Avaliando o desempenho dos estudantes

 

Nada é mais difícil que avaliar o desempenho dos estudantes ao longo do processo ensino-aprendizado. Ocorreu-me compartilhar com os possíveis leitores alguns aspectos dos métodos que tenho adotado para tal atividade, quem sabe não surgem boas sugestões e discussões??

O ensino é, para mim, uma das contribuições sociais mais relevantes que um professor de uma universidade, pública principalmente, pode fazer (veja o post “Involve me and I learn“), e avaliar o aprendizado requer compromisso com a qualidade e dedicação de tempo e esforços (e muito!!). É preciso reconhecer, logo de partida, que a avaliação deve fazer parte do processo ensino-aprendizado, e não ser apenas uma métrica que expressa, sempre de maneira imperfeita, o desempenho do aluno – deve ser um instrumento por meio do qual o estudante se conscientize e se aproprie do seu processo de aprendizado, do qual somos coadjuvantes facilitadores. Eu tenho procurado adotar alguns procedimentos no sentido de me aproximar de uma avaliação formativa, que posso resumir nos pontos abaixo:

1. O método de avaliação é proposto para a turma logo no primeiro encontro e faz parte do programa, assim como as datas das avaliações e atividades.

2. Distribuo o peso da avaliação em atividades realizadas em sala de aula e fora dela, em grupos ou individualmente – tais como listas de exercícios, quizes em sala, “one minute paper”, trabalhos com apresentações para os colegas, experimentos e simulações, quando possível. É preciso deixar claro que qualquer atividade em grupo é mais uma oportunidade de aprendizado, com trocas entre estudantes e, sempre que possível, auxílio de um assistente de ensino ou de um monitor. No entanto, nunca ultrapasso 20% da média para tais atividades – será pouco??

3. Realizo pelo menos duas provas dissertativas, sem consulta, contemplando os pontos fundamentais do conteúdo. Em cada uma delas, uma questão é retirada integralmente das listas de exercícios e tem o importante papel de ser um ponto de entrada para a prova, diminuindo o estresse do momento de avaliação. Com isso, incentivo que, mesmo sendo uma atividade em grupo, cada aluno se dedique a compreender e saber solucionar todos os exercícios requisitados. Além disso, em cada questão a pontuação está claramente definida, inclusive para cada subitem, para o que estudante possa avaliar o peso relativo de cada questão e ponderar o uso do tempo e o grau de profundidade da resposta esperada.

4. Realizo vista de prova, em data prevista no cronograma, e este é o principal momento para que a avaliação se torne formativa. Neste dia, antes de entregar as provas corrigidas e discutir as respostar e tirar dúvidas sobre o conteúdo, proponho aos estudantes que respondam ao que tenho chamado de “chute educado”, em que requisito que me revele o número de horas que estudou para a prova (não tem sido muito informativa essa resposta…) e que nota espera tirar. Aqui, como todo economista sabe, preciso oferecer incentivos para que o aluno revele sua nota esperada com a máxima verossimilhança  e, para isso, ofereço como prêmio 0,5 ponto na nota da prova se a nota que espera tirar estiver num intervalo de 0,5 ponto acima e abaixo da nota efetiva, limites inclusos. Com isso, espero que o estudante se conscientize do trabalho que realizou, do quanto se dedicou para os estudos do conteúdo e como isso, naturalmente, se reflete na nota que ele tirou!! Esse meio ponto também tem um papel de minimizar distorções que a subjetividade da correção imprime às notas. Os resultados têm sido bastante interessantes e estou trabalhando num artigo sobre o tema, incluindo controles, claro – mais adiante farei um post sobre o assunto.

5. Por último, mas não menos importante, corrijo as provas por questão, e não por provas. Isso torna meu processo mais eficiente, pois mantenho a concentração na chave de resposta de apenas uma questão por vez e diminui as distorções entre provas, inclusive tomando o cuidado de começar e terminar a correção da questão num intervalo corrido de tempo, tomando pausas entre questões apenas.

É isso! Trabalhoso e cansativo, mas necessário.

