem mais é continuar passivos e ouvintes, querem ter o mínimo de trabalho possível nesse tal desse processo aí de que falo tanto, essa coisa de ensino-aprendizagem… Que, para eles, parece estar mais para “aprender por osmose”, basta ir à aula, sentar, fingir que está prestando atenção, balançar a cabeça positivamente para a professora não insistir na pergunta e continuar a falar e pronto! Se e quando receber seu diploma, será um economista!! Mas… essa explicação pode ser verdade para alguns, e eu me recuso a acreditar que seja para a média (é bom manter uma certa dose de ingenuidade e fé na humanidade nessa profissão…)

4. A inovação blog não é eficiente. Pode ser, mas eu acho que apenas uma evidência empírica é pouco para refutar uma hipótese… Acredito que a tradição do uso seja importante, e vou continuar tentando nos próximos semestres.

É isso! O que você, aluno, colega ou leitor, acha? Sua opinião é sempre bem-vinda!


Dicas para se preparar para provas


Estas dicas são especialmente para os meu alunos de Matemática Aplicada II, e se estendem ao estudo de conteúdos quantitativos e aplicados à economia, naturalmente.

Em primeiro lugar, identifique o assunto, o que é que você está estudando? Como esse assunto se relaciona com o que você já estou na área? O que tem de novidade? Quando você responde a essas perguntas você está construindo conexões em sua memória que facilitam a compreensão e o aprendizado efetivo, sem “decorebas”!!

Identificar o que é novo é importante para definir um foco claro e estudar de maneira eficiente. Confie no que você já sabe, não pense que será necessário estudar novamente todo o conteúdo anterior (desde limites e derivadas de função de uma variável, no nosso caso!!), apenas revisando aqueles pontos diretamente conectados ao que tem de novidade no estudo atual, se for necessário.

A partir da identificação do assunto em termos mais gerais, identifique os casos e as variações específicas. Para cada caso, esteja certo de que você sabe identificar a técnica de tratamento e/ou de solução adequados. Isso vai te poupar muito tempo no momento da prova, pois você diminui as chances de se atrapalhar tentando aplicar uma técnica de solução que não se aplica ao caso ou a um problema para o qual não há solução fechada (tais como boa parte das equações diferenciais não-lineares…)

Cumpridas as duas primeiras etapas, estude as técnicas de solução para cada caso. Aqui, cada estudante tem sua maneira própria – alguns gostam de resumir o conteúdo teórico, outros de apenas lê-lo, outros ainda preferem fazer esquemas lógicos mais visuais, etc. O importante é observar a regra geral: matemática (ou conteúdos quantitativos em geral) requer a prática, o treino, a resolução completa de exercícios, várias vezes. Apenas olhar, ler e achar que sabe fazer quando precisar não resolve em termos de um aprendizado efetivo, para a média dos estudantes – o treino é fundamental para a maioria de nós.

Depois dessas etapas de estudo, por se tratar de uma disciplina aplicada, é necessário associar as novas ferramentas e técnicas de solução ao conteúdo de Economia: identifique claramente as aplicações possíveis de serem realizadas para o seu nível de formação. Cheque se compreende o problema econômico envolvido e como o uso das novas ferramentas quantitativas melhora a sua compreensão sobre o assunto.

Se você estiver seguro de que compreende o básico, dedique um pouco do tempo e esforços intelectuais para pensar em outras variações possíveis, em extensões dos modelos ou formas diferentes de tratar o mesmo problema econômico, a partir do seu novo conhecimento quantitativo.  Afinal, você será um economista em breve!

E, o mais importante, estude com alegria! Com genuína vontade de aprender e de iluminar a escuridão da ignorância que nos acomete a todos nós, continuamente.

Bom estudo!

Dinâmica econômica – o mundo é dinâmico!

