Tenho desenvolvido uma pesquisa sobre esse assunto, que ficou na gaveta esperando os efeitos das crises de 2007/2008 aparecerem devidamente nas séries temporais de índices de liquidez das bolsas de valores de quase 30 países. Quem trabalha com evidências empíricas entende o que digo: choques aleatórios ou quebras estruturais são eventos imprevisíveis (isso mesmo!) e tê-los no início ou no final de um período amostral é tudo o que um econometrista não precisa!
Pois bem, retomei o tema e atualizei, com a ajuda de um ex-aluno, o banco de dados e o trabalho entrou na lista dos que pretendo finalizar neste ano. Basicamente, a pergunta fundamental que busco responder é se há oportunidades de arbitragem de longo prazo entre os países estudados, ou, ao menos, entre grupos de países de classe de risco diferentes.
A interligação entre mercados financeiros internacionais, principalmente a partir dos anos noventa, tem sido tema recorrente de trabalhos teóricos e empíricos. As possibilidades de diversificação do risco, associadas à maior mobilidade e flexibilidade do movimento de capitais internacionais, levam à hipótese de que os mercados acionários domésticos já estejam apresentando uma significativa associação de longo prazo e de que a interdependência de curto prazo, que se revela nas relações dinâmicas entre esses mercados, também possa ser significativa e, assim, forneça informações importantes para a tomada de decisão por parte do investidor internacional, uma vez que podem implicar em previsibilidade e potencializar ações de estratégia de transação e hedge.
Há várias metodologias para avaliar essa questão, e é importante também distinguir contágio e interligação.
Forbes e Rigobon (1999 e 2000)* discutem a literatura sobre contágio, mostrando que não há consenso sobre o que exatamente constitui o contágio ou como ele deveria ser definido. Os mesmos autores apontam que uma definição preferida do termo tem sido: “propagação de choques em excesso ao que poderia ser explicado pelos fundamentos”. Utilizando o exemplo dos impactos da crise russa sobre o mercado de ações brasileiro em 1998, contrargumentam que esses países não possuíam, então, quaisquer ligações comerciais fortes, ou competiam nos mesmos mercados, e tinham apenas poucas ligações financeiras diretas de tal forma que dificilmente se poderiam caracterizar ligações entre os fundamentos desses países, a não ser pelo aspecto fiscal e de endividamento semelhante. Os autores em questão enfatizam, ainda, que um problema de ordem prática (como medir?) também está associado à definição de contágio baseada em fundamentos econômicos.
Os mesmos autores sintetizam três metodologias clássicas para testar o contágio ou a interligação entre mercados acionários: correlação entre os retornos; análise de cointegração e modelos de volatilidade.
Minha pesquisa utiliza a metodologia de cointegração multivariada e caminha para a aplicação também de modelos multivariados de volatilidade. Espero em breve reportar alguns resultados aqui! Aguardem!
* FORBES, K.; RIGOBON, R. No Contagion, only Interdependency: Measuring Stock Market Co-movements. NBER Working Paper 7267, 1999.
FORBES, K.; RIGOBON, R. Contagion in Latin America: Definitions, measurement, and policy implications. NBER Working Paper 7885, 2000.