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Reencontrando a jovem estudante de economia

 

Organizando meus arquivos antigos, deparei-me com textos que mal são reconhecidos no editor atual. São velhos. Velhos resquicíos de uma jovem e dedicada estudante de economia: eram os textos que compuseram minha iniciação científica, intitulada “Síntese Neoclássica e Curva de Phillips: uma formalização do problema da inflação” – sim, à época todos temiam o “dragão da inflação”!!

Fazer equações e gráficos naquela época era uma tarefa muito dura e eu, sem computador em casa e com pouco tempo para digitar meu texto no laboratório de informática da FEA, optei por deixar espaços que seriam preenchidos à mão por gráficos e equações… rs… algo impensável hoje! Nem por isso, o trabalho deixou de ter excelente qualidade e, além da bolsa Fapesp, recebeu um dos prêmios de melhor monagrafia daquele ano!

Tenho me divertido lendo os escritos da jovem estudante… E pretendo juntar todos os arquivos em LaTex e reeditar o trabalho completo qualquer dia desses (aceito ajuda, claro!). Por hora, reporto um trecho da subseção das conclusões (repare no subtítulo… rsrs…):

“Dos Ombros de um Gigante

       Este trabalho logrou percorrer uma boa parte dos desenvolvimentos da macroeconomia até a década de setenta. Começamos nos anos vinte com um estereótipo da teoria clássica, em seguida apresentamos as contribuições de Keynes através de um estudo da Teoria Geral. Com a Síntese Neoclássica procuramos chamar a atenção para alguns pontos importantes daquelas contribuições que foram completamente distorcidos ou negligenciados por esta reinterpretação neoclássica de Keynes. Visando compreender o instrumental de análise da inflação, agregamos ao estudo a Curva de Phillips e acompanhando suas versões vimos os pilares da racionalidade neoclássica sendo remontados.

      Embora ciente da pouca profundidade em muitos tópicos da análise aqui empreendida, a visão ampla do desenvolvimento da macroeconomia propiciada por este esforço de pesquisa permite questionar até que ponto a ciência econômica evoluiu de fato, no sentido de contribuir para uma melhor compreensão do real funcionamento das economias capitalistas modernas.”

 

Bem… daí já se depreende o viés crítico. O textou seguiu sintetizando os principicais desenvolvimentos do trabalho, enfatizando o uso intensivo de matemática e econometria (que não condenei, ainda bem… rsrs), e termina com estes dois singelos e ingênuos parágrafos:

 

“Se é a incerteza que cerca as decisões cruciais, como as de investir, que abre espaço para a não neutralidade da moeda e se não há  motivos para que, mesmo no longo período, a moeda perca suas peculiaridades e atributos a ponto de deixar de ser uma alternativa aos investimentos, não há  porque inferir sua neutralidade no curto ou no longo períodos.

      Mantendo esta postura mais realista, estamos mais próximos da compreensão do funcionamento das economias capitalistas avançadas e das questões macroeconômicas que delas emergem – descobrimos o mundo fascinante por trás das curvas de oferta e demanda!”

 

Ok. Não tenho como escapar – nos tenros anos da juventude, quase aderi à heterodoxia pós-keynesiana!!! Não me arrependo, foram anos de intenso aprendizado e estudo de textos clássicos, incluindo a própria Teoria Geral, de cabo a rabo estudada e debatida com minha orientadora, Profa. Silvia Schor, a quem só tenho palavras de agradecimento e reconhecimento pelo seu excelente trabalho de orientação. Enfim, tem sido divertido reler a jovem Roseli, tão cheia de ambições e sonhos, com a paciência e a tolerância que só a maturidade nos propicia!

 

 

Para os iniciantes em R, como eu!

 

Em minhas primeiras incursões ao aprendizado de R, tenho tentado me motivar a encampar o custo de entrada, e aqui compartilho alguns textos que estão em ajudando e podem ser úteis para outros novatos!

Aqui, 5 boas razões para usar R:

Econometrics by Simulation: Why use R? Five reasons..