Quando se observa a economia em funcionamento, observa-se um mundo em movimento, dinâmico. Isso, em geral, acaba confundindo os estudantes de economia (e muitos dos economistas profissionais, infelizmente…), levando-os a pensar que os modelos estáticos, aqueles em que o tempo não aparece explicitamente, são inúteis para entender o mundo real.

Ao estudar dinâmica econômica, o tempo passa a ser a variável-chave e o foco da análise é a trajetória das variáveis de interesse (os preços ou as quantidades de bens específicos, sob diversas estruturas de mercado, o produto da economia, a taxa de juros, a taxa de câmbio, a dívida pública, etc…). A trajetória, para grande parte das variáveis econômicas, deve convergir para seus valores de equilíbrio intertemporal, que correspondem exatamente aos equilíbrios estudados nos modelos estáticos (cerca de 80% de toda a teoria que se estuda em uma graduação de economia é estática).

Uma ilustração gráfica de uma análise dinâmica poderia ser (em tempo contínuo):

Com este tipo de análise, pode-se avaliar como (com que formato de curva, neste caso, exponencial) e com que velocidade (quanto tempo) a variável se aproxima do equilíbrio. No entanto, também se aprende que, em geral, ela efetivamente nunca alcança o tal equilíbrio, nem mesmo se deixarmos o tempo passar infinitamente… Aí que surgem as confusões seguidas de desprezo pelas teorias estáticas. E aí também que está o erro!! Conceitualmente, é muito importante sabermos para que valor (equilíbrio intertemporal) tende a variável, ou, se a trajetória não for estável, de que valor a variável se afasta de forma persistente (situações de bolhas especulativas nos mercados financeiros ou de hiperinflação se aproximam desse caso). Importante também é analisar a velocidade de convergência e de que parâmetros do modelo ela depende, bem como em quanto tempo nos aproximamos o suficiente do equilíbrio intertemporal.

Ao longo do tempo, a trajetória da variável de interesse pode sofrer mudanças devido a alterações exógenas ou a choques aleatórios. Por exemplo, quando analisamos a trajetória das flutuações de curto prazo do produto da economia, sabemos que o equilíbrio sofre alterações em consequencia de mudanças de política monetária ou fiscal, fazendo com que a trajetória mude e inicie um caminho (longo ou curto, a depender dos mecanismos de transmissão expressos nos parâmetros numéricos do modelo) de aproximação a esse novo equilíbrio intertemporal, e é isso que observamos quando olhamos o mundo em funcionamento!!

PS. Aos alunos de Mat. Aplic. II, o último exercício da lista trata disso!!




Semestre novo, post novo…


Depois de um longo e tenebroso inverno… Eis que estou de volta!

Junho, correria de final de semestre… Julho, férias! Concordo… descumpri meu compromisso de persistência, assumido ao inaugurar este Blog – falhei em manter as postagens nos dois últimos meses.

Mas ao que interessa: semestre novo, novos projetos. Um deles é abrir uma página no blog para a disciplina que ministrarei na graduação; assim, teremos mais um meio de comunicação para trocar impressões, deixar opiniões sobre o andamento das aulas, sobre o conteúdo, etc. A disciplina, suponho, não é  a mais adequada para a introdução dessa inovação, mas vou experimentar de qualquer forma. Que seja já: o blog para a disciplina Matemática Aplicada II está aberto, na página ¨Bola da Vez¨!!!

Outra novidade é a criação do Clube de Leitura, que talvez mereça também uma página aqui… O que vocês acham? O clube será inaugurado com a leitura e discussão, com reuniões quinzenais, de uma obra clássica em economia: Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, de Jonh Maynard Keynes, publicada originalmente em 1936. Obra seminal para a macroeconomia moderna, poderá auxiliar os participantes a compreenderem muitos aspectos obscuros da macroeconomia básica de livros-texto, mas também plantará outras tantas questões interessantes nas cabeças desses futuros economistas…

Por enquanto, é isso! Um excelente semestre a todos!!



Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 348 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: