Outro dia, numa sala de aula, tratava de explicar aos alunos que hoje consideramos haver uma visão comum da macroeconomia, que evoluiu gradualmente a partir da revolução das expectativas racionais na década de 70 do século passado e se consolidou na década de noventa, tanto do ponto de vista teórico, quanto de aplicação prática.
Nesse novo consenso da macroeconomia moderna, podem-se destacar cinco componentes fundamentais:
1) O produto real de longo prazo está associado à produtividade de fatores de produção e tecnologia;
2) Não há tradeoff de longo prazo entre inflação e desemprego – a política monetária é neutra em relação às variáveis reais no longo prazo;
3) Há tradeoff entre inflação e desemprego no curto prazo, com importantes impactos sobre a flutuação econômica em torno da tendência de crescimento do produto;
4) As expectativas de inflação e das decisões de política futuras afetam as decisões dos agentes no presente;
5) A gestão da política monetária por meio de regras é preferível à discricionariamente, ajustando a taxa de juros nominal de curto prazo – o instrumento de política monetária – em reação aos eventos econômicos.
Na oportunidade, iniciamos também uma discussão sobre os impactos da última decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de elevação da taxa de juros sobre o crescimento da economia. Argumentei, à luz dos desenvolvimentos teóricos sintetizados nos cinco pontos anteriores, que o importante para o crescimento econômico sustentável são fundamentalmente fatores que limitam a capacidade de produção da economia, ligados, portanto, à oferta agregada no longo prazo, quais sejam: crescimento da produtividade do trabalho e do capital por trabalhador e desenvolvimento de novas tecnologias de produção.
E então, apresentei o seguinte gráfico ilustrativo deste raciocínio:
Nele, as retas com inclinações diferentes representam taxas de crescimento real do produto de longo prazo distintas, segundo os fatores apontados acima. Associei a reta mais inclinada (maior crescimento) à China e a menos, ao Brasil, pontuando que a produtividade do trabalho (capital humano) depende fundamentalmente da educação…
Por outro lado, as flutuações de curto prazo em torno da tendência de crescimento refletem principalmente os movimentos de demanda agregada, que o governo tenta minimizar por meio da política econômica.
Este é o assunto de um artigo da “The Economist” desta semana, intitulado “Voando alto demais” (veja repercussão no site da BBC Brasil): “o Brasil não é a China”, e pode entrar em colapso se crescer a mais de 5% ao ano, segundo artigo.
Quando o país cresce a taxas maiores que aquela compatível com suas condições de oferta de longo prazo, há inevitáveis pressões sobre os preços dos bens e serviços (aumentando a inflação), o que leva o governo a implementar políticas restritivas, como a última atuação do Copom na política monetária. É como se estivéssemos numa daquelas cristas das flutuações de curto prazo, com produto bem acima do potencial, e a política monetária trata de fazer a demanda agregada ”se comportar”, elevando a taxa básica de juros para conter o consumo das famílias e os parcos investimentos produtivos, mas… sem que seja o governo que tenha de gastar menos!! Simples, não?
As implicações das amplas diferenças nas taxas de crescimento reais ao longo do tempo sobre o bem-estar são enormes e se revelam nas condições de nutrição, saúde, alfabetização, mortalidade infantil, expectativa de vida, etc, de uma população, ultrapassando em muito qualquer possível efeito das flutuações de curto prazo.
Bem, acho que não preciso dizer mais nada.