E aqui, um texto que sintetiza aplicações a minha principal área de interesse: econometria de séries temporais (TSAR). Esclareceu muitas dúvidas que eu tinha sobre o poder das ferramentas disponíveis para área e também me alertou sobre a qualidade das bibliotecas disponíveis no CRAN, indicando a preferência por bibliotecas usadas em livros textos ou artigos publicados, já atestadas por pares em sua qualidade não só com uso da linguagem, mas também como ferramenta de análise eficiente. Ele também fala sobre usar Sweave  (“R supports high-quality technical typesetting and reproducible research including reproducible applied statistical and econometric analysis” e diz que escreveu o artigo usando isso e scripts de R. Alguém já usou? Ai, ai, ai… agora que me acostumei com LyX!!

 

 

 

 

 

Rrrrrrrrrrrrrrrr…

 

R.

É esse mesmo o tema do post. Não, não estou brava (ou estou? ok, estou). É que dedicar horas-bunda de estudo para aprender “mais uma linguagem ou mais um software”, depois de uma certa idade, tem um custo de oportunidade elevadíssimo… Mas vamos lá. Afinal, ensino numa universidade pública e usar um software livre nas aulas de econometria deve ter um benefício social bem maior que o meu custo privado – quero crer. Além disso, dizem os usuários, quando os estudantes precisam programar aprendem mais e melhor – tenho dúvidas. Tenho dúvidas inclusive de que seja possível rodar em R pelo menos 30% dos métodos e testes de especificação de um curso de séries temporais para a graduação (Claudio  tem a resposta??).

Exatamente para tentar dirimir essas dúvidas e minha ignorância no assunto que estou, segundo meu amigo Claudio Shikida, entrando no “maravilhoso mundo da linguagem R”. Aliás, veio dele a inspiração para encarar tal tarefa, já confessei isso e ele ficou feliz, concluindo que me Granger-causou! Em seu blog Gustibus, quase todo dia tem um post com dicas valiosas e aplicações iniciais a problemas de pesquisa interessantes, que ele denomina “Momento R do dia” – neste link estão os posts com etiquete R.

Por enquanto, só posso compartilhar com vocês meus passos iniciais dados na plataforma de aprendizado online para R, denominada DataCamp; comecei lá e estou gostando – é quase “R for Dummies” (em breve poderei implementar as dicas do Clau-clau)!!

 

 

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Experimentando Coursera

 

Finalmente resolvi conferir a indicação de alguns colegas e me inscrevi em alguns cursos oferecidos pela plataforma Coursera – uma plataforma educacional  que oferece cursos online gratuitos em parceria com universidades de renome internacional. Dois motivos principais me levaram a encarar esse desafio: 1) aprender metodologias e técnicas de ensino a distância eficientes (espero); 2) conhecer um pouco mais sobre assuntos de meu interesse e sobre softwares que ainda não domino.

Para atender ao primeiro objetivo, matriculei-me no curso Introduction to Computational Finance and Financial Econometrics oferecido por Eric Zivot, pesquisador e professor da Universidade de Washington. É sempre bom saber como outro professor ensina um conteúdo que nós mesmos ensinamos. Além disso, nesse curso, já será necessário algum aprendizado sobre o software R, outra atividade a que quero me dicar nesse semestre. Já estamos na terceira semana, de um total de 10, e tenho gostado bastante tanto das aulas quanto das atividades que os alunos precisam realizar.

É exatamente voltado para o aprendizado de R, o segundo curso em que me matriculei: Linguagem R, que se iniciará em 2 meses. Como se não bastasse, meu interesse em aplicações de neurociência à economia também encontrou uma oferta no Coursera: Introdução à Neuroeconomia: Como o cérebro toma decisões; esse mais já perto das férias, começando em 3 meses.

A estrutura dos cursos é baseada em vídeo-aulas, fóruns de discussão e atividades de avaliação semanais, que parecem funcionar bem. As vídeo-aulas, quando assistidas pelo site, permitem recursos como legendas em algumas línguas (raramente em português) e a opção entre acompanhar os slides ou a imagem do professor na tela principal, com a segunda opção numa tela menor ao canto direito.

Umas das coisas que me chamou a atenção logo de cara foi o  código de conduta de estudantes, e que a cada atividade de avaliação que fazemos nos é recordado:

  1. Me comprometo em criar apenas uma conta.
  2. As respostas para meus trabalhos, testes ou provas serão elaboradas por mim mesmo (com exceção daqueles que expressamente permitam trabalho em grupo).
  3. Eu me comprometo a não disponibilizar a ninguém as respostas para meus trabalhos, testes ou provas. Isso inclui minhas respostas ou as respostas fornecidas pelos organizadores do curso.
  4. Afirmo que não participarei de quaisquer outras atividades que irão, de forma desonesta, melhorar meus resultados ou melhorar / prejudicar os resultados dos outros.

Ou seja: “Não Colarás”; tudo que eu gostaria que meus próprios alunos fizessem!!

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Síntese de 2013 – com intenção de blogar mais em 2014… ;-)

The WordPress.com stats helper monkeys prepared a 2013 annual report for this blog.

Here’s an excerpt:

The concert hall at the Sydney Opera House holds 2,700 people. This blog was viewed about 9,800 times in 2013. If it were a concert at Sydney Opera House, it would take about 4 sold-out performances for that many people to see it.

Click here to see the complete report.

Ensinar macro nos dias atuais

 

Grande desafio.

Se você é professor de macroeconomia ou economia monetária sei que me entende bem. Não vou entrar na discussão da macro de fronteira e sua metodologia dominante, suas possíveis falhas em prever a última crise (??), seus avanços recentes sobre os efeitos de fricções financeiras e regulação, etc (recomendo esse post).

Estou falando do básico mesmo, em ensinar macroeconomia de forma que, ao final de uma sequência de cursos de graduação na área, o estudante possa olhar para o mundo lá fora sem um sinal de interrogação MUITO grande e, principalmente, compreenda que aulas de macroeconomia não são palestras em que “professores” despejam sobre estudantes sua visão de mundo, sem lhes oferecer a chance de compreender a lógica econômica que está por trás de sua análise normativa. Inicialmente é divertido, professor ri, brinca com os gestores de política econômica, aluno ri, anota tudo que o professor fala, acha que está entendendo tudo… depois, na hora de estudar, se dá conta de que há há teorias, há modelos, e ele não consegue encaixar neles nem 1/3 do que ouviu e anotou em aula. Nada contra uma aula descontraída, pelo contrário, mas tudo contra achar que o aluno sozinho vá fazer conexões e aprender apenas a partir daí – alguns poucos são capazes disso; e é papel do professor facilitar as conexões! Então, meu caro estudante, se você tem passado por situações como essa, um alerta: o sistema está te enganando!!

Tendo a concordar com o exposto por Krugman neste post, sobre o fato de que tudo que precisamos saber esteja nos velhos livros, principalmente em se tratando de ensino em graduação. Então, voltando ao nosso ponto, minha perspectiva é a de que falta ao ensino de macro um pouco da organização e do rigor lógico que o ensino de micro apresenta naturalmente. O que não significa que necessitemos microfuntamentar o ensino da macro na graduação, não. As relações agregadas dão bem conta da compreensão necessária sobre o assunto para um economista que atue fora da academia, em geral.

Na verdade, a discussão sobre o ensino de economia é um tema quente nos países desenvolvidos: veja esse post.

Minha estratégia para minimizar os problemas que observo no ensino de macroeconomia, bem mais mundanos que os apontados no post sugerido acima, é simples e requer aquilo que se espera de um professor: estratégia didática, coerência e inovação.

Neste material preparado para finalizar o curso de Economia Monetária (aqui), por exemplo, apresento dois modelos bastante simples que substituem o equilíbrio no mercado monetário (curva LM) por uma regra de Taylor (modelo de Taylor) ou estratégia endógena de política monetária (modelo de Walsh) que são muito mais relevantes para entender o processo de realização de política monetária atual que os tradicionais demanda e oferta agregadas. E há livros de macro que incorporam esses desenvolvimentos das duas últimas décadas, como este Macroeconomics, que estou avaliando adotar em meu próximo curso de Macro Internacional, no semestre que vem.

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